Emicida

Divulgação/Ênio César Emicida

No Laboratório Fantasma, sobrado na zona norte de São Paulo onde fica a sede da produtora e o QG de Emicida, em Santana, a escada de madeira sacode de tempos em tempos, reverberando por tudo e mostrando que aquele é um ambiente movimentado. “As pessoas vêm até aqui e se assustam, porque elas olham e ficam assim, nossa, vocês trabalham mesmo”, conta o músico que acaba de lançar o álbum O Glorioso Retorno de Quem Nunca Esteve Aqui, que provavelmente irá liderar várias enquetes com os melhores de 2013.

Na casa, ele controla todos os negócios da empresa, do merchandising da linha de roupas, aos discos e shows. Ao lado do irmão, Evandro Fióti, Emicida é gestor de cerca de 20 pessoas. Nos dias de apresentações, mais gente se agrega.

“Eu abdico de parte do meu tempo e mergulho numa coisa aqui que não é diretamente fazer música, mas me traz um prazer igual porque está ligado diretamente à música. Que é tipo a produção de todo merchandising e trampar junto com as pessoas aqui”, conta o filho da dona Jacira, que saiu do Jardim Fontalis para ser chamado no exterior, de modo reducionista de “Jay Z brasileiro”. Sua mãe participa do álbum, com uma narração, na auto-biográfica Cristântemo. A filha, Estela, de 3 anos, canta com Tulipa Ruiz em Sol de Giz de Cera.

Emicida, que lança o disco no no Sesc Pinheiros, dias 10 e 11 de setembro, passou por uma espécie de sabatina esta semana, em uma entrevista coletiva em “petit comité”, na qual estavam, além da reportagem do Virgula, os colegas Tiago Ferreira, do Na Mira do Groove, Vinicius Félix, da revista Trip, e Eduardo Araújo, do RockinPress. A conversa abordou temas como os caminhos musicais, o apoio de Tom Zé que o ajudou, sem saber, a fazer a música Trepadeira, fala do Fora do Eixo, a inspiração para empreender, entre outros assuntos.

Emicida, se você tivesse que definir sua missão na música, qual você diria que é?

Eu, sei lá, se você tivesse me feito essa pergunta há 5 anos, eu ia te fazer uma resposta que ia parecer que eu tinha acabado de ler livro do Karl Marx. Hoje eu diria que minha luta é pela liberdade. Pela liberdade, não no sentido festivo da palavra, pela liberdade no sentido responsável.

Eu gostaria muito de colocar na cabeça das pessoas, e no coração delas, que elas podem ser quem elas quiserem ser. Principalmente, as que vêm dos lugares de onde eu vim.

Então minha missão é essa mano, mostrar que realmente e gente vive em um mundo filho da puta, mas que nós levantarmos a cabeça e partir para cima, tem vários que a gente vai derrubar só no susto. Eu acredito muito nisso, minha luta é muito por isso. E estou aqui, a gente está aqui hoje por isso, como prova viva de que existe essa possibilidade de uma outra revolução.

Eu vejo a minha carreira como uma metáfora do que deveria acontecer, por exemplo, na política. Eu sou um cara que saiu sozinho de um bairro distante e conseguiu trazer relevância para o que falava e conseguiu construir muita coisa.

Acredito que na política isso deveria acontecer e no mercado cultural, na indústria como um todo, se tivesse umas pessoas que tivessem uma postura como a nossa, acho que a gente ia ter um peso diferente dentro indústria, o gênero e o segmento da música independente como um todo.

O que você acha que falta para que outros Emicidas surjam?

Não sei se outros Emicidas, porque tem uns caras que vão achar uns caminhos que eu vou  achar mais louco que o meu. Tipo, tem um negócio de meter a cara. Acho que falta mesmo meter a cara e se preocupar com a parte chata. Boa parte das pessoas com quem eu convivi, com quem eu trabalhei, eu vejo que as pessoas vêm até aqui, elas se assustam, porque elas olham e ficam assim, nossa, vocês trabalham mesmo.  Aí, você fica assim, caralho, você acha que eu fico postando no Twitter que eu estou trabalhando e fico em casa, sabe?

Mano, eu acho que os artistas tem que se preocupar com a parte chata. Eu tenho um amigo que trabalha com teatro. E ele fica me ligando para gente fazer uma paradas juntos e eu toda vez marco com ele, desmarco, e eu digo, porra, mano, tenho que ir lá que os caras vão contar o estoque, ou tenho que ir porque deu um problema com a distribuidora de CD, ou então com não sei o que lá do tecido, sabe? Esse tipo de coisa.

E ele fala, porra, mano, você nunca tem tempo. Eu falo para ele sempre que , cara, eu sou um artista e eu sou vaidoso com essa parada, está ligado? De para onde a minha música vai, como a minha música vai chegar até as pessoas. E eu quero manter a minha liberdade. E para eu manter minha liberdade eu sei que em algum momento eu tenho que abdicar de alguma coisa. E o que eu quis abdicar foi do meu tempo.

Eu abdico de parte do meu tempo e mergulho numa coisa aqui que não é diretamente fazer música, mas me traz um prazer igual porque está ligado diretamente à música. Que é tipo a produção de todo merchandising e trampar junto com as pessoas aqui.

Quantas pessoas trabalham aqui?

Acho que umas 20, talvez. Se você somar todo mundo, trabalho que trabalha em estúdio também, indiretamente, deve ter até mais. Porque tem gente que só trabalha no show. Mas diariamente comigo, a gente deve ter umas 20 pessoas.

Muita gente fazia rap nacional nos anos 90, o Sabotage é um grande exemplo, que não havia controle da execução da obra dele, não havia um escritório para você organizar, como você gere a sua carreira…

Tem um bagulho muito louco de influência dos gringos. Isso aí tem que dar essa moral para os gringos mesmo, fora o fato de eu fazer rap, que também é dos caras, tem uma parada de organização de empresas dos caras, de montar as firmas deles e sei lá terceirizar quando eles não alcançam mais. Sei lá, você fazer uma Roc-a-Fella (selo musical de Jaz-Z) da vida e pegar uma Universal para distribuir.

Esse tipo de coisa que eu considero ser o ideal para que realmente a gente mantenha o norte, a diretriz musical e ao mesmo tempo que a gente quer dar um passo para um comércio maior, a gente negocia com uma distribuidora, com uma gravadora.

Isso aí foi uma coisa que me influenciou muito e talvez tenha sido uma coisa inocente minha, mas eu acreditei que fosse uma coisa comum, inclusive no Brasil. Não era. Então quando eu cheguei, comecei a ver mesmo, a gente penou muito eu e o (Evandro) Fióti, pela falta de referência.

Porque realmente não tinha muita referência, é um bagulho muito louco. A Paula Lavigne fala uma coisa que a gente é tipo o circo, que o pai ensina para o filho, que ensina para o outro filho. Não tem um bagulho onde você vai pesquisar e saber como faz.

Não tem uma espécie de escola…

Não tem, uma coisa que lá fora o mercado do entretenimento tem tanta grana que você tem lugares onde aprender sobre tudo. Aqui não. E também por que o mercado é escasso, tem muito investimento no mainstream e muito pouco investimento na música independente. E esse pouco investimento na música independente faz as pessoas ficarem se acotovelando aqui. Enquanto detém uma informação segura ela até morte. Não, esse cara vai roubar o meu espaço. A intenção é que todo mundo trabalhe para ampliar o espaço, não ficar espremido aqui, que a gente circule de uma maneira bacana.

Essa que foi a minha influência. Eu lembro que uma vez estava eu na casa de um parceiro meu chamado Josi e a gente estava vendo um DVD do Outland, que era a banda do 2Pac (Shakur). E os caras estavam indo de carro distribuir o disco. Eu achei esse bagulho do caralho e, mano, eu queria comprar um carro para distribuir disco. Eu nem tinha CD gravado e eu queria arrumar alguém que tivesse um CD para eu só ir dirigindo o carro, mano. Eu não sei nem dirigir e nem tinha disco (risos).

Como foi a decisão de lançar ele pelo Deezer? Porque teve o lançamento oficial por ali e depois você anunciou a parte física…

Essas ferramentas novas são muito loucas. Se você for analisar mesmo, mas elas funcionam com um certo público do Brasil. No Brasil, o download ilegal chegou primeiro. Isso é um assunto que é tão complexo porque a realidade da América Latina e acho que da África e talvez da Índia, é que no terceiro mundo, com relação à distribuição de cultura, eles tem a pirataria entranhada de uma maneira muito mais intensa.

E é muito pior discutir sobre pirataria aqui porque, mano, e a pirataria aqui foi o que definiu tudo dentro do país. Tipo, os piratas vieram aqui, mataram os índios e roubaram a terra deles. Aí, de repente, se o índio está vendendo CD pirata na rua, ele é um criminoso agora. É um debate muito profundo.

Qual a principal diferença entre O Glorioso Retorno de Quem Nunca Esteve Aqui e os primeiros discos?

Acho que a primeira coisa que norteou foi a possibilidade de ter uma finalização mais romântica, a parte técnica principalmente. Pela primeira vez a gente conseguiu dar o tapa que a gente queria. Eu queria muito fazer um disco que fizesse justiça ao caldeirão de músicas que eu escuto, mas sem ficar com cara de coletânea ou que parecesse que eu tivesse atirando para tudo quanto é lado.

A linha de raciocínio é dada pelo rap, pela música falada, uma coisa que pesquisei muito nos últimos anos, mas em termos de arranjo a gente era totalmente livre. A gente queria fazer um disco de música brasileira contemporânea.

E todas as composições são novas ou você guardou alguma?

A música Nóiz é de 2007. É a única velha que entrou. O Samba do Fim do Mundo, o primeiro verso eu declamei ele no VMB quando ganhei de artista do ano, mas não tinha lapidado ela. O resto pode ser novo para o público, mas não é novo para mim. Levanta e Anda quase saiu no Doozicabraba e a Revolução Silenciosa, assim com Nóiz quase saiu na primeira mixtape. Era uma forte candidata, mas no fim das contas não achei uma batida que casasse com ela.

Pela primeira vez um disco seu vai ter uma distribuição mais tradicional, estará nas lojas. Ao mesmo tempo em que chegam novas pessoas, você se preocupa em perder fãs do início?

Eu tenho uma preocupação de perder os fãs de verdade. Eu tenho um apreço muito grande por essas pessoas. Elas estavam no Saravejo (casa noturna de São Paulo) comigo quando iam 30 pessoas me ver. Tem dois pontos: quando você cresce muitas pessoas começam a julgar você pelos que elas acreditam que você passou a fazer e não pelo que você tem realmente feito. E elas podem se desligar do acompanhamento da sua carreira. Mas essas pessoas não eram fãs de verdade da sua música. Elas eram fãs de um símbolo que era mais cômodo ver no underground. Só que o underground só é cômodo para espectador, sacou?

E tem o fã que é apaixonado por música. E eu quero um público apaixonado por música, que tenha sensibilidade para entender o que estou fazendo, poeticamente falando. Creio que essas pessoas eu tenho. Nos dois últimos que a gente fez em São Paulo eu reencontrei 60% das pessoas que vão aos meus shows há mais de cinco anos. A parada mais da hora que tem é você apresentar um música legal para as pessoas. As pessoas podem não ser fã de rap tradicional, que compram vários CDs no ano, mas é do caralho você ser o cara que tipo: “Escuta essa parada aí” e a pessoa compra na curiosidade e acha foda. Não fico medindo quem escuta minha música. Se eu fizer isso aí vou dar direito dos caras cercarem o outro lado da cidade para nós. Meu critério é ser sincero, que as pessoas se prendam pela música, pela sinceridade. CD é feito para vender e música é para entrar nas vidas das pessoas e trazer algo de positivo para elas.

E quanto à questão da música Trepadeira, que levantou uma polêmica. Você escreveu a respeito, mas o que acha da questão. O rap não pode escrever uma crônica como outros artistas fazem?

É um flerte com a ficção, mas nós somos o rap. Vai doer em nós. Tem esse negócio, tudo que não for pautado na realidade dura das ruas é tido como um amolecimento na postura, na ideologia, quando minha luta é por liberdade acima de qualquer outra coisa. Não quero virar refém dos temas que já cantei e nem das pessoas que me escutam.

Tenho que me manter livre para criar música que eu considere relevante. E sou muito feliz de ter composto essa música e demorou, viu? Porque é nome de planta até umas horas e ninguém ajudou. Só o Tom Zé, mas sem saber. Porque eu fui lá e ele tava cuidando das plantas, ele ficava falando os nomes de cada uma e eu só aqui. O Tom Zé foi o primeiro que eu mostrei essa música e ele chapou. Ele falou um bagulho… falou que eu era o cão do segundo livro. Elogio do Tom Zé (risos).

No dia em que o Mídia Ninja estava no Roda Viva, o Pablo Capilé falou que o Fora do Eixo ajudou a lançar o Emicida. Afinal, qual o papel que eles tiveram nessa história? Ajudaram? Atrapalharam?

Eu não entendi isso não. Várias pessoas entenderam isso, mas eu não entendi isso. Ele falou como se nós tivéssemos utilizado da plataforma e realmente nós utilizamos da plataforma do fora do eixo.  E para mim foi bom, foi do caralho. Acho que eu cheguei no Fora do Eixo com um tamanho que eu tinha condição de negociar algumas coisas.  Eu não posso falar de proposta indecente com cubocard porque eu nunca recebi uma proposta do tipo, venha tocar para ganhar 8 mil cubocards. Isso não aconteceu comigo. E duvido que eles tenham colocado arma na cabeça de alguém e falado você vai tocar por causa disso.

Fazendo um comparação, quando a gente lançou Dedo na Ferida teve o lance da prisão em Belo Horizonte e muito se falou de liberdade expressão e perseguição do rap. E o que a gente queria que as pessoas vissem a situação do Pinheirinho, do Eliana Silva, das ocupações em São Paulo, dos incêndios na favela, isso foi pouco falado. Queria levar luz para esse questionamento, mas as pessoas só centraram que eu fui preso. A conversa tem que ser como a música independente se encontra.

A gente tem que sair do mundinho de que a música independente do Brasil é meia dúzia de banda de rock e o Fora do eixo. A gente tem um panorama cultural imenso e enquanto a gente não ver isso como um todo vai ficar nessa discussão aí. Porque se quando você pensa na música independente brasileira vem na sua cabeça edital, Fora do Eixo e banda de rock, você não sai na rua, você não vive a rua.

O que esses três pontos movimentam anualmente não chega a trinta por cento do que se se você pegar o forró, o tecnobrega, o pagode, o funk. Acho que conversa tá indo pro lado errado, como se o Fora do Eixo fosse a única opção na vida de todas as pessoas. A conversa deve ser como a música independente se encontra.

Como você viu os protestos dos últimos meses?

Eu fiquei feliz pra caralho porque tem esse negócio do exercício da democracia, das pessoas irem para rua. Mas eu também fiquei refletindo. Tipo, os caras tomaram tiro na Paulista, tiro de borracha e foi capa de jornal. Aí, porra, os policiais invadem a favela, matam as pessoas e nóis vira nota?

Isso mostra que tem alguma coisa muito mais séria que a gente precisa atentar. Achei do caralho, vi várias pessoas que eu acredito indo para as manifestações e acho que o Brasil inteiro deve exercer a democracia, principalmente nas favelas. Porque é lá que a bomba estoura.

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