Já faz algum tempo que as conversas sobre meio ambiente não animam
somente as rodas de bichos grilo e outros românticos. Agora ecologia é
um papo que está sendo levado a sério. Nesta década, termos como
sustentabilidade e aquecimento global foram repetidos à exaustão nos
noticiários e em campanhas publicitárias. Ainda mais com a conferência
sobre as mudanças de clima em Copenhague, que vai até o dia 18 de
dezembro.

Enfim, a ecologia caiu na boca do povo. E quase sempre que se fala
nisso, o assunto ganha um tom apocalíptico. Geleiras se desfazendo,
florestas em chama, o sertão que vira mar, o mar que vira sertão.
Aquele futuro catastrófico relacionado com as ações do homem no
planeta, que contribuem de forma fatal para o aquecimento global, com
suas emissões desenfreadas de gases de efeito estufa.

Recentemente, uma polêmica esquentou a discussão. Hackers roubaram
emails de cientistas do IPCC (Painel Intergovernamental de Mudanças
Climáticas), e anunciaram que o órgão mais importante que estuda o
aquecimento global teria manipulado dados para chegar a resultados mais
alarmantes.

Verdade, mentira? Será que toda essa história verde é apenas mais uma
estratégia de marketing para vender os mesmos produtos de sempre
embalados numa bonita caixa de papel reciclado? É claro que qualquer
coisa que entre na “moda” tem uma reação quase instantânea nas
prateleiras do supermercado e do shopping center. Deixe as pessoas
assustadas, e venda panacéias de toda a sorte aos montes.

Mas, afinal, como se posicionar diante desse blá blá blá?

Em primeiro lugar, não é preciso esperar o fim do mundo. Basta observar
os atuais indicativos do PIB mundial, em que apenas 20% da população
mundial consomem mais de 80% da riqueza produzida, enquanto os 80% da
população restante tentam sobreviver com 20% dos bens de consumo. Quer
mais fim de mundo do que isso? Além de explorarmos os recursos naturais
do planeta como se não fossem finitos, agravamos o abismo social.

Enquanto a lógica da sociedade consumista continuar aliando o progresso
somente ao desenvolvimento econômico, dentro das regras ditadas pelo
capitalismo, essa desigualdade só irá crescer. Aí está o verdadeiro
desafio que enfrentamos hoje. Não se tratam somente da redução da
emissão de dióxido de carbono pelos países ricos e do auxílio
financeiro para a criação de energia limpa para os países em
desenvolvimento _metas importantes da COP-15. É preciso mudar o
paradigma de uma sociedade solitária, consumista e individualista, para
uma sociedade solidária, que crie alternativas de desenvolvimento
sustentável. E quando falamos em mudança de comportamento, o caminho a
seguir é o da educação. Numa sociedade onde é mais importante ter do
que ser, devemos primeiramente nos reeducar como consumidores.

Só que a sustentabilidade não pode ser reduzida a um produto que é
embalado e vendido com uma etiqueta eco-tralalá. É um conjunto de
relações: entre as pessoas, e entre as pessoas e o planeta. Enxergar
essa rede de elos é o primeiro passo para se ter uma atitude
sustentável. Ver a ligação entre o lixo jogado nas ruas e a enchente
dos rios, entre o desmatamento da Amazônia com a carne ilegal no
mercado, entre a superlotação nas cadeias e o esvaziamento das escolas
com a escalada da violência urbana, e por aí vai.

Esse longo caminho para uma sociedade mais justa passa tanto pela
pequena ação cotidiana de cada pessoa (aparentemente banal) como por
grandes ações coletivas (ditas românticas). Vale trocar o copo
descartável de cafezinho por outro reutilizável no trabalho, porque se
trata de estabelecer uma nova cultura que substitua a do desperdício.
Vale ocupar em bando o congresso e exigir punição para o político
corrupto. O que não vale é ficar parado e fingir que o problema não é
com a gente.

Peri Pane é apresentador do programa Ecoprático da TV Cultura e criador da performance homem refluxo.

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