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“Cake Me” (jogue o bolo em mim), dizia o cartaz da garota, vestida como uma atriz de filme B californiana. Ela e umas dez amigas, todas cobertas de tatuagens, coloridas e fofinhas como um mangá. O cartaz faz referência à predileção dos fãs do DJ Steve Aoki em levar um bolo na cara e 15 minutos de fama. Não tratava-se de um cartaz qualquer, era rosa e tinha letras desenhadas em 3D.

Na tenda Perry do Lollapalooza, ainda eram 17h e faltavam quatro horas e meia para Aoki pisar no palco. Mas já dava para perceber que o segundo dia do festival seria mais colorido que o primeiro, com gente fantasiada, pinturas de inspiração tribal em cores fluorescentes e doidões fantasiados de capa e enrolados em panos com a cor do arco-íris, mergulhando na lama e dançando de cueca. Pareciam estrangeiros, loiros e barbudos. 

Quem estava tocando a esta altura era o Zeds Dead, duo canadense que acabava de “halershakezar” a tenda e causou considerável problemas com seus graves de dubstep sujíssimos sob uma faixa do território onde estavam os hipnotizados fãs do Franz Ferdinand.

De tempos em tempos, grupos saíam correndo para cantar algum hit do Franz, e às vezes voltam ao parceber que era uma música nova, apesar de igualzinha às antigas. Impassíveis, outros finalmente ouviam um som maloqueiro no Lolla, que é conhecido nos Estados Unidos por sua tradição em promover o hip hop. O dubstep elevou a temperatura demais e deu uma flambada em Nas, que representou sozinho. Mas mesmo o hino World is Yours foi escutado com reverência de poucos.

Ainda assim, alguns ali batiam cabeça para o rapper de Nova York, como Marcelo D2, que já declarou ser fã e tentava acompanhar o show. Era alvo da própria fama, abordado a cada 15 segundos por um grupo de teens, todos querendo uma foto com do ícone do Planet Hemp, uma das principais atrações deste domingo (31). Com um sorriso de estátua de cera e dedos de tesourinha, como convém a um bom rapper, ele atendia a todos pacientemente e perdia o show. Ok, é o D2, mas mantenha o respeito.

Ainda no palco Perry, às 20h, o francês Madeon, de apenas 17 anos, jogou o clima para cima e a galera acompanhou com as mãozinhas, com uma eletrônica pop, costurou de Daft Punk a Breakbot, deixando os caras de cueca e as minas de sutiã insanos. Mesmo exagerando nos gestos e errando a mão em alguns momentos bregas além da conta, o menino mostrou que é prodígio. 

Já Aoki fez um sonzinho chinfrim, comercial no pior sentido, e aproveitou que a pista já estava mais do que quente para levar todo o seu mise-en scène de bolo, champanhe e passeio de bote pelo público.

Uma coisa é certa, se o som é divertido e colorido, as pessoas também vão ser. Bem diferentes das hordas de camisa xadrez que acompanhavam Queens of The Stone Age e Black Keys e dos hipsters apinhados na frente do palco do Alabama Shakes. Cada um na sua, o que impera é o apartheid musical. Ah, parece que a garota do cartaz levou a bolada. Mas nesta hora, já estávamos no Black Keys. A gente não liga para estas divisões e quer mais é se jogar no Lamapalooza.

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