Xenia França em foto de Janine Moraes

Xenia França está entrando em órbita. Seu disco, lançado no ano passado, comprovou que o música brasileira tem a sua contribuição para um fenômeno mundial que vem sendo chamado de afrofuturismo. Este ano, ela já conquistou os Estados Unidos e seus shows no Brasil estão cada vez mais disputados.

Ela acaba de voltar de uma temporada quentíssima nos EUA e ficou surpresa pela maneira com que foi acolhida. Foi reconhecida como “rainha africana” pelo rapper Busta Rhymes.

Revistas de moda, passarelas, anúncios, todos estão caindo e joelhos diante da estética e da geração de descolados reunida em torno de festivais como o Afropunk. A baiana de Candeias, criada em Camaçari e radicada em São Paulo, chega para colocar seu dendê e talento nesta tecnologia.

Xenia se apresenta no Coala Festival, em São Paulo, no sábado (1). Leia nossa conversa no camarim do Festival CoMa, em Brasília, em que a cantora e compositora mostrou inteligência e sensibilidade ao abordar assuntos como estética, racismo e misticismo.

De que maneira percebe que o Brasil pode contribuir com o afrofuturismo, você como baiana?
Xenia França – Quando eu entendi o afrofuturismo como um complexo de assuntos para mim ficou muito mais fácil entender que, nos Estados Unidos, os artistas que criaram a ideia de música afrofuturista, estavam muitos ligados à cultura egípcia. E na cultura egípcia, toda a cultura era o afrofuturismo, desde a prestação de serviço que você fazia na comunidade. O trabalho que você fazia, a diversão, a música, as artes plásticas, a maneira de escrita daquela época, tudo aquilo era um tipo de tecnologia conjunta vinda do universo que ajudou o faraó, que era a entidade mais próxima de deus na terra, para canalizar toda aquela organização social.

Eu acho o Brasil, com as culturas que existem aqui, tem muito a contribuir com o afrofuturismo. Porque a gente tem outras referências, de povos diferentes que não os egípcios… bantos, iorubás. É impossível em continente diaspórico, a gente não ver o impacto e a cultura negra africana. Basicamente, o lastro da cultura brasileira é africana, de diferentes povos.

Em cada lugar, isso se reflete de um jeito. No Maranhão se reflete de um jeito, na Bahia se reflete de um jeito, em Cuba se reflete de outro. Todo ocidente bebe dessa água, toda a estrutura social é fundada nessa água.

Eu sou baiana e tenho uma referência muito específica da cultura negra e vejo os movimentos que acontecem em Salvador, nas pequenas cidades, sendo tão espontâneos nessa diasporicidade, em refletir, é uma fonte inesgotável de assuntos. Eu acredito que é muito maior que uma música, ou uma estética, mas é você entender o complexo de tudo, de onde a gente veio.

Eu sei que eu naturalmente posso representar uma ideia de afrofuturismo pela comida que eu comi, pelo dendê que eu comi, pela música que eu escutei na minha casa. Por todas as referências inclusive ocultas que eu recebi, essas lacunas, que atualmente nós artistas pretos estamos usando a nossa arte, usando o Adinkra Sankofa que “não há vergonha nenhuma em você resgatar o passado e viver o presente olhando para o futuro”.

Então eu acho que a contribuição brasileira para diáspora negra é infinita. Em cada lugar em que a presença negra se colocou no Ocidente, ela se expressou de uma forma.

Inclusive, meu disco tem essa característica. A nossa cultura, a maneira como a presença negra se deu no Brasil representa o afrofuturismo à sua maneira. E é um momento que eu tenho muito orgulho de viver e humildemente, me expressar.

Xenia França por Mídia Ninja

Outra contribuição que você tem dado é de quebrar o estereótipo da mulher negra raivosa? Talvez trazer uma certa doçura, que você e Luedji Luna trazem, seja uma coisa tipicamente brasileira?
Xenia – Eu vou começar de uma maneira bem simples. Quando eu estou no meio de pessoas diversas, eu sempre percebo que a mim é sempre atribuído a raiva. É muito fácil para as pessoas deslocar essa ideia naturalmente para mim.

É mais um dos estereótipos do racismo. É muito fácil, principalmente para os homens. Isso também é uma maneira de rejeição. Historicamente, isso vem se desenrolando e tomando novas facetas para gente não perceber que isso é racismo.

Dentro do meu trabalho, eu procurei desde o primeiro momento, tratar de questões muito subjetivas e que no meu desenvolvimento social eu não via as pessoas nem falando sobre, nem dispostas a isso por falta de conhecimento. Então, ao invés de esperar que as pessoas tivessem empatia, eu mesmo passei a ter empatia comigo mesma e passei e me curar desses processos traumáticos, que é muito difícil se relacionar e até hoje é difícil se relacionar e ver que as pessoas não estão ligadas.

Até em cima do palco eu costumo fazer esse exercício. Em Reach the Star eu costumo pedir pras pessoas fecharem os olhos, pensarem no sonho dela e imaginar que esse sonho é de todo mundo, que nós somos a mesma pessoa. Porque, desde a infância, a gente não é ensinado a ter empatia com o outro.

Tem uma certa lenda que os brancos não enxergam os negros. Literalmente, quando você está parado em um corredor, o branco passa e esbarra em você. Isso é um exercício contínuo de desde muito tempo atrás.

Então eu não posso mais, eu não tenho mais tempo de esperar alguém vir me dar a mão, alguém vir me entender. Eu entrei em um processo de cura, de autocura, porque quando eu me curo, eu curo as outras pessoas.

Quando eu me coloco em um movimento de doçura, de entendimento, de paciência, de amor comigo mesma, eu vou emanar essa energia e naturalmente tudo fica mais calmo.

Eu aprendi esses dias nos Estados Unidos que quando você não fala inglês e a pessoa está falando como se você soubesse, se você falar “sorry”, naturalmente ela fala mais baixo e mais devagar.

É simplesmente você ativar um modo dentro de você porque se você devolve a agressividade na mesma moeda você vai receber mais agressividade, mesmo que ela seja inocente ou oculta.

Tá tudo muito difícil pra gente vir com uma pedra, com um machado. Eu tô cansada de ser vista com essa imagem. E muito pelo histórico de vida que eu tive, a minha mãe sempre foi uma pessoa muito brava e essa mentalidade, esse exercício era pra impor respeito. No trabalho, dentro de uma casa que só tem homem.

Eu não preciso mais disso, eu acho que tenho tecnologia suficiente pra trabalhar de outras formas. E eu acredito que como o racismo tirou muito do afeto, o afeto foi negado aos corpos das pessoas pretas, eu me dou o direito de me amar, de me dar carinho. Que quando eu faço isso, eu acabo criando uma onda, de empatia mesmo, as pessoas percebem isso e elas começam a chegar.

Se elas não sabem, elas vão procurar saber, entender. E eu só tenho esse objetivo, eu não tô a fim de guerrear com ninguém. Eu tô a fim de criar dentro do meu campo de força, por menor que ele seja, um movimento de empatia, de amor, carinho. Porque eu não viver sem isso.

 

Que dica você daria a um iniciante na música?
Xenia – Cara, eu sou apaixonada por música para além de ser cantora. Antes de imaginar que eu iria ser cantora, que eu seria artista, eu gastava maior parte do tempo mexendo nos vinis da minha mãe, ouvindo rádio, não podia ouvir uma música em um filme que eu já ficava louca, não tinha Shazam, não tinha nada de procurar música naquela época, então eu ficava louca querendo descobrir que música era aquela.

Muito do repertório de música que eu tenho na minha cabeça são músicas aleatórias de rádio. Eu escuto a Alpha, várias rádios e as pessoas falam, como você sabe tanta música? É porque eu ouvia muita rádio.

Eu acho que quem gosta de música, gosta de música. O meu conselho é se entregar à música como um fenômeno da natureza porque a música entra na nossa vida sem pedir licença. Ela nos atravessa, nos molda, nos educa. A música me trouxe tantas coisas lindas, um senso de responsabilidade sobre quem eu sou, quem eu quero ser, onde eu quero estar. Me ensina coisas, me traz informação, me apresenta pessoas maravilhosas, muito interessantes. Simplesmente porque eu me entreguei à ela e quero me entregar cada vez mais.

Meu conselho para quem ama a música e quer viver de música é se entregar mesmo, se entregar à deusa, ao universo porque a música é um fenômeno da natureza e nós somos a natureza. Então se a gente se entrega à música, a gente se entrega à natureza.

Como é para você ser uma referências para as meninas que estão surgindo, gente que se espelha em você?
Xenia – Eu tinha muito medo, muita dificuldade em aceitar essa coisa da referência. Quando eu era criança e eu assistia a Glória Maria na TV. Eu era muito fã da Glória Maria. Não exista essa coisa da gente ficar tête-à-tête falando sobre racismo. Mas subjetivamente, eu entedia que só a Glória Maria estava na TV.

Eu fiquei com isso anos, até o vestibular, dizendo que eu ia ser jornalista por causa da Glória Maria. Acabei fazendo comunicação e publicidade, graças a Deus não cumpri porque não ia ter nada a ver comigo.

Mas de uns tempos para cá, principalmente depois que eu concretizei o mesmo disco e concebi que eu estava falando pra mim mesma, eu decidi que meu trabalho é autorepresentativo. Então já que eu quero me curar, já que eu quero falar essas coisas pra mim, já que não tem muito acesso a informações, eu só tenho a minha própria experiência para lidar com tudo isso, eu decidi aceitar.

E quando eu aceitei isso, eu aceitei as pessoas que me mandam mensagens, me contam histórias das vidas delas. Eu fico extremamente comovida na internet quando as pessoas se abrem para mim, contam coisas extremamente íntimas. Pra mim é uma honra, é um dom de poder me comunicar.

Mais do que ser uma artista, uma cantora, conseguir traçar essa comunicação e fazer as pessoas olharem para mim e se identificarem comigo. A minha história é extremamente comum, a minha história é mais do mesmo. Eu não sou uma pessoa super cool, eu vivia no interior em Camaçari. Depois que eu me mudei pra São Paulo eu conheci uma galera. Os amigos de Salvador que eu tinha já era uma galera bem mais descolada.

Tudo que eu sei, que eu soube até outro dia, estava baseado naquele mundinho de vidro que eu tinha ali na minha casa, que eu ouvia no rádio, na televisão. Tudo foi baseado no sonho, na projeção de que um dia eu estaria em Nova York, que eu estaria pra lá e pra cá, sem tempo de nada, pegando um avião e outro, tudo isso foi projetado.

Não tenho um monte de referência, não li vários livros. Eu fui conhecendo e estou ainda conhecendo por causa da música e por causa das pessoas que a música tem me trazido.

Então ser uma referência é uma honra mesmo e o que eu puder fazer, o que eu puder ajudar. Plantada na coerência de ser o que eu falo, ser o que eu canto, estar presente, não abrir margem para reprodução de coisas negativas. Porque infelizmente, a gente entra no automático e acaba reproduzindo muito as coisas. Estar presente para poder ser maior, maior que a gente pensa que é. E estar na presença do universo porque é só isso que me interessa.

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