Arnaldo Antunes ficou dez anos nos Titãs e sua carreira solo já tem 20 anos. Poderia descansar e copiar a si mesmo, mas em seu novo álbum Disco (Rosa Celeste/Radar) , ele expande o território dos rocks de seu trabalho anterior em direção ao pop e à MPB, em parcerias com pesos pesados como Caetano Veloso, João Donato e Hyldon.

Em entrevista coletiva na Casa de Francisca, em São Paulo, na sexta-feira (27), Arnaldo afirmou que a ideia inicial era fazer um disco chamado “bipolar”, imaginando um vinil, um lado teria músicas tranquilas, quase neobosssas, gravadas no Rio com músicos cariocas, de outro, rocks híbridos que compõe com músicos que o acompanham há tempos, como Edgard Scandurra, Chico Salem (guitarras), Betão Aguiar (baixo), Curumin (bateria) e Marcelo Jeneci (teclados e sanfona).

“É um disco bem diversificado. Ele tem um pouco do rastro dessa ideia do bipolar, talvez tenha ficado tripolar porque entrou um lado mais pop. Ou multipolar. Acho que é um disco diversificado, é um contraponto talvez ao Iê Iê Iê, que era um disco mais coeso como sonoridade, todo gravado com a mesma banda, em torno de uma ideia de gênero musical. Apesar de ter diversidade ali no Iê Iê Iê, que tinha um funk, uma balada, um rock, enfim. Mas tudo próximo ao que a gente identifica como Iê Iê Iê. Esse não, é um disco mais diversificado enquanto gêneros musicais e enquanto formações instrumentais também”, afirmou.

Arnaldo traça um paralelo entre o novo trabalho e Saiba (2004). “Esse disco eu acho que é um pouco parecido com o Saiba dentro dos meus discos, acho que é um disco que tem também essas pontas. Tem uma diversidade um pouco parecida. Eu acho que o grande responsável por essa diversidade é a minha natureza variada como ouvinte, como compositor, que eu me sinto um artista livre para trabalhar: um samba, um rock, um baião, um reggae, enfim, as coisas que eu curto são muitos diferentes. Sempre foi desde a infância, podia escutar um samba do Noel (Rosa) e um funk do James Brown e, enfim, isso nunca teve essa briga na minha cabeça. E nunca tive essa obrigatoriedade de me impor dentro de um gênero musical”, defende.

Para ele, a diversidade é um “sintoma da nossa época”. A afirmação é comprovada com uma faixa (Ela é Tarja Preta), que poderia tocar sob medida para as aparelhagens do tecnobrega do Pará, parceria dele com Betão Aguiar, Felipe Cordeiro, Luê e Manoel Cordeiro. “Hoje em dias as pessoas estão muito pouco preocupadas em se ater a um único gênero musical”, argumenta.

Para promover Disco, o músico lançou quatro singles, no começo de junho, julho, agosto, setembro. Agora, no começo de outubro o disco chega às lojas físicas e virtais. “Essa forma com que eu estou lançando esse disco hoje, acho que é uma adequação a um novo padrão que está pintando, que é isso das pessoas poderem consumir e ouvir em streaming música na internet de uma maneira avulsa. Eu, ao mesmo tempo que acha maravilhosa essa liberdade do artista poder mostrar canções que ele faz sem ter que ter um conjunto de canções que ele faz para lançar um disco inteiro, poder ir mostrando uma produção esparsa, eu também tenho um apego ao conceito do disco. Eu acho que esses formatos vão conviver aí no decorrer do tempo”, avalia.

Para Arnaldo, apesar de ser parte da nossa época, o fim do conceito de disco faz com que algo seja perdido pelos ouvintes. “Acho que o disco não vai acabar de existir. Eu tenho um pouco de pena das pessoas que só ouvem músicas avulsas porque eu acho que perde um pouco do lado conceitual e ritualístico de você colocar um disco para ouvir, parar, ter aquele momento. Eu sempre fui apegado a essa coisa do disco ter uma cara. Ele representa uma etapa da obra de um artista, acaba tendo um diálogo entre as faixas, tem motivos recorrentes ali, uma faixa acaba comentando a outra, a ordem eu acho também muito importante. Eu espero que o disco continue a existir”, comenta.

Com participações de nomes emergentes da nova música brasileira, além dos já citados Curumin e Jeneci, como Daniel Jobim (piano), Dustan Gallas (teclados), Guizado (trompete), Anelis Assumpção, Márcia Castro (vocais), Fernando Catatau, Pedro Sá, Estevan Sinkovitz (guitarras), Fabio Sá (baixo) e Marcelo Callado (bateria), entre outros, o músico elogia Ruriá Duprat (maestro, sobrinho do Rogério Duprat, arranjador que ficou conhecido no tropicalismo).

“Acho que a grande novidade na sonoridade do disco acho que são os arranjos de cordas do Ruriá Duprat. É uma coisa que eu nunca tinha trabalhado com quarteto de cordas e a gente fez quatro faixas com isso”, afirma.

Monica Salmaso e Céu também fazem participações. A segunda, inclusive assina uma composição com Arnaldo e Hyldon – hitmaker que forma com Tim Maia e Cassiano a trilogia sagrada do funk e soul brasileiros.

Sobre Trato, ele diz que é uma de “seis ou sete” composições que ele, Hyldon e Céu fizeram juntos. “O Hyldon sempre que vem a São Paulo a gente se encontra. A gente se conheceu, na verdade, no Grêmio Recreativo, programa que eu tinha na MTV. No primeiro deles, eles dois faziam parte daquele grupo. E a gente se conheceu e desde então começamos a se encontrar para fazer músicas. Aí, o Hyldon quando ele vem do Rio, ele liga para gente, a gente acaba marcando encontros. Já temos aí uma série de parcerias. Duas delas o Hyldon está gravando também no disco novo dele, que deve sair em breve. E eu acabei gravando essa, Trato. Aí chamei os dois para cantar comigo, o Hyldon tocou o violão também”, afirma.

“Padrinho” da nova cena, Arnaldo Antunes mostra que a melhor maneira de zelar pelo seu legado é sendo imprevisível. Afinal, os outros 12 discos de estúdio de Arnaldo Antunes não precisariam de mais um se fosse para contar a mesma história.

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