Sônia Abreu e seu Osvaldo

Sônia Abreu e seu Osvaldo

Eles são duas lendas e não faltam histórias para contar. Sonia Abreu, a primeira DJ mulher do Brasil e segunda do mundo, e Osvaldo Pereira, o primeiro DJ do Brasil foram homenageados nesta segunda (4) na Assembleia Legislativa de São Paulo, no ato solene em homenagem ao Dia Estadual do DJ, que a partir do ano que vem será comemorado em 9/3, data em que se celebra o Dia Internacional do DJ.

O evento oficial foi mais um passo para a regulamentação da profissão, projeto da deputada estadual Ana do Carmo (PT) apresentado pelo Sindecs (Sindicato dos Djs e Profissionais de Cabine de Som), representado na cerimônia por seu presidente, Antônio Carlos dos Santos . “É um importante reforço para que todas as autoridades reconheçam a função do DJ como trabalho. Algumas pessoas ainda veem como bagunça, mas é uma atividade cultural”, afirma a deputada.

O Virgula aproveitou a homenagem e propôs um back to back, como é chamado no jargão dos DJs, o tipo de discotecagem em que cada um toca uma música. “Eu acho que com o tempo, principalmente dos anos 2000 em diante, as mulheres resolveram cair na pista. É muito difícil luluzinha entrar no clube do bolinha! Sempre foi assim, desde que comecei a tocar em 1963”, afirmou Sonia. Já quando ela perguntou para o mestre Jedi se ele tinha medo da morte, ele deu uma lição e tanto: “Não, não tenho porque eu leio muitos livros espirituais, então eu tenho ideia do que é a morte, que é uma passagem da vida pra uma melhor. E é uma coisa que não adianta ter medo porque ela vai acontecer. Eu já estou me preparando pra isso”, lacrou.

Personalidade magnética, alta, linda e diva aos 64 anos, Sonia foi produtora musical da rádio Excelsior Globo de São Paulo, entre 1968 e 1978. Fez história também nas rádios 89 FM, Brasil 2000 FM. Trabalhou Som Livre, produzindo as coletâneas Papagaio Disco Club e Excelsior – A Máquina Do Som e atualmente apresenta o programa Ondas Tropicais – O Link da Música Mundial, na Rádio UOL.

No currículo de Sonia, que vai muito além do fato de ser a primeira DJ mulher do Brasil, também consta ter inaugurado a discoteca Papagaio Disco Club, em São Paulo e passagens por Inglaterra, Marrocos e Uruguai. Ganhou disco de ouro pela vendagem de Automatic Lover, de D.D.Jackson, um de seus muitos lançamentos. Criou a lendária rádio ambulante Ondas Tropicais, levando sua programação original para espaços públicos, primeiro a bordo de uma Kombi, depois em um ônibus e até em um veleiro. Introduziu e consagrou a world music com Ondas Tropicais – A Música Do Quarto Mundo. A partir do conceito inovador do programa na Brasil 2000 FM, formou a Banda do Quarto Mundo, com 22 integrantes, lançando um CD distribuído pela Eldorado e participando de shows ao lado de Margareth Menezes, Jimmy Cliff e Yellow Man, entre outros. Atualmente, ela é residente na Casa 92.

Osvaldo Pereira, 81 anos, primeiro DJ do Brasil. Tem uma tranquilidade mineira, ele nasceu em Muzambinho, transmite paz com seu sorriso negro. Entre filhos e netos, a dinastia dos Pereira conta com mais de 30 DJs. Sua música e sua atitude celebram a negritude, não à toa o ícone do hip hop nacional Marcelo Xis, fez questão de colar na homenagem recebida na Assembleia e levou o filho.

Seu Osvaldo começou o ofício de DJ em 1958, usando a experiência que tinha em construir equipamentos de áudio. Atrás de uma cortina, que se abria durante a festa, ele criou a Osquestra Invisível. Foi “descoberto” por Claudia Assef no livro Todo DJ Já Sambou (Conrad), obra que conta a história da música eletrônica no Brasil. Segue na ativa e, às vezes, se apresenta como convidados em festas, sempre recebido como astro.

Se ligue como foi a tabelinha entre os dois craques.

De Sonia para seu Osvaldo:

Sonia Abreu – Gostaria de saber se o senhor se atualizou tecnologicamente ou se mantém tocando com toca disco, vinil, os mesmos equipamentos?

Seu Osvaldo – Na verdade, eu me atualizei, tenho uns vinis, toca-disco, mas eu também tenho o Serato (programa que simula o vinil a partir de um arquivo digital). Quando dá pra tocar com Serato, faço também, mas uso mais o vinil mesmo.

Sonia Abreu – Na sua playlist são sempre as mesmas musicas que o sr tocava nos anos 50? o que mudou no seu playlist?

Seu Osvaldo –  O repertório dos anos 50 só muda quando eu vou fazer uma festa porque eu posso tocar de tudo. Eu gosto de tocar até a modernidade agora. As maiores festas que eu tenho feito é um projeto que eu faço, são três DJs, eu faço 50, outro faz 60 e outro faz 70, que é o Tony Hits. Mas quando eu vou numa outra festa que eu não seja obrigado a tocar só antigo eu começo lá e venho até na atualidade.

Da atualidade, tem muita música de discoteca, tem também muita música de funk moderno, também de dance são boas, então eu procuro ver as melhores, dependendo também do público.

Sonia Abreu – Como o senhor prepara uma playlist de um show, em casa ou faz na hora?

Seu Osvaldo – Eu preparo em casa, mas sempre vou com um plano b pq a gente não sabe o que vai acontecer na festa pq depende muito do público. Se der pra seguir aquela playlist, tudo bem, se não der a gente vai mudando pra agradar o público.

Sonia Abreu – Tem alguma preocupação com a mensagem que a musica está passando , ou isso não importa, ninguém está preocupado com mensagens

Seu Osvaldo – Eu acho que em geral a música já é uma mensagem, a gente até pode falar alguma coisa durante o tempo que a gente tá discotecando, mas muito pouco, eu prefiro só o pessoal dançando e falar o mínimo, só o necessário.

Virgula – Mas e em relação às letras?

Seu Osvaldo – Eu me preocupo, porque tem letras que são boas, que lembram algo muito bom na vida da gente. Agora a gente tem músicas que as letras são muito pobres, geralmente as músicas que eu toco, as mais antigas, que são cantadas, elas passam muita mensagem pro público.

Sonia Abreu – O senhor é um homem realizado como DJ ou falta mais algum sonho?

Seu Osvaldo – A gente tá sempre aprendendo. A minha vontade é tão grande de conhecer música que, eu tinha falado pra Assef que eu estava fazendo um curso numa escolinha de DJ. Realmente, eu fiz, porque a minha intenção é sempre aprimorar cada vez mais. Não vou entrar na área de performance porque não é a minha praia. Admiro muito. Por exemplo, o hip hop, adoro muito, tem DJ de hip hop que sempre me convida pra ir lá prestigiar eles e eu vou com o maior carinho, porque todos eles tem um trabalho muito bonito e cada um na sua área.

Sonia Abreu – Fale três músicas que marcaram sua vida?

Seu Osvaldo – Glenn Miller, In The Mood; Ray Connif, Peaceful, e Eliana de Lima, Na Cadência do Samba. São músicas essenciais pra mim, toda festa que eu faço elas tão sempre na playlist.

Sonia Abreu – Qual foi a melhor emoção de cabine?

Seu Osvaldo – Na verdade, eu nunca toquei em cabine fechada, eu sempre tive o privilégio de tocar em palco. É difícil de descrever a emoção, porque a minha alegria era tão grande como hoje ainda, quando vou fazer as festas, eu me sinto muito realizado quando o público dança. Bastante gente vem falar comigo, tirar foto. Eu consigo apanhar a alegria deles e transmitir a minha pra eles, a gente tem um vínculo muito grande. Quando o DJ tem esse vínculo, ele tá realizado.

Sonia Abreu – Tem medo da morte?

Seu Osvaldo – Não, não tenho porque eu leio muitos livros espirituais, então eu tenho ideia do que é a morte, que é uma passagem da vida pra uma melhor. E é uma coisa que não adianta ter medo porque ela vai acontecer. Eu já estou me preparando pra isso.

De seu Osvaldo para Sonia

Seu Osvaldo – Cite quatro musicas que fazem sucesso até hoje ?

Sonia Abreu – Frank Sinatra, Beatles, I Will Survive, Tim Maia.

Seu Osvaldo – Ainda toca só com vinil ?

Sonia Abreu – Hoje eu toco com computador e controladora Pioneer XDJ R1. Passei por todas as transformações tecnológicas. Não foi fácil, mas consegui. Sem esforço nada nessa vida acontece. Depois de carregar engradados de cerveja, com vinis durante décadas, depois de 51 anos de pista, procuro simplificar mais a vida (risos).

Sonia Abreu – Toca em muitas festas, é residente de alguma casa noturna?

Seu Osvaldo – Toco em festas, eventos e baladas. Sou residente na Casa 92, na Faria Lima. Lá é um dos meus maiores desafios, eu adoro tocar lá! Toco para uma turma que vai de 18 a 30 anos, portanto, se eu não estiver atualizada com o aqui agora e também não tiver bagagem musical, eu danço. Em eventos corporativos ou festas se o cliente quiser que toque sertanejo, funk carioca, bolero, Chopin, eu toco e entro na vibe. Com isso aprendi a gostar de tudo e sair da zona de conforto, do mais fácil , do ego.

Seu Osvaldo – Para as mulheres, o campo de DJs abriu mais espaço?

Sonia Abreu –  Eu acho que com o tempo, principalmente dos anos 2000 em diante, as mulheres resolveram cair na pista. É muito difícil luluzinha entrar no clube do bolinha! Sempre foi assim, desde que comecei a tocar em 1963. Como é uma profissão masculina, sabe como é … agora tem muita menina aí que se diz DJ tocando de peito de fora, aí eu já acho sacanagem (risos).

Seu Osvaldo – Tem uma escola de DJ ou pretende abrir

Sonia Abreu – Tem muitas escolas de DJ, o mundo hoje é para os DJs, o mainstream é nosso hoje. Tudo está preparado tecnicamente para o DJ, portanto há muitas escolas, eu mesmo frequento uma: DJ Ban. Além de aulas técnicas, em esúudio, equipamento de ponta, tem equipamentos para comprar e tudo. Por enquanto, não pretendo abrir nenhuma escola, sou mais feeling que técnica.

Seu Osvaldo – Algumas vez tocou fora do brasil ?

Sonia Abreu – Já toquei em Marrocos, Londres e Punta del Leste.

Seu Osvaldo – A discotecagem mudou muito nos dias de hoje em relação ao passado?

Sonia Abreu – Acho que mudou a tecnologia e a estrutura cênica para o DJ. Nos ano 60, eu tocava atrás de uma parede com um buraquinho para olhar a pista. Nos anos 70, mudou tudo. A primeira discoteca do brasil, Papagaio Disco Club tinha uma cabine de acrílico, transparente, em cima da pista, o DJ ficava totalmente dentro de uma nave, muita luz , sirene e o escambau. Foi a cabine mais bonita que eu já toquei em toda minha vida. Não existia mixer, mixagens, era tudo na chave. Mixer é uma tecnologia dos anos 70. Mudou muita coisa , senhor  Osvaldo, assim como nós mudamos.

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