Mahal Pita

Produtor musical e artista sonoro, Mahal Pita é colaborador da Baiana System, está estreando um projeto novo em São Paul, se prepara para uma residência artística na Alemanha e promete primeiro disco solo para 2019.

Nascido em Salvador, Mahal é da quarta geração de uma família de músicos. Vem desenvolvendo produções com diversos artistas do país e realizando experimentações entre imagem e som, com projetos que transitam pelo multiverso do popular urbano, na fronteira entre o sagrado e o profano.

Interessado em construir a partir de uma estética popular, uma prática experimental; seus trabalhos têm ampliado as discussões sobre novas possibilidades de cruzamento entre entretenimento, arte e política a partir da ressignificação de elementos pertencentes a cultura afro-brasileira.

Dentre os principais projetos, escreveu, dirigiu e filmou o documentário Do Nosso Jeito, primeiro longa-metragem sobre o universo do Pagode Baiano em Salvador, um dos maiores gêneros musicais periféricos do país.

Desenvolveu o coletivo multidisciplinar Braunation, que experimenta a conexão entre Afrofuturismo e o olhar do local x global na música periférica. Cofundou o duo A.MA.SSA, que tem como principais influências o universo do Pagode Baiano e a música digital produzida na diáspora negra a partir da disseminação da tecnologia nos guetos do mundo.

Concebeu e co-criou a trilha sonora do espetáculo coreográfico Looping Bahia Overdub, estudo estético-político sobre o tempo que tem como paisagem as festas de largo da Bahia, indicado ao Prêmio Bravo!.

Foi mentor da segunda edição do programa de imersão em processos criativos – AfroTrancedence e em colaboração com o Harmonipan Studio, desenvolveu a performance audiovisual para o lançamento no Brasil da reedição da obra sonora ‘’Africadeus’’, primeiro disco do mestre da percussão Naná Vasconcelos.

Desde 2015 colabora com a BaianaSystem, projeto musical e multidisciplinar que estabelece laços entre a guitarra baiana e o Soundsystem Jamaicano, concebendo produções autorais, remixes e releituras com artistas como Titica, Bnegão, Ney Matogrosso, Margareth Menezes, Rico Dalasam, Flora Matos, entre outros.

Por agora é possível conhecer o seu mais novo projeto, E Se Rupestre Vingaroda? (@vingaroda) Experimentação sonora e improviso multilinguagem, desenvolvido junto aos músicos Leo Mendes e Lenis Rino, que estreou no Festival Valongo em Santos e no FIAC (Festival internacional de Artes Cênicas da Bahia) em Salvador.

Leia nossa entrevista com Mahal em que ele fala sobre afrofuturismo, tendências, composição e influências:

De que maneira o Brasil pode contribuir para o afrofuturismo?
Mahal Pita – Penso que alguns microuniversos do Brasil de maneira específica, sobretudo as periferias, já vem se constituindo no futuro desde muito tempo, pois herda e desenvolve uma tecnologia para permanência e produção artístico-cultural que é e será extremamente útil num futuro próximo; que é a tecnologia da escassez. A falta como matéria-prima para transmutação de pensamento e formas de fazer e existir. Então, para além da produção de conhecimento voltado ao ambiente criativo, se desenvolve também nesses contextos do país, novas alternativas libertárias para demandas e prioridades globais. Isso para mim é Afrofuturismo.

O que está rolando de mais interessante na música hoje, na sua opinião?
Mahal – O que tem acontecido de mais interessante na música hoje para mim é justamente a avanço do desgaste da música com uma forma única e restrita de existência. A intensificação das fricções e atravessamentos com outras linguagens e suportes como a performance, o happening, o spokenword, e outras linguagens não necessariamente artísticas como novas interfaces tecnologias e novas formas de consumo, vem popularizando a compreensão da próprio fazer musical como mais uma forma de existência que se conecta entre as demais, tornando cada vez mais obsoleto conceitos hierarquizados como a ideia do estrelato, do palco, do autógrafo, do fã, no formato que conhecemos hoje.

Como é seu processo de composição, o que te leva a compor uma música nova?
Mahal – Quase sempre começam pela cena, pela história, pela imagem, a partir dai as tento traduzir em som. Mas a maior motivação é sempre a interação com algo desconhecido. Cada criação é uma oportunidade de aprender sobre o que ainda não se compreende e de fazer o que não sabe.

Que ingredientes uma grande música deve ter, na sua opinião?
Mahal – Toda música que surge já cumpriu o seu papel e tem um grande valor. Se há alguma receita, é deixa-la vir do jeito que é. Intuição, honestidade, despretensão e respeito.

Que dica daria a um(a) iniciante?
Mahal – Navegue, depois melhore. Comece como puder e tudo fluirá se for isso que tiver que ser.

Se tivesse o poder de trazer artistas que já se foram à vida, com quem gostaria de compor uma música?
Mahal – Meu pai; mas de alguma maneira especial estamos compondo juntos.

Quais são suas maiores influências?
Mahal – Minha maior influência é o que não se vê. O mistério e tudo onde se manifesta. As manifestações naturais, as composições espontâneas, as expressões populares, nos silêncios onde se cria e ninguém vê. Essas são as minhas maiores influências.

Quais são suas principais referências estéticas?
Mahal – Minhas maiores referências são uma trama de memórias construídas durante minhas vivências nos diversos contextos da Bahia, na minha infância e adolescência, que se conectam com o que interajo de outras diásporas hoje, anexando um valor ético ao estético.

Quais são seus valores essenciais?
Mahal – Kalma e Kaos.

Quais são suas próximas jogadas?
Mahal – Apesar de uma identificação com o Afrofuturismo, me sinto bastante integrado a uma perspectiva forjada na Chula, elo cultural do Recôncavo baiano, de que o passado é a referência essencial às nossas vidas, o aqui e o agora. E assim o futuro apenas uma simples consequência que não vale a pena investir tempo planejando. A partir disso, meus próximos passos serão cruzar essas e outras tecnologias ao meu trabalho de som e imagem, numa residência artística sediada em Munique na Alemanha, durante os meses de janeiro, fevereiro e março, no qual fui convidado junto a outrxs artistas a desenvolver experimentos multilinguagem diversos. Acredito que a partir desses, os próximos passos surgirão.

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