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Depois de ser submetido ao transplante de rosto mais bem
sucedido que se tem notícia, pouco mais de um ano atrás – quando recebeu novos
dentes, língua e mandíbula –, Richard Norris vem se recuperando bem e resolveu
escrever um livro sobre sua história de vida.

Em 1997 ele sofreu um acidente que lhe rendeu ferimentos
horríveis – Richard atirou acidentalmente em seu próprio rosto – e passou 16
anos vivendo completamente desfigurado, recluso em sua casa para evitar o olhar
das pessoas. Após passar pela cirurgia
inovadora no Maryland Medical Centre, em Baltimore, EUA, o homem, agora com 38
anos, reaprendeu a comer, conversar, fazer a barba, escovar os dentes e
recuperou sua autoconfiança.

“Quando eu olho no espelho, vejo Richard Norris. Quando
estava desfigurado, eu andava pela calçada me escondendo e as pessoas ficavam
surpresas ao me ver, e viravam o pescoço para olhar. Agora, não há ninguém
prestando atenção. A não ser aqueles que me conhecem pessoalmente. O restante
das pessoas não sabe que eu sou um paciente de transplante de face e esse é o
objetivo que tínhamos”, disse em entrevista à “Associated Press”.

Ele espera que sua história, e sua mensagem de esperança,
chegue a pessoas que estão em situações semelhantes. Richard incentiva a
empatia. “Eu já ouvi todos os tipos de observações. Muitas delas eram realmente
horríveis. Esses mais de dez anos de inferno vividos por mim me deram riqueza
de conhecimento. Fui apresentado às melhores pessoas da minha vida”, explica.

Mais de um ano após a principal cirurgia que fez, realizada
em março de 2012 – foram dezenas até esta última, que lhe deu um rosto
novamente –, ele está começando uma nova vida, tendo aulas on-line e se
formando à distância em sistemas de informação, além de criar uma fundação para
ajudar com as despesas médicas de futuros pacientes de transplantes
semelhantes.

Segundo reportagem do “Daily Mail”, o transplantado também
está trabalhando como fotojornalista, e acaba de concluir o livro “As duas
faces de Richard”, onde relata a fase em que só saía de casa à noite,
mascarado; passando pelas várias operações até chegar ao transplante de um
rosto recebido de um rapaz de 21 anos, que morreu ao ser atropelado por uma
van; além da recuperação demorada e do medo constante de sofrer algum tipo de
rejeição, típica de transplantes tão delicados.

Limitações e recuperação

“A principal limitação dele, e de todos os pacientes de
transplante, é o uso de medicação para o resto da vida”, explica o dr. Eduardo
Rodriguez
, que lidera a equipe médica no tratamento de Richard.

“O risco de rejeição nunca está descartado. Todos os dias eu
acordo com esse medo, ‘Será que é hoje o dia que vou entrar em um estado de
rejeição, que vai ser tão ruim que os médicos não poderão reverter?’”, teme o
paciente.

Segundo o médico, um rosto transplantado tende a durar entre
10 e 20 anos. “Quando as pessoas ouvem a palavra rejeição pensam ‘Oh, meu Deus,
o rosto vai derreter!’, mas não é esse o caso. A pele fica um pouco inchada e
há um pouco de vermelhidão. Em uma escala de 1 a 10, sendo 10 o pior senário,
Richard teve o primeiro grau de rejeição, que foi tratado. Mas ele continua a
correr riscos e terá de tomar medicamentos a vida toda”, esclarece.

O médico ainda disse à “Assossiated Press”, que desde o
início, a equipe sabia que Richard não sofreria nenhum tipo de crise de
identidade facial. “Para pessoas com desfigurações – gente que viveu parte de
sua vida se escondendo da sociedade por causa de sua aparência – isso é uma
recuperação muito diferente e difícil. Antes do transplante Norris raramente
saía de casa, e quando o fazia, usava uma máscara cirúrgica e um boné, mesmo
assim, sofria com olhares de repulsa. Agora não tem mais esse problema”, frisa.

Mesmo com toda a medicação e tratamentos disponíveis, os
médicos não podem garantir quanto tempo, exatamente, o transplante vai durar.
Há uma expectativa de que seja necessário substituir ou reparar o rosto daqui a
alguns anos.

Conforme resultados das primeiras cirurgias realizadas, dr.
Rodriguez tem esperança de que Richard tenha bons resultados por cerca de 10
anos. Nesse meio tempo, o paciente disse estar animado para recuperar o tempo
perdido, indo pescar, jogar golfe, passear e passando um tempo com sua família
e amigos. “Meus amigos construíram suas vidas, começaram famílias e carreiras.
Agora posso começar a trabalhar e ter minha vida de volta”, concluiu.

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