Na juventude ele trabalhou com topografia. Estudava a
superfície dos solos e a intensidade dos espaços para abrir novos caminhos.
Essa deve mesmo ser a vocação do dançarino e coreógrafo Nelson Triunfo:
deslizando pelos solos como James Brown, ele incendeia as pistas há mais de 40
anos e ajudou a erguer os pilares da cultura hip hop no Brasil.

Neste domingo (16), o Virgula Música esteve no Viaduto Santa Ifigênia,
no centro de São Paulo, para acompanhar a gravação da cena final do filme que
conta sua história,
Triunfo O Filme. Foram quase três anos de produção do documentário, completamente independente e com baixíssimo orçamento.

“A última cena do filme é uma imagem do Bronx, um lugar
importante na história do hip hop norte-americano, seguida dessa gravação de
hoje na região onde nasceu o nosso hip hop”, explica Caue Angeli, que dirige o longa-metragem ao lado do pai, Hernani Ramos.

Para documentar a trajetória do pioneiro Nelson Triunfo, os
produtores optaram por uma abordagem diferente. “O rapper Thaíde interpreta o locutor
de uma rádio e é o fio narrativo da história, que se desenrola através dos depoimentos que ele colhe”, adianta Angeli.

Entre os entrevistados estão também o coreógrafo Carlinhos
de Jesus
, a dupla de grafiteiros Os Gêmeos, que acompanhavam as exibições de Nelson
nas ruas na década de 80, os músicos Cajú e Castanha, que tentavam em vão dividir as
atenções dos transeuntes com o dançarino, e outras personalidades que
reconhecem a importância do artista para a cultura hip hop, como Wilson Simoninha,
Sandra de Sá e Criolo.

“Sou de Triunfo, em Pernambuco. A cidade mais fria da
região!”, conta Nelson. Soa até irônico ouvir isso após vê-lo incendiar o viaduto
e contagiar a todos com seu carisma, desenvoltura e, sobretudo, com o estilo intenso
e cheio de atitude que exibiu naquele asfalto ao som de Sex Machine, de seu
ídolo James Brown.

Depois de dançar em muitos bailes de black music, como
aqueles promovidos pelo coletivo Chic Show nas décadas de 70 e 80, Nelson levou seus breaks para as ruas do centro. Foi então que o hip hop e a cultura de rua
começaram a nascer. Muitas pessoas que ele agregava em suas apresentações
tornaram-se MCs, b-boys, DJs e grafiteiros.

“Eu sempre fui muito amarrado em música. De Sammy Davis e
Fred Astaire a Carmen Miranda, passando por frevo, maracatu, samba, e chegando
nos artistas da Motown. Também sempre curti ler, me manter informado sobre o
que acontecia lá fora pra fazer aqui também”, conta Nelson.

Triunfo O Filme ainda não tem data de lançamento, mas deve
participar de festivais de cinema nos próximos meses. Nelson Triunfo está
preparando um disco solo, e continua
com trabalhos sociais na periferia e ministrando oficinas culturais.


Trailer documentário – Triunfo from Canal Aberto on Vimeo.

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