(Por Diego Freire) – A inclusão digital já é uma realidade consolidada no Brasil. Em grandes cidades é cada vez mais difícil encontrar pessoas que não tenham acesso à rede de internet – ainda que outros indicadores sociais, como a taxa de alfabetização e a renda per capita, não acompanhem esse rápido crescimento da tecnologia.

Em São Paulo, metrópole famosa por seus contrastes, até mesmo os moradores das regiões mais periféricas e humildes possuem uma lan house na vizinhança. Na favela de Helióplolis, a maior da cidade, elas já são pelo menos 30 e estão ao alcance de toda a comunidade, de 125 mil habitantes. “Fica impossível fazer uma estatística oficial já que muitas das lan houses daqui não são legalizadas. Apenas podemos estipular”, explicou o policial Raimundo Bechara, de 50 anos. Pois bem, se a polícia sabe que os estabelecimentos são ilegais, por que não tem o costume de tomar medidas a respeito? “Seria uma atitude burra. Os computadores estão aí para o bem de todos”, respondeu.

Pensando no aspecto social, Bechara tem razão. Quando comerciantes afirmam ser impossível adquirir alvará da prefeitura abrindo seu negócio em uma favela, a impunidade com a fiscalização passa a soar menos como uma violação da lei e ganha ares de alternativa para a sobrevivência. Heliópolis é mundialmente reconhecida por ser uma comunidade criativa e competente na busca de soluções para a pobreza (qualidade que já a tornou tema de um documentário da tv italiana e inspiração para projetos educacionais no México). No entanto, muitas dessas iniciativas esbarram na falta de comunicação com a prefeitura – como no caso da rádio pirata que permaneceu fechada por muito tempo até receber recentemente uma licença para funcionamento.

Dentro das dificuldades, algumas lan houses tentam se legalizar da melhor forma. O uso de softwares originais e registros como empresa são os diferenciais das casas mais próximas da regularização. “Não faz muito tempo que muitas das lan houses tiveram que ser fechadas, mas ainda assim a maioria é irregular”, contou Aline Oliveira, 19 anos, funcionária da Massimu”s Net (a única da região que vende cartuchos para impressora). Para evitar problemas com a violência e selecionar seus clientes, a Massimu”s é fechada sempre às 23h, não trabalha com jogos em rede e não permite a entrada em sites pornográficos. As normas dão resultado: quando estive lá, o clima era de total tranqüilidade – bem mais silencioso do que em qualquer outra lan house em que já estive.

No lugar da garotada gritando, o uso das máquinas para trabalho (como usava o casal de namorados Joelson e Daniele, que procurava informações sobre preços de saxofones – instrumento que Joelson toca na orquestra da igreja). Ao lado do Orkut e do msn o principal atrativo dessas lans é a impressão de currículos de emprego – errou feio mesmo quem achou que uma típica lan house de periferia seria um local depredado, repleto de vândalos.

Caminhando dois quarteirões, na mesma rua, visitei a lan house Virtual Cyber, uma das mais modernas de Heliópolis. Mesmo com apenas três anos de existência, ela está entre as mais antigas dali (o que mostra bem o quanto o fenômeno é recente nas áreas mais pobres. As primeiras lans do Brasil surgiram por volta de 1998). Lá conversei com a sorridente Charliane Santos, 19 anos, filha da dona e orgulhosa por ter saído, ao lado de sua mãe, numa matéria do Estadão.

Ela viu de perto o boom e a queda do negócio: “Quando me perguntam se lan house dá dinheiro, eu digo que dava… Há três anos atrás. Hoje em dia já tem lan house em todo lugar e ficou um pouco mais difícil”. Charliane estuda Direito e pretende seguir carreira, mas espera nunca se distanciar totalmente da Virtual Cyber. “A gente conhece muita gente bacana aqui”.

E foi exatamente com essa impressão que me despedi. Uma pessoa bacana, em especial, não poderia ficar de fora da reportagem. Mariana Antunes, de 20 anos, tem computador em casa, mas prefere usar a lan house do que encarar sua internet discada. Queria apenas fazer umas perguntas rápidas, mas ela é do tipo que gosta de falar da vida e não vimos o tempo passar (lá se foi 1 real do crédito dela na lan house, durante a mais de meia hora que conversou comigo sem olhar pro computador). Peguei o msn porque sei que quase todo dia ela estará online, direto da lan house.

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