“Dei uma super volta para conseguir te responder, né?”, Dinho Ouro Preto está sentado no sofá de seu escritório, com óculos de leitura e seus vans pretos em cima da mesinha de centro. Por telefone, ele conversa com um jornal nordestino sobre o último trabalho do Capital Inicial, o EP intitulado Viva a Revolução. O curitibano passou dois dias dando entrevistas e recebeu o Virgula Música com um pouco de atraso, resultante de seu gosto pela conversa — e do fato de ele ter muito o que dizer.

Viva a Revolução traz seis músicas inéditas mais uma faixa bônus (a faixa-título sem a participação da Cone Crew Diretoria). Elas se entrelaçam pelo tema: as manifestações que convulcionaram o país em junho de 2013. Mas não espere músicas repetitivas, já que Dinho acredita que os protestos foram complexos e abrigam vários momentos: “Eu acho que esse disco, mal ou bem, pega as diferentes fases [das manifestações]. Eu escrevi seis músicas que, de algum modo, abordam o mesmo momento histórico do Brasil, mas sem querer ser redundante, evitando repetições”, ele explica. “O jeito é abordar sob prismas e aspectos diferentes”. A banda também buscou uma variação sonora para o EP, ou seja: algo que não existe no trabalho é a sensação de “mais do mesmo”. Porque ele não é.

A faixa-título do álbum é a que comemora o despertar social causado pelos protestos. “Vamos todos para a rua / Onde todos cantarão / Viva a revolução”, canta Dinho no refrão da música. “Eu via ali uma coisa meio odara, meio hippie. As flores no cabelo, a fumaça na cabeça. Ela é o lado positivo”, ele reflete sobre a faixa. Viva a Revolução conta com a participação do grupo Cone Crew Diretoria. O rap intercalado com a voz de Dinho é da autoria de Papatinho. O grupo e a banda se conheceram ao tocar, no ano passado, na mesma noite no festival João Rock. Dinho já tinha ouvido histórias dos rappers graças ao seu sobrinho, que gravou vídeos do grupo. “Eu bati na porta do camarim deles e disse ‘Oi, eu sou tio do Fred’. E eles me convidaram pra entrar”.

Outro nome que aparece nos créditos de Viva a Revolução é o de Thiago Castanho, ex-guitarrista do Charlie Brown Jr. O santista e Dinho são amigos há anos e costumam frequentar a mesma praia no litoral norte de São Paulo. “Ele estava muito abatido”, Dinho fala sobre seu encontro com Thiago nas férias, o qual perdeu dois amigos em 2013, Chorão e Champignon, seus colegas de Charlie Brown Jr. O apoio que Dinho deu para o guitarrista foi simples: o incentivou a fazer músicas. Duas delas chegaram ao EP: Coração Vazio e Melhor do que Ontem, primeiro single de Viva a Revolução. O vocalista do Capital Inicial considera a ideia de levar adiante um projeto paralelo com Thiago, para reaproveitar as músicas que fizeram juntos e não entraram no trabalho da banda. “A gente fez um monte de músicas, eu tenho elas no iPad. São genais. Esse cara é um talento”, ele elogia o amigo.

 

 

Além de ter feito parte da composição da música, Thiago Castanho também participou da gravação de Coração Vazio, sendo o responsável pelo violão da faixa — o único instrumento a acompanhar a voz de Dinho, no estilo das baladas da antiga banda de Thiago. “Quando ela acabou no estúdio, todo mundo ficou se olhando, ficou aquele ‘Uau’. Essa música tem o poder de transbordar para todas as tribos. Ela pode ser uma surpresa”, Dinho especula.

A parte de insatisfação do EP fica por conta de Bom Dia Mundo Cruel e Não Tenho Nome. A primeira traz uma sonoridade parecida com os dois álbuns que o Capital lançou no início dos anos 2000, Rosas e Vinho Tinto e Gigante. Dinho conta que a batida da música é responsabilidade de Liminha, produtor do EP. “Eu, que sou o compositor da música junto com o Alvin L., fiquei meio reticente. ‘Jura que você vai fazer isso com a minha música?’” ele brinca. “Eu confesso que em um primeiro momento achei bizarro o que ele estava fazendo. Ele mudou a harmonia, sugeriu outros acordes, mudou a música de direção. Eu estranhei, mas todo mundo a minha volta adorou. Eu acabei de Maria-Vai-Com-As-Outras, ‘tudo bem, eu cedo’ [risos]”.

Não Tenho Nome narra a rebeldia dos adolescentes que encheram as ruas com suas máscaras e desagrado direcionado a tudo e todos. “Embora em um primeiro momento [as manifestações] me parecessem uma celebração generalizada, uma festa em nome da liberdade, em alguns momentos elas começaram a desandar para raiva. Antes mesmo dos Black Blocs. Houve um momento de lenta transformação das manifestações”, Dinho reflete. “As pessoas invadiram a cúpula do Congresso, as águas do Itamarati, a Candelária, no Rio. O tom das coisas começou a esquentar. Ainda eram centenas de milhares nas ruas, antes de o movimento ficar muito violento e de as pessoas se dispersarem. A multidão começou a invadir os monumentos. O que começou como algo pacifico lentamente se transformou em algo raivoso”. A inspiração para o ritmo de Não Tenho Nome foi o rock glam dos anos 1970. “O bumbo e a caixa são do Gary Glitter. A gente foi em [I Didn’t Know I Loved You Till I Saw You] Rock and Roll e roubou aquilo”, ele ri.

Viva a Revolução é a primeira vez que o Capital Inicial trabalha com o produtor Liminha, salvo uma rápida parceria logo no início da banda, quando gravaram o compacto duplo Descendo o Rio Nilo/Leve Desespero. “Ninguém faz uma reputação como a dele do nada”, Dinho afirma em relação ao produtor. “Você entra no estúdio dele e fica de cara com tudo o que ele fez, tanto em rock como MPB. Todos artistas brasileiros grandes estavam lá, menos nós [risos]”. O jeito “mão na massa” que Liminha tem de trabalhar agradou Dinho Ouro Preto. “O legal dele é que ele pega o violão. Vários momentos do EP são sugestão dele, como a batida de Satisfaction [do Rolling Stones] em Bom Dia Mundou Cruel e o jeito meio Muse de Tarde Demais. A minha batida original era parecida com a de With or Without You [do U2]”, ele explica.

“Todas as músicas cresceram. Ouço várias delas hoje e acho surpreendente que elas sejam do Capital ‘olha que moderno, que revigorado’”, ele continua. “A grande virtude do Liminha é que ele não está lá para registrar o que você fez. Ele se vê como um membro da banda que está ali ensaiando com você. É estimulante, a atmosfera é muito rica. Todas as nossas músicas mudaram e ficaram melhores”.

A empolgação de Dinho ao falar sobre música é a mesma quando fala de política, o que fica óbvio para qualquer um que vá a um show do Capital Inicial (lembra daquele discurso no Rock In Rio ano passado, entremeado por vários “caras”?). Ele concorda que talvez quem o ouve acredite que ele é do tipo que acha que o único jeito de mudar o país e exilando todos os políticos, mas não é assim que ele realmente pensa. “Eu acho que precisamos de renovação, de alternativas. De outros nomes. Nós precisamos nos livrar das velhas oligarquias. Do mesmo jeito que precisa de renovação na música, precisa na política também. Será que a Marina [Silva, canditada a presidência] representa [a renovação]? Eu não sei bem”, ele reflete. “Possivelmente. Eu sei que há bons nomes (…). Tem gente virtuosa, mas eles acabam se enlameando todos [por conta das barganhas políticas]”.

Quanto às manifestações que o levaram a escrever seis músicas, Dinho sabe que o que aconteceu não foi um mar de rosas. “Eu tenho críticas. Eu não aprovo o que os black blocs estão fazendo. Eu acho contraproducente, na verdade, tem um efeito inverso”. Ele acredita que a violência dos manifestantes foi a responsável por afastar as pessoas dos protestos nas ruas. “A grande virtude do que aconteceu em junho era justamente as pessoas aprenderem o poder da mobilização. É importante que os poderosos não se sintam confortáveis demais nos seus palácios”, ele defende.

Ainda sobre os manifestantes mais agressivos, ele conta que leu uma entrevista de Camila Jourdan, professora de filosofia da UERJ que foi presa. “Ela disse que depois de se decepcionar com Lula, tinha chegado a conclusão de que não basta mudar as peças do tabuleiro, porque o que está errado é o jogo”, ele lembra. “Eu discordo. Esse é o jogo que temos que jogar, o da democracia representativa”. “A democracia brasileira é muito jovem”, ele diz. “O tempo vai separar o joio do trigo. Caminha-se para isso. Uma democracia precisa ser depurada (…). É um processo natural e lento”.

“É esse o jogo a ser jogado sim”, ele continua. “E é legítimo dentro desse jogo você votar nulo. Não é a mesma coisa que se abster ou votar em branco. Votar nulo, mal ou bem, diminui o saco de votos do vencedor, diminui a legitimidade e o poder (…). É uma expressão tão válida quanto votar em candidatos. Vi artigos na Folha [de S. Paulo] do Fernando Rodrigues e do Hélio Schwartsman dizendo que isso só favorece quem está na frente. Sim, mas você também o enfraquece, você diminui a legitimidade e a representavidade dele”, Dinho defende.

 

Show em São Paulo de lançamento do DVD Viva a Revolução

Data: 30 de agosto

Local: Citibank Hall

Preços: de R$240 a R$40

Fechar X
Sem mais artigos