Um pouco de rebeldia e confusão no começo. Mas depois, aceitação e obediência. Nos dois meses desde que entrou em vigor no estado de São Paulo, no dia 7 de agosto, a lei antifumo parece ter sido incorporada ao cotidiano da balada sem grandes traumas. Foi o que o Virgula constatou ao conversar com pessoas que trabalham na noite, em lugares de perfis diferentes.

Rodrigo Ferrari, DJ residente da Pacha, reduto de fãs endinheirados de house e techno, conta que a pista de dança interna da casa sofreu de princípio. O motivo é que, antes, a pista ao ar livre só abria às 3 da manhã, quando a casa já estava bem cheia. Com a lei, passou a ficar acessível desde o começo da noite, sem som e sem bar, apenas como fumódromo.

“Ficou difícil juntar as pessoas na parte de dentro nas primeiras horas. Tivemos então que limitar o número de fumantes na parte externa em 40”, explica o DJ. “Só assim a pista interna voltou a ter um movimento normal.”

E o cumprimento da lei na parte de dentro? “Cheguei a ver pessoas fumando abertamente nos camarotes, mas o segurança pedia e elas paravam”, diz Rodrigo. “O mais engraçado são alguns DJs convidados, já vi muitos abaixarem atrás das picapes pra dar uns tragos escondidos.”

Já na FunHouse, no bairro da Consolação, frequentado por um público mais alternativo na faixa dos 25, que ouve de indie rock a eletrônico, a chegada da lei foi complicada no início. “Tivemos uma pequena queda de público, mas pode até ter sido por causa do fim das férias”, diz Fabrício Miranda, DJ e promoter da noite FunHell, que rola às quartas na casa. “Mas têm pessoas que tão saindo de novo porque o ar melhorou e não voltam para casa parecendo um ‘cinzeiro vivo’, como dizem alguns.”

A casa chegou a expulsar alguns “contraventores” nos primeiros dias. “Era gente que foi fumar no banheiro e, como decidimos que a política seria de tolerância zero, tivemos que botar para fora”, diz Fabrício.

Ou sai ou polícia

Ali perto, no clube Vegas, a gerente Amanda D’Attilio, conta que “no começo tinha muita gente revoltada, muita briga para sair. Muitas pessoas que vêm de outros estados não entendiam esse negócio de não poder fumar. A gente explicava, ‘ou sai ou vamos chamar a polícia'”.

O público da casa também caiu no começo, diz Amanda, repetindo o que rolou quando chegou a Lei Seca. Depois voltou ao normal, “mesmo assim, as baladas estão acabando mais cedo. O Hell’s Club [after hours que avança pela manhã de domingo] tem sido muito prejudicado. A pessoa sai para fumar, se dá conta de que é dia claro, bate a culpa e resolve ir pra casa.”

O Vegas resolveu investir na aromaterapia, já que a ausência da fumaça de cigarro trouxe à tona outros cheiros. “Com bebida, suor e perfume, a gente brincava que ficava um cheiro de salmoura. Então agora soltamos uns aromas leves, na pista de cima é de alecrim e nas escadas é de ylang-ylang”, explica Amanda.

O Fofinho Rock Bar, por exemplo, tradicional reduto do rock na Zona Leste de São Paulo, não teve esse problema, segundo a produtora da casa, Renata Alves de Souza. “Roqueiro toma banho, viu?” avisa.

O bom comportamento do público do Fofinho também se revelou na obediência à nova legislação. Renata diz que “90% do público apoiou. Quem não gostou, na verdade, foram nossos barmens e seguranças, são todos fumantes”, brinca. “Agora eles têm hora pra fumar.”

A produtora atribui todo esse respeito ao fato do público de rock “ter mais cultura”. Ela também destaca uma nova dinâmica criada com o “cercadinho” dos fumantes na rua: “Surgiu um terceiro ambiente, o pessoal sai, conversa, conhece gente.”

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