Bater pode? Não, só cintada cenográfica.

Uma das noivas no Clube das Mulheres: Bater pode? Não, só cintada cenográfica.

A Vila Olímpia, um dos vários pontos efervescentes da noite paulistana, abriga uma casa que tem divertido mulheres há 25 anos. Daquelas casas que você passa na frente e nem imagina, toda coberta de espelhos e com uma fila de moças apinhadas na porta. Ali está o Clube das Mulheres, aquele que você provavelmente conheceu, ou ouviu falar, por causa da novela De Corpo e Alma, de Glória Perez.

– O quê, esse lugar ainda existe?

Sim, e funciona a todo vapor às quartas e quintas-feiras, onde noivas se despedem da solteirice, divorciadas comemoram a nova vida, aniversariantes e curiosas dançam com homens de torso desnudo até altas horas. Foi para lá que eu fui, depois de um dia de expediente, acompanhada do meu fiel companheiro de aventuras, o fotógrafo Gabriel Quintão.

Quando chegamos, a casa ainda estava fechada, mas a fila de garotas na porta aumentava com a chegada de novos grupos. Munidos das pulseirinhas que garantiam nosso ingresso, atravessamos o hall tentando não nos distrair pela pequena sex shop montada ali e seguimos para a boate. Enquanto esperava a chegada de Focca Barreto e Marcos Manzano, fundadores do Clube, observava a preparação da casa para mais uma noite. Um rapaz baixo e musculoso atravessou o salão com a mochila nos ombros e voltou trajando somente uma calça e uma gravata borboleta. Uma moça de tiara de coelhinha piscante passou para atrás do balcão e começou a preparar os drinks.

Focca Barreto e Marcos Manzano

Focca Barreto e Marcos Manzano

No camarote, chegaram meus entrevistados. Vestindo um traje branco, com a camisa de mangas fofas aberta até o umbigo, Marcos Manzano se aproximou trazendo lembranças televisivas da década de 1990. Um pouco depois, Focca entrou no camarote – sua expressão séria não lembrava em nada o rapaz que, além de ter sido dançarino, ficou famoso por ser um bicão assumido. Os semblantes se abriram quando ele começou a me contar de como nasceu essa ideia:

Eu fui bailarino e passei uma temporada em Nova York, onde pude ver o espetáculo Chippendales. Percebi que no Brasil não tinha nada parecido com isso, tudo aqui era direcionado para os homens – desfiles de mulheres, concursos de mulheres, desfiles de lingerie. Não havia nada para as mulheres enquanto público. Achei que a brasileira poderia usufruir dessa nova modalidade.

Nasceu aí o espetáculo que ganharia o Brasil justamente por meio da novela e mudaria o comportamento de nossas mulheres. Focca conta:

Houve, nesta época, uma mudança no comportamento da mulher. Antes passiva, agora ela não dependia do convite de um homem para sair e se divertir. Com o clube, ela passou a se dar o direito de ir num show, ver um bumbum. E a partir do momento que a mulher passou a chamar as amigas para ir ao Clube das Mulheres, ela passou a chamá-las para outros eventos, como ir a um bar. A Glória Perez chamava essa mulher de Mulher-Ricardona – que tem iniciativa, que chama para sair, que banca o cara.

Um quarto de século depois, o clube segue se inovando de acordo com os tempos. Personagens são apostas para manter a curiosidade das mulheres fluindo – o mais famoso deles, atualmente, é Christian Grey, inspirado no protagonista da série de livros Cinquenta Tons de Cinza. Engana-se quem pensa que o stripper temático é novidade da casa: vanguardistas, os empresários trouxeram Mr. Grey assim que o livro estourou, dois anos antes do filme. O próximo personagem a dançar na casa será inspirado em Vin Diesel, de Velozes e Furiosos. Além disso, com a estreia do filme Magic Mike, eles criaram uma coreografia em homenagem.

É claro que, em um nicho de entretenimento tão exótico, boas histórias acontecem – nesta galeria aqui embaixo, Focca e Manzano contam algumas:

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Terminado o nosso papo, depois de ser presenteada por Focca com duas balas em gel produzidas pela casa, a “Chama o Bombeiro” (que esquenta) e a “Mr. Grey” (que esfria), fui assuntar com as presentes e assistir ao show. Mulheres de 18 a 81 anos se divertiam nos camarotes, bebiam e petiscavam nas mesas, à espera dos dançarinos que desfilariam na passarela. Na galeria aqui embaixo, a gente mostra como foi:

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Como em toda profissão, o sistema de recrutamento e as regras da casa são rígidas, para que as clientes tenham uma experiência completa – uma das ideias principais é de que elas não podem, nunca, se sentirem constrangidas. Na cartilha do bom stripper, está escrito que ele não deve: usar drogas, fazer programas, ser sedentário, dançar em outras casa e ser homossexual. Péra, oi? Focca explica: “O objetivo do Clube é a mulher, e por isso é necessário que os bailarinos tenham afinidade com o público, para poder satisfazê-las”. Em seguida, arremata com a história de um ator global que, durante as gravações da novela De corpo e Alma, em que interpretava um stripper, dava seu melhor para parecer entrosado com as moças. Ao som de “corta!”, porém, ele as espantava e saía de cena. Ok, faz sentido.

Uma noite no Clube das Mulheres

Eduardo Correa, o jogador de pólo sensual.

Por fim, não dava para ir embora sem conversar com aquele que faz a casa funcionar: o stripper. Trouxeram-me Eduardo Correa, 23, o jogador de pólo sensual, que me contou como é essa vida. Ele começou a dançar em festas com 17 anos, no Rio Grande do Sul. Com jeito para a coisa, veio para São Paulo e se tornou stripper, dançando em várias casas. O ponto alto foi entrar no Clube, que considera um lugar de boa energia, que “transmite alegria, desejo e fetiche” para as mulheres. Ele me conta que, em suas andanças, já foi convidado para animar uma festa de 15 anos. Não aceitou. “Não é esse o foco, né?”, explica.

Bem, é hora de partir. Pelo clima, a noite ainda vai longe para as futuras noivas – e torcemos para que a noite delas tenha sido realmente divertida. Infelizmente, onde se ganha o pão, não se agarra o stripper.

Uma noite no Clube das Mulheres

Beijinho, beijinho, tchau, tchau!

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