Na sua nova – e pesada! – comédia (assista ao trailer abaixo, no lado esquerdo), Sacha Baron Cohen entra numa jornada tosca – beirando inclusive uma escatologia ao estilo John Waters – para se tornar famoso em Hollywood. Toda essa trajetória do fashionista austríaco, de sotaque engraçadíssimo, se confunde com a do próprio ator que o interpreta: buscar a fama a qualquer custo. E é justamente aí que está o segredo do sucesso de bilheteria de seus filmes [e séries]: trabalhar a fronteira entre o real e o documental. Talvez esse seja um dos grandes êxitos da linguagem cinematográfica no século 21, usado com sucesso, também, em filmes como Valsa com Bashir e O Equilibrista.

A maior prova disso é a abertura que essa abordagem tem recebido na tradicional e careta premiação da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, o Oscar, e pelo público acostumado com essa separação entre o “real” e o “ficcional”. O vencedor na categoria Melhor Documentário, por exemplo, foi o próprio O Equilibrista e o filme de Ari Folman ganhou indicação para Melhor Filme Estrangeiro, além de arrastar vários outros prêmios importantes do gênero. 

Agora imagine criar situações embaraçosas e críticas de uma maneira que não deixe o espectador fazer distinção entre o verdadeiro e o encenado. Ao contrário do que a maioria pensa, Brüno não se restringe a desfiles de moda e perseguição de celebridades. Sacha Baron Cohen pega pesado no filme. Ele cria uma história, ou melhor, uma saga de um anti-herói na busca do seu momento de estrela.
 
Em certo instante do longa, acha que é “tendência” ser sequestrado por um terrorista e faz esse “pedido”, acreditem, a um líder da Al Qaeda, cara-a-cara. Você se pergunta, “como ele conseguiu chegar até lá?”, “Por que não morreu?”. “E aquela câmera inconveniente, como captou aquilo ali?”. Todas essas perguntas não são respondidas durante o filme. Ponto para o comediante.

Outro momento-perigo é quando o personagem de Baron Cohen vai a um clube de luta no Arkansas e se coloca na ringue para uma briga – só que desta vez, vestido normalmente, sem os trajes exóticos de Brüno. Ele enfrenta alguém da plateia que o chamou de “gay” e, em seguida, se atraca aos beijos com a “vítima”. Nem é preciso dizer que reação do público, de tão preconceituosa, chega a ser hilária.

O melhor de todas essas situações está na crítica contida em cada passo dado por Brüno. O público vai às gargalhadas com a cena em que ele retira na sala de desembarque uma caixa com uma criança negra africana e deixa os presentes de queixo caído. “Brangelina tem um, Madonna também. Agora Brüno tem o seu”, ironiza o comediante sobre a moda de adotar crianças do continente pobre.

A reviravolta no roteiro do filme se dá em outra parte ainda mais engraçada: quando o estilista e “causador” austríaco resolver virar heterossexual. “Brad Pitt, John Travolta, George Clooney são heteros. Esse é o segredo”, brinca. 

Brüno também intermedia [leia-se tira onda de] um “papo” entre dois extremistas do Oriente Médio, além de zoar com o anti-semita Mel Gibson em momento impagável. E o melhor de tudo: Sacha Baron Cohen não se desconecta do personagem um minuto. Não tem quem não diga que o ator, casado com uma mulher na vida real, é completamente afetado.

Se você estiver preparado para encarar uma piração com ótima pitada de ironia, vale a pena pegar uma sessão do filme, que estreia dia 14 de agosto. O comediante inglês usa o preconceito com gays, judeus, muçulmanos, mulheres para fazer uma crítica às avessas. Mas não se engane! Não é o preconceito que diverte, mas sim a forma que ele é tratado. Só por isso, Baron Cohen já merece seu lugar na história do cinema.

Tem pastelão? Tem!

Mesmo com todo o teor crítico, o documentário está recheado de esquetes nonsense, com na tosca cena do pirocóptero – que é melhor não comentar para não estragar a surpresa e nem o desconforto – ou nas cenas de sexo explícito e masturbação com consolos de todos os tipos e tamanhos.

Em vários momentos, a impressão que temos é de estar numa sessão de Jackass, com Johnny Knoxville na pilha de suas loucuras. Outros mais light, mas não menos fanfarrão, Brüno veste uma roupa de velcro, se gruda num pano preto e invade um desfile da Prada. É impossível conter a gargalhada.

Sucesso instantâneo

A estreia de Brüno arrecadou a maior bilheteria de todos os tempos para uma comédia classificada para adultos [18 anos] no Reino Unido. Nada mal para Sacha Baron Cohen e sua busca incessante pela fama.

Nos Estados Unidos, a comédia já é sucesso absoluto. Ficou em primeiro lugar e desbancou, inclusive, a Era do Gelo 3. O longa arrecadou US$30,4 milhões, enquanto que a animação em 3D levou US$ 28,5 milhões. Já Transformers 2: A Vingança dos Derrotados, alcançou “apenas” US$24,2 milhões.


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Brüno provoca o espectador com escatologia e muita ironia