Retrato do sinal enquanto cor

Retrato do sinal enquanto cor

Faz anos que os sinais de wi-fi deixaram de ser luxo e passaram a ser onipresentes – do busão intermunicipal ao PF da esquina, sempre tem uma plaquinha com a senha do lugar. Mas ainda não é o suficiente para a ambição da humanidade.

Depois que vários artistas criaram formas de representar as ondas de maneira visual, agora um escritor quase surdo hackeou seu aparelho de audição para ouvir os sinais de wi-fi.

Pausa para música de ficção científica.

Para conseguir o feito, o inglês Frank Swain fez pequenas modificações no seu aparelho, conectou ele ao seu celular e se juntou ao artista Daniel Jones, que configurou o som gerado pelos sinais. Eles nomearam o projeto Phanton Terrains e o definem assim: “O projeto desafia a noção da tecnologia de audiência assistida como prótese, e a reimagina como um melhoramento que pode superar a capacidade auditiva normal de um ser humano”.

E você se achando o bala por que conseguiu desativar a notificação de leitura do WhatsApp.

Em entrevista a revista News Sciene, Swain, ele próprio especializado em artigos científicos, descreve sua experiência.

“Eu ando pelo meu bairro no norte de Londes num dia quente de fim de outono. Posso ouvir os passarinhos nas árvores, o trânsito ao longo das ruas, crianças brincando nos jardins e o wi-fi escapando de suas casas. Em contraste com os sons familiares da vida cotidiana, é ao mesmo tempo desarmonioso e apropriado.

Conforme me aproximo e desço a plataforma do metro, eu pego o burburinho familiar da rede pública de wi-fi, assim como a rede dos funcionários por trás dessa. Dentro do trem, os sons desaparecem no silêncio enquanto nos afundamos nos túneis em direção ao centro de Londres.”

Se por um lado Swain consegue colocar poesia na experiência futurista, por outro é angustiante a perspectiva de alcançar uma espécie de outra dimensão de audição. O wi-fi pode parecer bonito na interpretação de Luis Hernan, designar que utilizou fotos de longa exposição e um app que traduz o sinal em cores para criar sua versão ilustrada da rede, mas a realidade é bem mais opressora.

Não é o Taz numa rave

Não é o Taz numa rave

Nickolay Lamm, um artista que se aventura por pesquisas na internet, tem uma versão diferente dos sinais de conexão perdidos pelo mundo. No ano passado, ele se juntou a Browning Vogel, uma astrobióloga com experiência na NASA, para criar um modelo visível das redes de wi-fi. A partir de bases de dados do governo americano, a dupla projetou as variadas frequências e tamanhos das ondas em paisagens cotidianas.

Pelo visto a Matrix já é realidade

Pelo visto a Matrix já é realidade

O mundo encontrado por Frank Swain é mais parecido com este cenário. No site do Phanton Terrains, é possível ter uma ideia de como é ouvir wi-fi:

Parece um contador Geiser, não? Frank e Daniel explicam que os cliques são gerados pela fonte do sinal – a frequência varia conforme a distância. Além disso, sons mais graves denotam a quantidade de segurança da rede e os trechos mais melódicos são uma assinatura das diferentes marcas de roteadores.

No fim das contas, a audição dos sinais wi-fi se aproxima de um tipo de navegação por sonar, como a de um submarino ou morcego.

Mas não deixa de ser uma invenção super futurista, que se encaixa num campo conhecido como biohacks.

No Biohack.me, fórum dedicado a discussões sobre o tema, há vários outros exemplos de modificações corporais com objetivo de alterar percepções ou sentidos. A mais comum é a incisão de pequenas placas magnéticas nos dedos, que tornam táteis os campos gerados por aparelhos como furadeiras.

Pra que? Ninguém sabe direito ainda, mas o futuro está aí pra ser descoberto.

Como se definem os biohackers do fórum: “Modificamos nossos corpos com artefatos do futuro-presente”.

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