Nunca fui uma criança magra, contudo, também não deixei que os quilos a mais modificassem a minha rotina, o meu cotidiano, a minha infância. Sempre fui ativo, pratiquei esportes e nunca me importei, deliberadamente, com a aparência. As respostas rápidas (aquelas de “bate-pronto”), como por exemplo, “sou gordinho e tenho saúde, e você que é um magrelo doente…”, eram as preferidas, claro, nas situações em que alguém cantava a velha musiquinha que traumatizou muitas crianças: “Gordo baleia, saco de areia…”

A verdade é que estar acima do peso não me atrapalhava em nada, nem na questão da qualidade de vida, afinal, todo mundo cai erroneamente no senso comum de acreditar que ter pouca idade significa estar livre de determinados problemas e, aparentemente, eu me julgava saudável. Com a adolescência, algumas coisas mudaram.

Em primeiro lugar, justamente a questão da saúde. O discernimento que chegou com o tempo e as informações que passei a absorver sobre obesidade me fizeram crer que, sim, era possível ter problemas na juventude por estar fora do peso ideal. Me fizeram ver também que minhas respostas de “bate-pronto” não eram tão legais assim, já que elas não faziam o menor sentido. Guardo como lembrança dessa época, a mudança do meu nome: Thiago eu passei a ser apenas em minha casa, porque na escola, Thiago só se fosse o outro da lista. No RG, eu bem que poderia ter mudado meu nome para “gordão”, “gordela”, “gordinho”…

A preocupação com meu bem-estar, somado ao fato de que no início da adolescência a aceitação alheia parece ser uma regra básica de convivência, me levou à decisão de fazer regime. Achei que praticar atividades físicas esporádicas e controlar meu ímpeto de comer seria suficiente, mas isso nunca deu certo, pois eu continuava comendo muito quando sentia uma vontade maior que o normal: assim conheci o “efeito sanfona”, aquele que me fez pensar em desistir.

“Só cortar a comida não adianta. Quando não há uma reeducação alimentar, principalmente na adolescência, que é conhecida por ser uma fase em que a fome aumenta, esse ‘efeito sanfona’ acontece mesmo. O necessário é balancear a alimentação, comer bem logo cedo, que é quando o organismo começa a trabalhar, e manter-se ativo regularmente para, aos poucos, obter um resultado legal”, afirma a nutricionista Cláudia Serpa, especialista na área de obesidade infanto-juvenil. “Muitas crianças chegam ao meu consultório já com muitos hábitos criados. O que faço é orientá-las a romper com essas manias, como por exemplo, parar de comer fora dos horários corretos”, explica.

O tal “efeito-sanfona” é realmente desestimulante. A sensação de perder alguns poucos quilos e, logo, os ver voltarem, me fez descrente quanto aos milhões de regimes que existem por aí. “Cada um é cada um, não adianta eu fazer uma dieta estabelecida por alguém que não sabe quem sou eu, como funciona minha rotina e o que eu gosto de comer”, pensava. Ledo engano. Embora eu mesmo nunca tenha ido a um nutricionista, hoje, sei que os regimes programados por eles são praticamente personalizados.

“Alguém que está de regime tem condições de comer tudo o que gosta, salvo, algumas exceções, como pessoas que possuem certas disfunções. Mas basta comer de forma moderada, equilibrando o que se come com o quanto gasta de calorias, que o resultado aparece. Daí, a importância de manter-se sempre praticando exercícios físicos”, completou o professor de educação física Otávio Sampaio.

Como eu mesmo disse, nunca fui a um nutricionista. Sempre passei muito longe (e põe longe nisso…) de academias, além de a vida inteira ter descontado minhas ansiedades na comida. Por estes motivos, talvez eu mesmo não me considere a pessoa mais certa para dar dicas a alguém que quer emagrecer. Contudo, a experiência que tive nesse ano me fez perceber que emagrecer é um objetivo como qualquer outro. E que pode, com esforço e força de vontade, claro, ser alcançado.

Tudo o que fiz foi não pensar que estava fazendo regime. Não troquei as coisas de que gosto por um monte de folhas em momento algum, apenas diminui a quantidade de determinadas coisas que todos sabem que engordam, como refrigerantes, bebidas alcoólicas, doces e carboidratos. Em vez de brigar com a preguiça e entrar em crise porque precisava suar e gastar calorias, passei a voltar a pé do trabalho (o que dá, em média, uma hora por dia) e, assim, integrando as regras básicas de um regime ao meu dia-a-dia, consegui perder algo em torno de uns 15 quilos.

Hoje, mantenho a caminhada diária, controlo o que como durante a semana e aos finais de semana sacio as minhas vontades. O esforço continua, porém, os resultados também. Thiago, para os amigos mais próximos, eu já não tenho como voltar a ser. Mas todos já se propuseram a me chamar de “médio”.

“Magro você está querendo demais, né gordo?”, disse um deles.

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