Lidia Zuin

Divulgação Lidia Zuin

Lidia Zuin é jornalista, mestre em semiótica e doutoranda em artes visuais pela Unicamp. Head do núcleo de inovação e futurismo da UP Lab, é pesquisadora, editora do blog e curadora de notícias do newsletter UP Future Sight.

Trabalhou para a Rockstar Games e tem textos publicados em sites como Versions, Kill Screen, Folha de S.Paulo, Syfy, bem como outros artigos em revistas como a Fast Life. Atualmente também é pesquisadora de tendências em tecnologia para a Envisioning e atua como freelancer na área de produção de conteúdo e pesquisa em futurologia.

Leia nossa conversa com a pesquisadora de 27 anos, em que ela fala sobre o “new space”, a entrada do dinheiro privado no espaço, trabalho, o impacto do crescimento dos smartphones no Brasil, ficção científica e outros assuntos.

De que maneira o new space pode mudar o nosso cotidiano?
Lidia Zuin – No ano passado, fiz uma reportagem sobre o Elon Musk e futurismo para a revista Fast Life. Para isso, entrevistei o biohacker americano Amaal Graafstra, criador da Dangerous Things, loja que vende os chips em NFC (Near Field Communication – comunicação por campo de proximidade) para implante entre outros gadgets implantáveis. Ele comentou justamente sobre isso com relação ao Musk, de como a atuação dele no setor espacial tem feito diferença pela inserção do capital privado. Apesar de o Musk ter várias questões que podem ser controversas, o grande diferencial é que certos projetos de exploração espacial começaram a tomar forma porque entrou o dinheiro de um investidor privado na área, não mais dependendo somente da NASA e do governo americano para isso. Fora todo o discurso que ele tem por trás dessas empreitadas, que são considerados inspiradores por muitos.

Acredito que a entrada do dinheiro privado no espaço pode, com certeza, mudar o nosso cotidiano e acelerar essas mudanças, só não saberia dizer se por bem ou por mal. Nas minhas pesquisas em tendências tecnológicas para a Envisioning, trabalhamos também com tendências em tecnologias espaciais que podem vir a se desenvolver nos próximos anos… e uma delas é, por exemplo, o projeto de um elevador espacial. Alguns textos defendem que esse elevador é possível de ser construído, cientificamente falando, mas que tem a “pequena” questão de que o investimento seria bem alto. No momento, temos muito capital circulando em ações ou mesmo na compra de criptomoedas como o Bitcoin, enquanto que algumas figuras bem isoladas têm investido na exploração espacial, como é o caso do Musk. Então, nesse sentido, ele realmente tem esse diferencial para causar essa mudança a partir do dinheiro privado.

O Brasil vai lançar uma missão à lua em 2020. Crê que isso possa atrair mais jovens para a pesquisa do espaço?
Lidia – Tenho um pouco de dúvida se realmente vamos lançar uma missão à lua em 2020. É um prazo bem curto e, no ano passado, alguns textos chegaram a atualizar essa data para 2021. Cheguei a ver o projeto da startup que tem se dedicado a isso e acho que a parte mais interessante é como eles estão fazendo uma divulgação científica interessante, especialmente se focando em alunos do ensino fundamental e médio. Acho que esse tipo de curiosidade deve ser estimulado já desde cedo.

Quando somos crianças, temos esse tipo de liberdade, de ambição em pensar que, por exemplo, vamos ser astronautas quando crescermos. Mas, com o tempo, ao envelhecermos, chegada a época do vestibular, muitos acabam desistindo desses sonhos por considerá-los utópicos demais ou que não irão prover sustento financeiro.

São preocupações totalmente plausíveis, mas se tivermos projetos estimulando e mostrando que é possível seguir outros caminhos que não as “profissões tradicionais”, talvez a gente consiga ter menos medo de se arriscar e seguir essa ambição. Acredito que uma parte do problema, nesse sentido, é a falta de informação, porque muitos acabam escolhendo profissões como advocacia ou medicina achando que são “dinheiro garantido” por conta de uma tradição, quando, na verdade, hoje temos um inchaço e um despreparo nessas categorias que provam que isso não é verdade.

Muitas profissões serão extintas nas próximas décadas, crê que isso possa agravar problemas sociais?
Lidia – Em parte, sim, assim como aconteceu durante a revolução industrial, por exemplo. Acho que, em um primeiro momento, isso pode causar um problema social de desemprego em massa quando, por exemplo, deixarmos de ter uma equipe humana no call center para usarmos chatbots no suporte ao cliente.

Esses profissionais vão precisar se reposicionar no mercado, possivelmente atuando em outra área, se profissionalizando em outras atividades. Isso porque, ao mesmo tempo em que a automação faz com que certos empregos se tornem defasados, ela também cria mais empregos relacionados. E a isso não estão associadas apenas profissões na área de tecnologia da informação e engenharia, mas, novamente, no caso do chatbot, algumas empresas especializadas em entretenimento contratam escritores para criar o roteiro e a comunicação desses robôs conversacionais, de modo que eles pareçam realistas, assim como os personagens de um livro de ficção, por exemplo.

Em termos de comportamento, o que acha que esteja mudando mais rápido no Brasil hoje?
Lidia – Acho que a crescente popularização do smartphone e do acesso à internet no país faz com que tenhamos uma outra postura diante de questões como redes sociais, compras online, como nos informamos e como direcionamos nossa atenção às mídias. Já não se considera mais o smartphone como a “segunda tela”, mas sim a primeira.

“Cerca de 65% da audiência do YouTube vem do celular, redes sociais nos estimulam a produzir conteúdo imagético e textual, conhecemos novas pessoas a partir de aplicativos de relacionamentos, temos acesso a música de forma gratuita com o Spotify ou então sabemos a nota de um restaurante que queremos ir a partir do TripAdvisor ou em resenhas no próprio Facebook. Acredito que na equação tecnologia e comportamento, é justamente o lado social e portátil das tecnologias que mais têm influência no Brasil.

Que autor de ficção, da literatura, cinema ou qualquer arte, construiu a sua ideia de “futuro” com mais força?
Lidia – Como autora e pesquisadora de cyberpunk, acredito que a principal e mais popular referência de world-building na literatura foi William Gibson, tanto que foi da obra dele mesmo que partiram expressões como “ciberespaço” para tratar do espaço virtual, bem como é dito que a forma como ele visualizou o ambiente digital em sua ficção influenciou também na confecção do design do desktop com janelas e ícones.

Por outro lado, acredito que a estética do futuro cyberpunk, que hoje poderíamos considerar nosso presente (a temporalidade do gênero gira em torno de 2020), também se calcou muito no que Ridley Scott fez com a adaptação do romance proto-cyberpunk de Philip K. Dick, Do Androids Dream of Electric Sheep?, para os cinemas sob o título de Blade Runner. Do mesmo modo, a animação Ghost in the Shell também tem um universo super complexo e cheio de particularidades, de modo que tanto Masamune Shirow quanto Mamoru Oshii se tornaram referências imagéticas na ideia de futuro. Não consigo dizer apenas um autor. Acredito que foi o conjunto da obra e como cada autor e obra acabou trazendo um pouco dos seus antecessores e repassando suas considerações adiante.

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