“Mas, olha, eu ainda tenho todo meu cabelo!”, disse o vocalista Pierre Bouvier, rindo para a plateia. Ele e seus colegas do Simple Plan já podem ser considerados veteranos no que fazem. O grupo foi formado em 1999 e o primeiro álbum da banda, No Pads, No Helmets… Just Balls foi lançado em 2002. Com uma dúzia de sucessos na bagagem, eles trouxeram a comemoração de quinze anos do primogênito para uma turnê no Brasil, passando por cinco cidades.

A vez de São Paulo foi neste domingo, 27, para um Audio Club lotado. Pode parecer pouco para quem lotou o Anhembi em seu auge, mas pelo menos responde a pergunta dos que se questionavam sobre a vitalidade, e até mesmo a existência, da banda canadense que foi sucesso nos anos 2000. O Simple Plan está vivo. Talvez não mais forte do que nunca — o movimento emo no qual a banda de pop punk conseguiu pegar carona graças às suas letras emocionais (ainda que melodicamente eles nunca tenham se encaixado nos requisitos do emocore) acabou. Os tempos de Welcome to My Life ficaram para trás e Taking One For The Team, último álbum do grupo lançado em 2016, não foi exatamente um sucesso nas paradas.

Mas foi um sucesso entre os fãs da banda — o que mostra que a longevidade de um grupo não depende do número de hits e sim de uma base forte de gente disposta a ouvir as suas músicas e a ir em seus shows. Talvez o Simple Plan, seja, de fato, uma “banda de fase”, daquelas que a gente acaba superando depois de um tempo. Mas não para todo mundo.

Ainda que o que tenha levado a banda para o estrelato tenham sido as letras que refletem a angústia adolescente (tão importantes em um momento da vida em que o que mais precisamos é que as nossas angústias, justamentes, sejam validadas), o que realmente fidelizou os fãs foi a atitude do grupo. Não é um caso de simples simpatia por parte dos integrantes, ainda que o carisma de Pierre Bouvier como líder do grupo seja inquestionável e o coloque como um dos melhores frontmen de sua geração. O que o Simple Plan consegue é fazer com que todo o seu público se sinta como parte inquestionável de alguma coisa.

No caso do show de domingo, parte inquestionável do envelhecimento. A brincadeirinha com a existência de cabelos rendeu boas risadas — ainda mais considerando o guitarrista Jeff Stinco, o inveterado careca da banda. A dinâmica entre o grupo está sempre afiada, seja quando Bouvier e Sebastien Lefebvre, backing vocal e segundo guitarrista da banda, lembram de um mundo em que não existia pornografia gratuita e de fácil acesso na internet, seja quando o baterista Chuck Comeau provoca Bouvier por sua suposta incapacidade de manter uma ereção por muito tempo, seja quando o vocalista tira com a cara dos próprios fãs dizendo que agora eles não precisam de permissão (e dinheiro) dos pais para irem assistir a um show do Simple Plan. Os canadenses tem a capacidade de fazer com que o público se sinta em uma reunião do colegial, em que aqueles seus amigos amáveis e de um humor adolescente e autodepreciativo te mostram que cumpriram a promessa de “não crescer”, mesmo que já estejam com quase quarenta anos e hoje sejam pais de família. Nada mudou.

Bom, quase nada. O baixista oficial do grupo, David Desrosiers, não faz mais turnês com a banda. Ele permanece como membro oficial do grupo, faz parte das gravações e das fotos de divulgação, mas se afastou da maior parte dos shows por conta da sua depressão — o que coloca em cheque as músicas mais sofridas da banda e nos faz perguntar se o que havia por trás daquela aparente revolta dramática de adolescentes exagerados já poderia ser sinal um sofrimento psíquico muito mais sério. Desrosiers, entretanto, fora lembrado. Durante a música Addicted, um dos primeiros sucessos da banda, Bouvier pediu para o público lembrar do baixista e vários fãs ergueram cartazes em que se lia “David está aqui”, em inglês.

Na falta de Desrosiers, que fazia o papel de interlocutor das brincadeirinhas de Bouvier, Lefebvre assume o posto graciosamente e até o baterista, Chuck Comeau, ganha um longo tempo para interagir com a audiência, chegando a se jogar nos braços do público. Esse é o espírito da banda. Piadas bobas, músicas simples, três acordes de guitarra (ainda que Bouvier tenha feito questão de mostrar que Stinco é capaz de muito mais — “a gente só não deixa”, o vocalista brincou). Mesmo no tempo em que o grupo tinha uma legião de seguidores com longas franjas e delineadores em exagero, eles afirmavam que o que os motivavam eram os fãs. E os fãs ainda estão presentes. É claro que as preocupações não são mais bater o carro dos pais ou estudar para uma prova. Os fãs cresceram. O Simple Plan não. Os canadenses mantiveram mesmo o compromisso de não crescer, feito na música “Grow Up” , de No Pads, No Helmets… Just Balls: “Eu não quero que me digam para crescer e eu não quero mudar. Eu só quero me divertir”.

Entretanto, não deixa de ser simbólico que uma das escolhidas para encerrar o show tenha sido encerrado com Crazy, uma das músicas tocadas numa rápida retrospectiva da carreira da banda, feita depois de No Pads, No Helmets… Just Balls ter sido tocado na sua integridade. A faixa mostra que o Simple Plan se preocupa e pensa, sim, a respeito de outras coisas além de escapar do tédio que a vida de adulto parece dar. No refrão, eles se perguntam se todo mundo enloqueceu e se alguém vira salvá-los. Será que diante da situação política e social em que todo o Ocidente se encontra, só os adolescentes que os fãs da banda foram um dia têm o direito de se sentirem desamparados? Talvez não. E talvez seja justamente isso que o Simple Plan ainda quer mostrar.

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