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(Foto: montagem por Vitória Vilela)

Em dezembro de 1997 o Brasil sofria um dos maiores impactos sonoros até então. Uma porrada bem dada no estômago e nos ouvidos do sistema que mudou o rumo da música nacional: o lançamento de Sobrevivendo no Inferno, dos Racionais MC’s. O álbum, quinto de estúdio da carreira do grupo paulistano, é considerado um clássico e completa 20 anos este mês. As batidas de KL Jay e as vozes ásperas de Mano Brown, Ice Blue e Edi Rock abriram as portas para o rap nacional entrar no mainstream, nem que fosse à força e contra a vontade das grandes e poderosas mídias. Depois disso o gênero, que é o som das ruas e sempre foi marginalizado pela sociedade, fincou raiz na música popular brasileira.

Na época, o rap brasuca já era ouvido em massa através de Gabriel, O Pensador, mas o carioca não conversava diretamente com a população da periferia. Não os representava. Já os ‘quatro pretos mais perigosos do Brasil’, como posteriormente foram apelidados, sim. Com Sobrevivendo no Inferno, o Racionais MC’s juntava ódio, frustração e dor ao falar dos problemas das periferias brasileiras e da luta diária dos subúrbios, fazendo um paralelo da realidade nua, crua e sanguinária com textos bíblicos. Intenso é a palavra. Detalhe: o álbum vendeu mais de cem mil cópias só no primeiro mês e atingiu a marca de um milhão e quinhentas mil cópias tempos depois. Segundo detalhe: foi lançado por uma gravadora independente, a Cosa Nostra.

O pé no peito foi dado com a música Diário de um Detento e seu clipe gravado dentro da Casa de Detenção que circulava na MTV, chegando a permanecer no Top 10 da emissora por um bom tempo. Virou hino não só da classe baixa, mas também da média e da alta. Era comum ver playboys com seus carrões nas ruas ouvindo a música em alto e bom som e cantando as rimas, mesmo que aquelas frases não representassem suas realidades. De um jeito ou de outro, de repente todos queriam ser Brown. Até hoje não há quem não saiba a letra de cor, de cabo a rabo, assim como acontece com Eduardo e Mônica e Faroeste Caboclo, da Legião Urbana.

O trabalho impactou geral: de artistas da vanguarda aos que estavam por vir. A cantora Elza Soares, por exemplo, contou ao Virgula que adora Racionais e principalmente o Sobrevivendo no Inferno: “Sou apaixonada pelos caras e por este álbum. É de arrepiar! Destaco a música ‘Jorge da Capadócia’ [releitura do clássico de Jorge Ben Jor] que tem um arranjo que me emociona até hoje. A outra que curto muito é ‘Capitulo 4, Versículo 3’, que possui uma letra muito forte e atual”.

Criolo, um dos rappers de maior popularidade na atualidade, vai direto ao ponto ao classificar a importância do álbum para o povo brasileiro: “É a voz de uma geração. De antes e depois. É a voz de todos nós“.

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Rael também relembra o quão importante foi na época: “O disco abre com ‘Jorge da Capadócia’, que é uma oração que todo negro jovem de periferia tinha que ouvir, porque o índice de morte de gente nas periferias era muito alto. Pessoas morriam nos próprios eventos de rap; a polícia matava na porta do baile ou os próprios seguranças na festa. Ou tinha treta lá dentro. Então, ouvíamos essa música porque era um tipo de oração que blindava a gente na rua”.

“Embora o Brown  fosse do Capão Redondo, parecia que ele vivia em todas as favelas do Brasil, porque narrava a história de várias quebradas ao mesmo tempo”, diz Rael, que confessa influência nítida do álbum em seu estilo de vida: “A partir daí eu comecei a me aprofundar mais nos discursos do Brown, a me envolver mais, ir nos shows e a contribuir com o rap de alguma maneira. Sinto que também preciso falar dessas coisas nas minhas músicas”.

Rhossi, vocalista do Pavilhão 9, banda que cresceu lado a lado com o Racionais na década de noventa e voltou à ativa recentemente, também sentiu o impacto do lançamento: “Quando eu ouvi ‘Sobrevivendo no Inferno’ pela primeira vez tive a sensação de que a minha autoestima estava aumentando, como se estivesse ficando mais elevada. Tínhamos a partir dali uma perspectiva de mudança. Naquele momento, me sentia mais representado e isso me deu mais oxigênio para continuar a fazer rap, estilo de música que, na época, era muito discriminado”

A outra voz do Pavilhão, Doze, conta que o álbum foi uma luz, uma salvação para muitos, em vários sentidos:“Por mais difícil que a vida seja, é preciso erguer a cabeça, buscar informação e seguir em frente. O disco foi um norte, uma indicação do caminho que tínhamos que trilhar“.

O legado de Sobrevivendo no Inferno continua influenciando gerações e um exemplo é Rashid, que era criança quando o álbum foi lançado. “Não me lembro exatamente quando foi a primeira vez que eu ouvi, até porque ouvi o disco em pedaços, uma música ali e outra aqui. Eu tinha 10 anos, e quando comecei a assimilar que as músicas eram dos mesmos caras e que eles falavam de coisas que aconteciam ali na minha rua, e que se vestiam do jeito que eu queria me vestir, pirei. Entrei em choque. A partir daí o impacto de cada música foi multiplicado por dez”.

“Com o ‘Sobrevivendo’ eu entendi que aquilo era rap e que eu já amava aquele ritmo antes mesmo de saber o nome que se dava”, diz Rashid, e complementa: “Esse disco é um dos que mais me inspira, porque ele é muito rico liricamente. As produções têm um peso imenso e ao mesmo tempo são musicais. Tem uns refrões melódicos incríveis e no geral o álbum me passa uma sede também, na vida e na arte. Não é à toa que quebrou tantas barreiras”.

A rapper Drik Barbosa é outra que foi tomada pelo som de Brown e cia posteriormente.“Lembro que meus tios estavam ouvindo o disco e fiquei impactada. Aprendi a gostar de rap ouvindo o que eles ouviam e cada música deste álbum era como um filme, só que eu sabia que eram histórias reais”, relembra ela, que também integra o conjunto feminino Rimas & Melodias.

“Muito jovem, eu não sabia explicar de que forma os versos me tocavam. Hoje entendo que é porque tudo o que vi crescendo na quebrada, eles transformaram em música. Eles falavam por quem não podia falar, sobre as tretas, a violência e a fé”, explica Drik, que levou a influência dos Racionais para o seu trabalho: “Da mesma forma que eles, eu procuro falar sobre as minhas vivências nas músicas, as boas e as ruins. Racionais me fez pensar, questionar e me inspira a seguir rimando pelo que acredito”.

Racionais MCs 1997

(Foto: divulgação) Racionais MC’s em 1997

Jairo Pereira, vocalista dos grupos Aláfia e Mutum, volta no tempo ao relembrar que estava ansioso pelo lançamento. “Fiquei sabendo pela rádio que ‘Sobrevivendo no Inferno’ tinha sido lançado. Quando coloquei o disco na vitrola, ouvi um chamado pra guerra. Armamento pesado sendo aberto em um louvor a Jorge. Foi um ‘boom'”, diz o cantor. “A desigualdade social e racial era jogada na cara do sistema em alto e bom tom“.

“Quando faço uma música hoje como a ‘Tá Com Medo, Doutor?’, não tem como negar a influência do ‘Sobrevivendo’ na narrativa e estrutura rítmica. Músicas como ‘Tô Ouvindo Alguém Me Chamar’, ‘Capitulo 4, Versículo 3’, ‘Fórmula Mágica da Paz’, ‘Qual Mentira Devo Acreditar’ e todas as outras são uma cartilha de sobrevivência meio ao caos opressor e racista”, fala Jairo, finalizando bonito: “Racionais é a minha escola. Sendo preto, cresci fortificado e empoderado pelas ideias do grupo. Parabéns pelos 20 anos do disco e por toda a importância que possui em nossas vidas”.

Sobrevivendo no Inferno se tornou um dos trabalhos mais importantes da discografia brasileira. Eternamente inspirador e cada vez mais necessário, com temas que não envelhecem. Como descreve o jornalista Dafne Sampaio no livro Indiscotíveis, justamente no capítulo sobre o álbum: “É orgulho e humilhação, amor e morte, soco na cara. Tudo junto“.

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