Djamila Ribeiro é nova secretária-ajunta de Direitos Humanos em SP

Facebook/Reprodução Djamila Ribeiro é nova secretária-ajunta de Direitos Humanos em SP

Uma pesquisa recente do órgão Inter-Parliament Union (união internacional dos parlamentaristas, em tradução livre) apontou um número bastante preocupante para o Brasil. O país está apenas na 155º posição no ranking do número de mulheres ocupantes de cadeiras no Congresso em porcentagem. Em Brasília, apenas 51 das 513 posições do Congresso Nacional são ocupadas por integrantes do sexo feminino. Nesta classificação, a política brasileira está atrás de países como Índia, Marrocos e Azerbaijão.

Mas isso nada mais é que um reflexo da sociedade em que vivemos. No mercado de trabalho, por exemplo, apenas 11% dos cargos de liderança são ocupados por mulheres. Isso, aliás, é considerado um avanço, uma vez que até o começo de 2015 esse número era de 5%. Uma pesquisa de maio de 2015 de Grant Thornton colocou o Brasil na terceira posição entre os que menos promovem funcionárias às posições principais em empresas.

Nesse sentido, uma grande novidade surgiu na política paulistana no final do mês passado. Djamila Ribeiro, importante liderança dos movimentos negro e feminista, assumiu a posição de secretária-adjunta de Direitos Humanos e cidadania de São Paulo, um avanço comemorado pelas alas sociais que buscam uma democracia maior na representatividade social.

Como não poderia deixar de ser, Djamila, mestre em filosofia política pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), chegou com missões e objetivos claros, todos representados em um discurso forte e incisivo. “Queremos trabalhar nesse viés da questão racial, nos grupos que mais sofrem violação dos direitos humanos. Então a gente vem para colocar essas questões raciais e de gênero na centralidade”, disse ela, em entrevista exclusiva ao Virgula.

Cultura do estupro e machismo
A nova integrante da gestão municipal paulistana também não foge de suas posições quando o assunto é cultura do estupro e machismo. Apesar de estar ocupando um cargo público, Djamila Ribeiro trouxe com ela o “sangue nos olhos” que a caracterizou como referência de respeito em diversos grupos sociais. Para ela, acabar com machismo passa essencialmente pela desconstrução da masculinidade. “Acho o papel do homem muito importante no sentido de que eles precisam conversar mais, desconstruir a masculinidade hegemônica. Porque a masculinidade hegemônica, da forma que está construída, está diretamente ligada à violência, à agressividade”, opinou.

Djamila é representante dos movimentos negro e feminista

Facebook/Reprodução Djamila é representante dos movimentos negro e feminista

Leia a entrevista completa

Virgula – Quais são os planos iniciais para um trabalho curto, de apenas oito meses, como esse?
Djamila Ribeiro – É, eu estou no governo há apenas 17 dias, né. A gestão toda (da secretaria de direitos humanos) é nova. E agora estamos fazendo um balanço de tudo que foi feito. Vamos entregar e cumprir as metas que estabelecemos para os programas e entender o que ainda precisamos fazer, quais são os grupos que ainda precisamos atingir. É nisso que estamos focando agora. Por exemplo, estamos dando continuidade ao Juventude Viva, que é um dos carros-chefes da Secretaria, trabalhando com a juventude negra e periférica. Nos próximos meses vamos trabalhar na formação desses jovens, pra que eles possam ser multiplicadores nas suas regiões.

Virgula – Contando até o fim da gestão Haddad, você tem um tempo de trabalho realmente bem curto. Quais são os seus objetivos pessoais nesse período?
Djamila – É difícil falar de pessoal, porque somos uma gestão, uma equipe. Pensamos tudo conjuntamente. O que a gente pensa, eu e Felipe de Paula, o secretário, é trabalhar nesse viés da questão racial, nos grupos que mais sofrem violação dos direitos humanos. Então a gente vem para colocar essas questões raciais e de gênero na centralidade. Apesar de termos secretarias específicas para esses temas, entendemos que, como direitos humanos, precisamos ter uma visão geral.

Virgula – Nós temos um caso bastante emblemático nesse sentido, que, apesar de não ser da sua alça, envolve direitos humanos, que é o caso do menino Ítalo, que foi morto numa ação da polícia militar e é mais um caso envolvendo uma vítima negra, periférica e muito jovem. Como a Secretaria de Direitos Humanos faz esse canal pra dialogar com o Governo do Estado e a Secretaria de Segurança Pública pra tentar sanar esse tipo de ocorrência tão recorrente?
Djamila – Existe a tentativa de fazer esse diálogo. Mas acho que, mais importante, nós também temos a preocupação do que podemos fazer de programas para a proteção desses jovens. O Juventude Viva é um programa do Governo Federal e que o município de São Paulo está aplicando, que é justamente a gente conseguir criar uma rede de articulação desses jovens. Então nós temos um programa voltado para a juventude negra, apesar de entendermos que a questão da polícia é uma questão do Estado, nós, enquanto Prefeitura, não podemos nos isentar dessa responsabilidade. Nossos jovens do Juventude Viva ganham uma bolsa para que eles não tenham que trabalhar e possam se dedicar aos estudos.

Virgula – Um ranking publicado no site ipu.org mostrou que o Brasil está na posição 155 entre os países com maior porcentagem de representação feminina, com apenas 9%, atrás de lugares como Índia e Marrocos. São 51 mulheres entre 513 deputados. Eu queria saber sua opinião sobre isso e a importância de você integrar um governo, mesmo municipal, dentro de um país como esse?
Djamila – Acho muito importante termos uma representatividade feminina e negra nesses espaços, mas isso não é só na política. Se formos pegar todos os espaços de poder, mulheres negras são minoria. Mas eu gostaria de focar aqui na nossa gestão. Nós temos uma secretaria própria de mulheres e na Secretaria de Direitos Humanos 9 das 14 coordenações são comandadas por mulheres. A minha vinda para cá reflete esse compromisso da gestão e a compreensão da importância de termos mulheres, sobretudo progressistas e comprometidas com a agenda dos movimentos, e em outras secretarias nós também temos mulheres atuando e um protagonismo feminino em pastas muito importantes. A questão da representação é uma discussão que precisa ser feita cada vez mais, porque nós temos outros olhares e temos muito para contribuir com a gestão pública por conta da nossa experiência.

Políticas públicas favoráveis aos negros e população periférica ganharam mais espaço

Facebook/Reprodução Políticas públicas favoráveis aos negros e população periférica ganharam mais espaço

Virgula – Queria falar com você sobre o hoje principal assunto em pauta, que é a cultura do estupro e a questão da violência contra a mulher. Você é feminista, negra, com uma opinião bastante marcante nesse sentido. Como a gente faz pra sair dessa situação de divisão social com um resultado positivo, com uma evolução de fato, e qual o papel de um homem pra tentar dar força ao movimento e tentar colaborar dentro desse cenário que vivemos hoje?
Djamila – Acho o papel do homem muito importante nessa questão. Acho necessário focar na educação, tentar transformar a mentalidade, e que os homens não achem que eles são autoridade para não cometer uma violência, por exemplo. Acho o papel do homem muito importante no sentido de que eles precisam conversar mais, desconstruir a masculinidade hegemônica. Porque a masculinidade hegemônica, da forma que está construída, está diretamente ligada à violência, à agressividade. Então não acho que seja um papel só das mulheres, creio que eles poderiam discutir, mas, sobretudo, a partir do lugar que eles ocupam.

Precisamos fazer uma discussão na sociedade muito mais profunda, porque a violência contra a mulher é muito banalizada e naturalizada. Como temos falado recentemente muito da cultura do estupro, faz parte dessa cultura o assédio que sofremos diariamente que, muitas vezes, é banalizado, uma cantada, e não é vista com a seriedade que deveria ser, então acho que precisamos focar muito na questão da educação, porque é lá que conseguimos transformar mentalidade, e que os homens entendam que eles não estão autorizados a fazer isso. Tem se falado somente na questão da punição e eu não concordo, não acho que sendo mais rigorosos com leis nós vamos conseguir mudança. Lei não muda cultura. Apesar de eu achar que isso é importante, mas há um limite muito claro. Acho que o foco tem que ser na atuação histórica dos movimentos feministas, de pautar essa questão, de trazer o debate público, para que possamos desnaturalizar essas violências. Mas acho o papel do homem fundamental, sobretudo para desconstruir essa masculinidade e essa autorização que eles acham que têm sob os nossos corpos.

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