(Foto: Pedro Pinho/divulgação) Gustavo Bertoni

Saem as guitarras distorcidas de sua conhecida banda, a Scalene, e entra o violão dedilhado de clima tranquilo. O mesmo acontece com o idioma: o português é trocado pelo inglês. Assim é Where Light Pours In, segundo álbum solo de Gustavo Bertoni, lançado pelo slap, selo da Som Livre. De sonoridade folk e praticamente acústica, o músico imerge no íntimo e pessoal, o levando a auto-análise e auto-crítica.

“Foi uma vontade de compartilhar esse outro lado”, diz Gustavo sobre expor sua personalidade artística mais ‘sussa’. “Meu processo de composição é muito pessoal, a partir do que estou com vontade de fazer por mim, aquilo que quero descobrir, os desafios que quero me impor e a evolução que sinto que preciso buscar”, explica em entrevista ao Virgula.“É a partir disso que surge a vontade de compartilhar isso em algum momento, tanto pela troca de experiências com quem ouve, quanto pelo ofício porque é legal para que eu possa nortear a minha carreira com as minhas vontades pessoais e íntimas”.

Com dez canções em inglês, o próprio revela que o idioma não foi uma escolha para o álbum, e sim uma naturalidade que o acompanha desde criança. “A minha primeira composição foi aos 9 anos de idade, quando o meu avô faleceu e eu tentei lidar com aquilo através da música. Essa primeira criação já saiu em inglês”. diz ele, e continua: “Me sinto confortável nas duas línguas para falar o que quero compartilhar e assim as ideias surgem”. 

Embora o álbum se diferencie do tipo de som que o Scalene faz, os fãs do grupo brasiliense estão respondendo positivamente ao trabalho. “Espero que o público da banda me escute de outra forma. E espero poder alcançar um outro público, e que eles escutem Scalene de outra forma”, fala Gustavo. Quero aproveitar esse momento e fazer novos tipos de shows, ter experiências intimistas e desbravar novos lugares no mercado”. 

Sobre a experiência de parir um álbum sozinho, Gustavo ressalta: “Projeto solo não é só o processo de compor, mas também de você ter que cuidar de outras áreas da carreira, tomar decisões sozinho e tudo constrói. Isso me constrói como artista, afinal, aprendi muito e evolui como pessoa”.

Confira a conversa completa abaixo:

(Foto: Pedro Pinho/divulgação) Gustavo Bertoni

Virgula: Where Light Pours In é um álbum que você vinha preparando há tempos ou foi criado recentemente?

Gustavo Bertoni: Criar as músicas para mim é um exercício de terapia. A maioria das idéias vão sendo descartadas, mas guardo para algum momento em que eu precise acessar esse material de novo. Já algumas músicas me dão a sensação de que elas pertencem a um disco e ai vou montando.

Por que você optou em fazer um trabalho em inglês e não em português? Em qual língua se sente mais confortável para compor?

Acho que nunca chegou a ser uma opção, é uma coisa natural para mim. Eu nunca racionalizei isso e “escolhi” compor em inglês. A minha primeira composição foi com 9 anos quando o meu avô faleceu e eu tentei lidar com aquilo através da música e essa primeira criação já saiu em inglês. Eu me sinto confortável nas duas línguas para falar o que quero compartilhar e assim as ideias surgem.

As músicas de Where Light Pours In são mais calmas e acústicas do que as do Scalene. Você sentia necessidade de expor esse seu lado mais tranquilo?

Não vi como uma necessidade de mostrar, mas como uma vontade de compartilhar esse outro lado. Meu processo de composição é muito pessoal, a partir do que eu estou com vontade de fazer por mim, aquilo que quero descobrir, os desafios que quero me impor e a evolução que eu sinto que preciso buscar, esses são os motivos que norteiam as minha criações. E, é a partir disso que surge a vontade de compartilhar isso em algum momento, tanto pela troca de experiências com quem ouve, quanto pelo ofício porque é legal para que eu possa nortear a minha carreira com as minhas vontades bem pessoais e íntimas.

Capa de Where Light Pours In

Por ser um álbum diferente dos do Scalene, e também em inglês, você espera alcançar um outro público?

Espero alcançar outro público, sim, e que eles escutem Scalene de outra forma. Espero que o público da banda me escute de outra forma. Quero aproveitar esse momento e fazer novos tipos de shows, ter experiências intimistas e desbravar novos lugares no mercado. O projeto solo não é só o processo de compor, mas também de você ter que cuidar de outras áreas da carreira, tomar decisões sozinho e tudo constrói. Isso me constrói como artista, afinal, aprendi muito e evolui como pessoa.

Em cenas do clipe Be Here Now você aparece andando na praia e cantando para a câmera, assim como Chris Martin, do Coldplay no vídeo de Yellow. Alguém já comentou isso com você? 

Eu fui lembrar disso depois que algumas pessoas comentaram, não de forma negativa, mas que elas se lembraram do clipe do Chris ao assistir ‘Be Here Now’. Talvez tenha sido uma referência inconsciente do diretor, mas eu não me toquei disso até a gente lançar. Tenho certeza que se procurar existem muitos outros clipes de pessoas andando na praia. Eu acho legal quando essas coisas acontecem, porque eu sempre parto do princípio que não tem nada 100% novo a ser feito. A gente está sempre retroalimentando ideias e ressignificando símbolos. Sempre tento trabalhar a noção de que o que eu faço não é meu e só estou revelando sensações, e verdades parciais. Nós, como artistas, tentamos nos organizar com a nossa arte seja ela sonora ou visual através daquilo que já sentimos e já ouvimos.

Para finalizar, qual é a melhor coisa de poder lançar um álbum solo?

Tem sido o desafio de encarar as coisas de forma mais autônoma. Eu sempre fui o caçula na banda e na maioria dos ambientes que convivi. Desde quando eu era novo tive o costume de andar com pessoas mais velhas e estava em constante comparação com essas pessoas mais experientes o tempo todo. Isso foi muito bom para o meu desenvolvimento, mas ao mesmo tempo me colocou nesse lugar onde sempre tinha gente me assessorando. Foi um privilégio enorme, mas não 100% positivo para mim. Comecei a perceber isso e senti a necessidade de ser mais independente. Para mim, essa experiência tem sido a coisa mais importante desse projeto.

Além de que, o Scalene já existe há 10 anos e é uma banda onde todo mundo têm ideias muito particulares. Acho muito bom para uma convivência que as pessoas possam ter seus espaços e dar vazão para essas ideias. Assim, criar um espaço para colaboração de uma forma mais democrática e menos individual e isso é bem positivo. O Tomás tem seus projetos de empreendimento, o Lukão dirige seus clipes e eu tenho meu projeto solo. Acho que todo mundo consegue se expressar de outras formas e não colocar todas as suas ideias em um projeto só.

 

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