Mauricio Einhorn

Icônico gaitista e compositor, o carioca Mauricio Einhorn, hoje com 86 anos em plena forma, integrou, nos anos de 1950, a cena musical que poucos anos mais tarde formaria a bossa nova.

Compôs, em parceria com violonista Durval Ferreira, Estamos Aí (com Regina Werneck), Tristeza de Nós Dois (com Bebeto Castilho), Batida Diferente, Sambop e Joyce’s Samba – essas três últimas gravadas pelo pianista e amigo Sergio Mendes com o saxofonista norte-americano Cannonball Adderley.

Entre outras centenas de composições, com Arnaldo Costa e Lula Freire compôs Alvorada e em 1979, gravou o seu primeiro disco autoral e solo, ME (Mauricio Einhorn) em que constam essa e outras de suas obras.

Ao longo de mais de cinco décadas, participou de mais de mil gravações com artistas nacionais e estrangeiros como: Tom Jobim, Sarah Vaughan, Kenny Baron, Angela Ro Ro, Agepê, Baden Powell, Paulo Moura, Marcos Valle, Edu Lobo, Eumir Deodato, João Donato, Ivan Lins, Zizi Possi, Ney Matogrosso, Nana Caimmy, Danilo Caimmy, Silvio César, Alcione, Raul Seixas, Maria Bethânia, Chico Buarque, Odair José, Sá e Guarabyra, Sérgio Sampaio, Gal Costa, Luiz Melodia entre outros.

Leia nossa conversa com a lenda da música brasileira:

Por que a bossa continua sendo o gênero brasileiro mais valorizado internacionalmente e ignorado internamente?
Mauricio Einhorn – A Bossa Nova emplacou nos 50 por surgir oportunamente num momento em que havia necessidade de renovação, de algo novíssimo. Enfim, a Bossa Nova tinha um sabor de coisa nova, apesar de muito influenciado harmonicamente por algo que já vinha de anos antes na música americana, o jazz, o que cobre os primeiros anos. No entanto, sua força maior estava na parte rítmica. Isso que fazia toda a diferença.

Tanto isso é verdade que hoje, 2019, portanto, 60 anos mais tarde, ela faz parte e ainda influencia a música mundial. Seja nos Estados Unidos, que primeiro a recepcionou, ou no Japão, que mais recentemente demonstrou interesse e carinho por esse nosso gênero musical.

Agora, no Brasil, proporcionalmente, a Bossa praticamente sobrevive ainda por força maior da música instrumental. Diga-me um aluno de violão, sax,ou piano que não tenha estudado Jobim, Baden… e, claro, ela continua mais pela força do vocal, das letras.

Isso foi algo que também foi uma revolução poderosa: de temas, de projeção da voz, da colaboração de gente como Vinicius, Bôscoli. Mas a Bossa ainda tem que “sobreviver” e isso se explica assim: não se divulga nas rádios, nem na TV como antigamente. Por n motivos. O cenário mudou. A cidade mudou. As pessoas mudaram.

Grande parte do público opta pelo que está ao alcance hoje, ou seja, opta pelo funk, pelo pagode, pela música sertaneja, o rap. E não digo isso de uma torre de marfim, nem tem nenhum problema algum com esses estilos. A Bossa Nova, sabe-se, já nos anos imediatamente posteriores ao seu surgimento, era criticada como sendo “de elite”.

Surgiu a música engajada, a música de protesto, o Tropicalismo.  Já era outra coisa e já eram críticos a ela de uma maneira ou de outra. Eu não concordo que fosse música de elite, mas refletia seu tempo como essas outras formas que sobrevieram. Porém creio que a música é universal. Ainda falamos sobre e ainda tocam em trilhas Bach, Chopin, Debussy… e creio que o mesmo se aplique aqui, mas é preciso haver espaço.

O que está rolando de mais interessante na música hoje na sua opinião?
Einhorn – Já respondi parcialmente também na última pergunta. Embora eu não ache de “mais interessante”, esses estilos que estão em evidência surgiram do povo. A mídia, os empresários, os moldam, mas eles têm a aceitação do público e ganham o espaço. Não sou contrário a essas mudanças e acho natural que aconteçam, mas no Brasil perdeu-se e perde-se espaços para essa música que fazemos. É um problema cultural, econômico e de registro.

Aqui museus queimam ou são abandonados. Temos um Museu de Imagem e Som inacabado aqui do lado, em Copacabana. Muito do que há da Bossa Nova é de registro e arquivo pessoal dos que nela viveram, ou dos discos (alguns raríssimos, outros já perdidos). Não se cuida disso.

Os lugares de show se perderam ou são voltados para o turista, que vem, mas fica temeroso de uma violência que não condiz com o se houve na canção. E faltam espaços. Restam as partituras, mas a atmosfera, o ambiente em que aquilo tudo acontecia vai-se perdendo. Não há como passar essa parte adiante.

 

Por que a geração atual, em geral, não consegue alcançar a complexidade da música brasileira dos anos 50, 60 e 70?
Einhorn – Essa dá seguimento ao que eu dizia antes. A geração atual não viveu os anos que você citou. Alguns viveram, mas já com outras coisas para se preocupar. Do ponto de vista do business, a divulgação em rádio, o próprio disco, durante muito tempo, apesar de anunciarem um retorno já há um tempo, e os shows praticamente terminaram.

E os festivais, as gravadoras, as casas de show – lugares onde o músico poderia encontrar com seu público – esses terminaram quase que totalmente. Os intérpretes, os criadores de toda a coisa da Bossa Nova foram envelhecendo, morrendo. Vide as notícias sobre o João Gilberto, que junto com o Jobim fundou o estilo. Fiquei muito triste ao saber dessa situação. Queria revê-lo, mas só posso torcer pra que tudo melhore para ele e para a música brasileira.

Isso tudo, óbvio, nos afasta do contato com a geração de hoje. Não há mais a assimilação do que foi a música nesse período, salvo pelos que estudam música ou que ouvem os comentários dos pais sobre a época. Por outro lado há a internet, o acesso via Youtube, Facebook etc. Mas a música é física, presencial. Sem isso fica difícil. E só assim a Bossa vai prosseguir.

Que característica crê que seja mais marcante na sua geração?
Einhorn – A aceitação pela aprendizagem na época. O ímpeto de compor samba misturado com jazz. E o que nos une hoje é a longevidade, que nos favoreceu e nos premia.

Quais são suas maiores influências musicais?
Einhorn – Pixinguinha. Charlie Parker, Waldir Azevedo, Ernesto Nazareth, Glenn Miller, Ella, Fitzgerald, Sarah Vaughan, Jean ” Toots” Thielemans, Vitor Young, os irmãos George e Ira Gershwin, Jobim, Cole Porter, Debussy, Ravel, Sinatra, André Kostelanets, entre outros…

Quais são seus valores essenciais?
Einhorn –  A preservação democrática da liberdade, a coerência, a prudência, a idoneidade, a importância da família, a preservação do nosso pequeno planeta. E, claro, aproveitar o riso, as amizades e afinidades diariamente.

Que dica daria a um iniciante?
Einhorn –  Eu sou um músico autodidata e aprendi ouvindo, portanto, não posso recomendar menos do que ouvir muita música. Prestar atenção no que a “cozinha” faz. Além disso, crença na sua decisão e a persistência nos estudos. Um dia após o outro, afinal o aprendizado é “forévis” como dizia o inesquecível Mussum!

Quais são suas próximas jogadas?
Einhorn – Tenho composto e revisto alguns trabalhos de composição meus de alguns anos. Tenho shows dias 14 e 21 de março, respectivamente, no Alegrete do Copacabana Rio Hotel e no Museu Villa Lobos com um jovem pianista chamado Natan Gomes. Em 6 de abril, me apresento no Espaço Artur da Távola, na Tijuca, com o Nelson Faria e Guto Wirtti.

Fechar X
Fechar X
Sem mais artigos