Bayo em foto de Douglas Mendes

A Bahia não cansa de dar régua e compasso para a música popular. Uma nova safra de artistas, como Baiana System, Xênia França, Luedji Luna e ÀTTØØXXÁ, tornaram o Estado como o lugar mais quente para novidades em território nacional.

Graco e Nina Campos, integrantes do projeto Bayo, estão lançando Peixe, seu primeiro disco. O álbum tem samba-reggae com riffs de guitarra e timbres eletrônicos.

Há ainda percussão do Japa, da Baiana System, levadas que poderiam ter saído de um álbum do Olodum, música em parceria com Fábio Cascadura. Paraguaçu, uma das tracks do trabalho, entrou na coletânea Bahia Music Export e na compilação inglesa The Rough Guide to Psychedelic Samba. Leia nosso papo com Graco.

Como o Brasil pode contribuir com a onda afrofuturista?
Graco – Somos um país que por muito tempo negou e tentou apagar o negro como protagonista e em sua existência, lhe negando a sua própria versão de passado, presente e futuro. Hoje as resistências trazem a voz da pessoa negra e lhes permite, não sem conflito, contar a sua própria história e criar o seu próprio futuro. Esse termo, cunhado na década de 60 tem reverberado com força no agora.

Artistas como Xenia França, Larissa luz, Fábio Kabral, Batekoo, Afrocidade dentre tantos outros tem escrito o presente e formulado um futuro de protagonismo da pele negra. O Brasil é culturalmente riquíssimo e possui um lastro africano muito forte e de diferentes povos, Bantus, sudaneses e etc. O país tem contribuído de forma consciente pro fortalecimento desse movimento em todos campos da cultura.

Crê que exista algo na sua música que seja específico de seu lugar de origem?
Graco – Sem dúvida, o álbum que acabamos de lançar fala sobre uma Salvador caótica, urbana e litorânea a partir do olhar de alguém que sempre transitou no universo alternativo da cidade sem contudo deixar de sofrer as influencias das rádios, do carnaval, das festas de largo. Somos baianos e além do inevitável, como o sotaque, nos sentimos orgulhosos de, da nossa forma, falar do nosso lugar, de onde viemos e vivemos.

O que está rolando de mais interessante na música hoje na sua opinião?
Graco – Tem muita coisa boa rolando no Brasil, mas vou ser ainda mais bairrista e falar de artistas baianos que me emocionam e despertam interesse como Luedji Luna, Josyara, Rumpilezz, Thiago Trad (Moscote), Baiana System, Larissa Luz, Funfun Dúdú, Duo Bavi, O Quadro, entre muitos outros.

Vocë vê que o recorte foi preciso, o mundo é grande, mas nesse momento tô adorando ver e participar dessa relação de antropofagia e perceber a liberdade com que a nova geração de artistas baianos tem interagido com suas cidades, seu local.

Que característica crê que seja mais marcante da sua geração?
Graco – Minha geração, aqui em Salvador, foi marcada fortemente pela convivência com a indústria do axé music, pro bem e pro mal. Na época que comecei a tocar “profissionalmente” no Inkoma, banda de hardcore com Pitty nos vocais, e na Scambo, no final da década de 90, foi necessário rolar um momento de trincheira, sabe?

Calma, vocês tomaram tudo, controlam quase tudo, mas aqui vocês não chegam. E por conta disso voltamos nosso olhar muito pra fora, principalmente pros artistas norte americanos e europeus.

O que me deixa muito feliz é perceber que, de uns anos pra cá, os artistas baianos vem voltando seu olhar pra suas raízes, tendo como referencias as pesquisas e o legado de mestres como Ramiro Musotto, Neguinho do Samba, Mario Pam, Mateus Aleluia… Trabalhos lindos surgiram a partir daí como o disco Aleluia da Banda Cascadura, a canção Nostalgia da Vivendo do Ócio e recentemente o reconhecimento do trabalho de um grupo heterogêneo de artistas que tem se chamado de “a nova música baiana”.

Quais são suas referências estéticas?
Graco – Na construção desse trabalho tem um apanhado de minhas experiências nos projetos que participei anteriormente tocando, rock, reggae, marchinhas, frevos, e mais diretamente artistas como Caymmi, Ramiro Musotto, Olodum, Timbalada e Bjork, estão bem presentes.

Também me inspiram artistas visuais como Renatinho da Silveira, que me apresentou todo o universo estético dos povos do vale do rio Omo, Es Devlin, Bel Borba, Frank Gehry, Michel Gondry, Carybé, Alberto Pita do Cortejo Afro, além das festas de largo na Bahia e por aí vai. As referências estéticas vem de todos os campos da cultura e do cotidiano.

Quais são seus valores essenciais?
Graco  – Buscar a liberdade na criação e fruição artística e ao mesmo tempo estar atualizado, atento ao outro, pra que o trabalho e discurso estejam alinhados ao seu tempo.

A música pode ser um antítodo contra a intolerância?
Graco  – Sem dúvida! Seja um antídoto com efeito imediato ou homeopático, a cultura e educação são o caminho para afugentar a ignorância e intolerância. A frase que encerra o álbum que estamos lançando é “a festa é um ato de resistência”. Acredito nisso.

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Créditos: Caroline Lima

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'Festa é ato de resistência', diz Bayo, nova sensação baiana