Filho de Anna Illich, iugoslava católica, e Paul Mautner, judeu austríaco, que buscaram refúgio do holocausto no Brasil, Jorge Mautner, 73 anos, foi criado por uma babá que era ialorixá, uma sacerdotiza nas religiões de matrizes africanas.  

A “amálgama”, como gosta de chamar os encontros que caracterizam o Brasil e o mundo contemporâneo, resultaram no músico, escritor, filósofo e inventor, homenagedo de forma definitiva por André Abujamra, em Alma não Tem Cor.

Mautner volta a São Paulo, cidade em que passou parte da infância e da adolescência, para três shows ao lado do parceiro e amigo Caetano Veloso. No Sesc Pinheiros, ele apresenta nesta sexta (27), sábado e domingo, o show de lançamento da caixa Três Tons de Jorge Mautner, que resgata os três primeiros discos do músico: Para iluminar a cidade (1972), Jorge Mautner (1974) e Mil e uma Noites de Bagdá.

Em entrevista ao Virgula Música, por telefone, o músico, escritor falou sobre arte, Brasil, Copa e mitologia do kaos, com k. 

O senhor começou a escrever seu livro Deus da Chuva e da Morte aos 15 anos…

Isso, foi de 1956 a 1958, quando terminei de escrever o livro.

O que eu queria te perguntar é como os jovens poderiam ser estimulados à criação artística e de que maneira eles poderiam transformar o mundo?

Ah, eu acho que em primeiro lugar, o mundo está sempre se transformando, mas para transformar numa direção melhor, sempre, tem a cultura, a informação. Hoje, então, com a internet, você tem isso todas as épocas juntos, no instante que você quiser.

O mais importante, qualquer linha que a pessoa adote, seja cultural ou da história, quem sempre tenha a preocupação com os direitos humanos, que esse eu acho que esse é o principal. E a expressão cultural também.

No caso do Brasil, é um esplendor, porque o século 21 vai nascer no Brasil. O mundo não bebe água, não respira e não come sem o Brasil. E mais importante ainda é o povo brasileiro, sua cultura, que é além da multidiversidade e além do multiculturalismo, ela é amálgama. Uma qualidade só nossa, por nossa história completamente original.

O que é essa amálgama?

Quem descreveu o Brasil, a cultura brasileira e o povo brasileiro como amálgama foi José Bonifácio de Andrada e Silva em 1823, dizendo, de diferentes povos e culturas, nós somos amálgama, essa amálgama tão difícil de ser feita. É inédito, é a paz pra humanidade, é a tolerância máxima, do homem cordial, o povo mais incrível da história, ele fez tudo. E o esplendor dessa cultura agora é motivação pra todos, nunca houve época mais incrível na humanidade. Hoje com tão poucas guerras, na verdade, se você comparar com o passado, você está no esplendor.

O que define a nossa época?

Uma coisa impressionante hoje é a simultaneidade, tudo acontece ao mesmo tempo. Essa transmissão, ao mesmo tempo, informa tudo e une as pessoas, ela é principalmente a emoção. A ciência atual nos comprova que a inteligência, os neurônios, são pura emoção, inclusive qualquer álgebra, trigonometria ou abstração, é emoção. É como se fosse um super-romantismo de direitos humanos, que por sua vez  vem de Jesus de Nazaré, que ele que criou, em primeiro lugar o romantismo, em segundo os direitos humanos, depois a desobediência civil pacífica e pacificante e criou e inventou, através do livre arbítrio, a opção liberal a cada instante, a liberdade e as várias opções simultâneas, e também o socianalismo, claro, no sermão da montanha. Tudo decorre daí, a modificação da humanidade.

Onde mais essa influência aparece? 

Mesmo a democracia, por exemplo, é quase uma religião ateia, que vem desse Jesus de Nazaré com tudo mais, o socialismo, os direitos humanos. Gozado que o (Eugène) Ionesco (1909-1994) falava assim, as ideologias nos separam, mas nossas dores, sonhos e esperanças nos unem. Isso triunfa hoje em dia e isso é cultura, isso é o tempo todo, vai da ciência ao atletismo, o trabalho que você faz no portal, é tudo, o tempo todo e isso numa velocidade nunca vista e tudo em simultaneidade. Então é um mundo totalmente novo.

O Brasil, então, que é um, país continente e dos cinco países continentes ele é o quinto, mas, na verdade, ele é o primeiro, porque nos outros, na Rússia, a Sibéria é gelada, o Canadá, metade é gelada. Aqui tudo é certo, tem 200 milhões de pessoas e ainda tem essa amálgama, que é maior riqueza, mais que os minerais, e lavoura, gado, ecologia, tudo que o Brasil tem, é um continente fértil de ponta a ponta.

Nesse sentido, nunca ouve tanta inspiração para se escrever para se fazer poesia, para se estudar. O oceano, por exemplo, a gente conhece 2%. O resto é completamente desconhecido, são campos que se abrem para essa geração, com essa simultaneidade trazida pela internet que transmite, vou repetir, os direitos humanos, fundamentalmente e as culturas se misturam em um caos criativo, o tempo todo.

A música hoje em dia concorre com muita informação que está circulando. O que uma música precisa ter para ser ouvida hoje em dia?

Olha, muito difícil dizer isso. Eu acho que o que tem sempre é um impacto, uma expressão de carisma, e um significado para aquele instante, que pode ser um instante que permaneça. Não sei, você tem todas as escolhas hoje, você tem o rap, o funk, a música dissonante, que já é popular hoje. Todos os estilos e tendências e é difícil dar uma fórmula.

Mas eu acho que o que ganha nisso é uma autenticidade, seja em qualquer forma, qualquer conteúdo que se faça música, que se faça canção. E autenticidade é o que a pessoa quiser, o que a pessoa imaginar e acreditar naquilo. Mais uma vez, a música é o máximo da emoção, os músicos são matemáticos natos. Então a gente harmoniza. Tem harmonia, melodia, contraponto, fuga, dissonâncias, tudo em um milionésimo de segundo.

Agora, a fórmula eu não sei, depende do acaso, depende  do empenho do artista e depende, principalmente do instante, o timing, a hora certa e outras coisas. E, como sempre, a principal sedução da música é o amor. Que transforma, mesmo em fúria. O tempo todo é isso e isso é muito profundo, vem desde o canto dos pássaros, o macho querendo cantar a fêmea e tudo. O tempo todo é isso que impera. Então muito amor na composição também.

O lançamento de Três Tons de Jorge Mautner reuniu Pra Iluminar a Cidade (72), Jorge Mautner (74) e Mil e Uma Noites de Badgá (76), este último que tinha Maracatu Atômico…

Isso, foi um trabalho do jornalista Renato Vieira com a Universal.

Você acha importante que esses trabalhos sejam redescobertos, conhecidos pela nova geração?

Olha, sempre é meu maior interesse a nova geração tem me prestigiado muito. Com a internet, a pessoa acessa qualquer época e escolhe de acordo com a emoção dela, o gosto, a identificação, isso tem sido muito importante.

Você costuma interagir muito com músicos jovens, que vão aparecendo. Na sua opinião, qual é o zeitgeist, o que amarra a atual geração?

Imagine que eu comecei a compor na década de 50, Vampiro é de 58. É totalmente uma realização do mundo da liberdade, dos direitos humanos, da autenticidade, tudo junto num kaos, com k, como em todo minha obra escrita e musical, é essa coisa de hoje, você tem todas as informações.

Na época antiga, você tinha três ou quatro caminhos, hoje em dia você está em uma abundância de milhões de escolha, você tem esse mundo maravilhoso que começou e tem tudo, desde preocupação com meio ambiente, mas também a ciência junto com isso. A ciência faz parte também do ambientalismo.

São campos todos de inspiração musical. Quem me acompanha nesses shows de sexta, sábado e domingo é a banda Tono, que também é uma garotada, o Ben Gil, filho do Gil, é um dos integrantes. Tem a Orquestra Imperial também, enfim, eu tenho uma grande identificação, meu público é 90% garotada mesmo.

E esse é o fenômeno da internet. E a época que, modéstia à parte, eu já proclamo desde meu primeiro livro Deus da Chuva e da Morte, com letras de rock, letras de música caipira, proclamando essa mitologia do Kaos, que é a sublimação do kaos pela transformação do mundo, para melhor sempre.

Que momento você considera ser a epifania de sua carreira?

Tem grandes momentos de epifania. É muito tempo. Uma só?

Uma época, não sei…

São todas as épocas. Eu diria que é agora. O importante é aqui e agora. Então é essa época agora. Nesse sentido, aos 73 anos, agora tudo está se entrelaçando.

É muito incrível essa tecnologia de hoje, que transformou o mundo, através da tecnologia que é uma extensão dos nosso coração, dos nossos neurônios.

Você consome música pela internet?

Olha, eu ouço muita coisa, inclusive coisas que me dão nos shows. Meu portal, inclusive, está aberto para todos os novos compositores mostrarem o seu trabalho, que é uma constante no meu trabalho, desde lá atrás.

Qual você considera ser sua missão na música?

Ah, a minha missão é primeiro nunca mais holocausto. Nazismo nunca mais. E a amálgama do povo brasileiro. Essa amálgama que diferente de outros povos e culturas é tão difícil de ser feita. E a primeira disposição que eu sempre falo são os índios tupy-guarani, fora todos os escravos que fizeram a história do Brasil. Mas eles (os índios) tinham como mito o mistério. E, então, diferente de qualquer outro povo, qualquer desconhecido, forasteiro, era pra ser estraçalhado. Para eles não, como é o mistério, diferente, é estrangeiro, é desconhecido, é o máximo para ser desvendado. Assim, em três segundos, eles ocuparam todo o litoral do continente brasileiro e têm essa absoluta admiração por tudo que é estranho. Isso é inédito, é parte essencial da amálgama.

E São Paulo, por exemplo, eu sempre cito a umbanda em São Paulo, que por causa dos japoneses que chegaram no bairro da Liberdade, não teve dúvidas, criou um orixá samurai.

Que demais. Só no Brasil mesmo.

É, só o Brasil. Isso é o tempo todo. Por isso que nossa ambição é essa. Aí vai longe, na prática a teoria é outra. A música popular brasileira é toda a melhor filosofia, poesia, literatura. É o tempo todo assim. E também por causa da nossa condição. O país é o único país pacifista total do planeta. Nós só rechaçamos a invasão do Paraguai e participamos no esmigalhamento dos nazistas na Segunda Guerra Mundial, mas o Brasil é um país inédito em toda história, que não tem guerra com ninguém.

Talvez o Canadá. Mas nós somos com essa amálgama, que além da mistura, além da miscigenação, além da multidiversidade, além do multiculturalismo, faz esse orixá samurai num instante, o abraço direto e imediato. É o tempo todo.

O senhor vai acompanhar a Copa? Gosta de futebol? (nota do repórter, a entrevista foi feita antes da Copa começar) 

Olha só, eu gosto muito de futebol. E o futebol brasileiro e mundial foi a ginga da capoeira que deu.

O Brasil vai fazer bonito na Copa? 

Eu acho que sim. Nós contribuímos muito com o futebol mundial, principalmente com a ginga da capoeira, que emprega no nosso futebol, e em tudo, na inventividade. Eu torço pelo Brasil.

Agora, eu acho que esse ano é a exuberância democrática, vai ter eleição, Copa e manifestação. E tudo isso, se é desobediência civil pacífica, pacificante, é bem vinda, isso é a exuberância dessa amálgama. Futebol, então, é isso aí.

Quero só lembrar uma coisa gozada, por exemplo, o Garrincha era uma coisa que nenhum futebol europeu não ia imaginar. Isso eu estou falando uma coisa lá de trás, então o Garrinha, e o Ary Barroso foi o primeiro a descrever jogo de futebol lentamente, quando ele narrava. E ele gostava do Garrincha então ele descreve assim: Ah, lá vai Garrincha, segurando a bola, assim, não dá… gol do Garrincha! Então você vê que isso é uma coisa inédita, do não atletismo, ele inventava as jogadas. Essa é a essência do Brasil. Eterna criatividade. E a Copa está aí. Vai ter tudo ao mesmo tempo, simultaneidade, vai ter manifestação, vai ter Copa e vai ter eleição.

E vai ter Jorge Mautner. 

SERVIÇO

Jorge Mautner, participação de Caetano Veloso
Quando: Sexta (27), às 21h, sábado, às 21h e domingo, às 18h
Quanto: R$ 50, R$ 25 (meia-entrada) e R$ 10 (comerciário)
Onde: Sesc Pinheiros, rua Paes Leme, 195, Pinheiros
Telefone: (11) 3095-9400

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