Lucas e Fefé

Se você ainda confunde Luan Santana com Lucas Santtanna, volte 30 casas no jogo da nova música brasileira. Lucas é um músico com projeção internacional e cujo disco O Deus que Devasta mas Também Cura (2012) esteve em todas as listas de melhores do ano.

Dois anos depois, ele prepara o sucessor do trabalho e o Virgula Música acompanhou a gravação da participação especial do rapper francês de origem nigeriana Féfé. Diary of a Bike tem uma influência tuareg. Lucas contou ter se inspirado na música dos desertos do Mali, ao se deparar com esse som no Womad, o mais importante do planeta da chamada world music (na verdade, a música do mundo é muito mais abrangente que o termo).

 

O rapper francês de origem nigeriana Féfé. Diary of a Bike

O rapper francês de origem nigeriana Féfé. Diary of a Bike

No novo disco, também participam Fanny Ardant, musa do cinema francês e ex-mulher de François Truffaut (1932-1984), na faixa Human Time, em um dueto com Lucas. Ela canta em francês e ele em inglês. Nada mal para um cinéfilo.

Já a música Funk dos Bromanticos tem a participação de Camila Pitanga fazendo um beatbox. O beat da música é do produtor fluminense Omulu, guarde esse nome. O disco está em processo de crowdfunding, financiamento coletivo, pelo site Embolacha, colabore (aqui).

Ouça Funk dos Bromanticos, com beatbox de Camila Pitanga


Na conversa, no estúdio 12 Dólares, no Bom Retiro, em São Paulo, Lucas diz que os franceses o entenderam bem mais rápido que os brasileiros, conta seu processo de criação, analisa as diferenças entre a sua geração e a do seu pai, que produziu discos de Caetano Veloso, e fala do começo da carreira, com Gilberto Gil, tocando flauta no disco Gilberto Gil Unplugged.

No seminário da SIM (Semana Internacional de Música), no ano passado, o Andre Bourgeois, da Urban Jungle,  que é seu empresário, disse que seu álbum Sem Nostalgia (2007), deu um grande impulso internacional para sua carreira, por ser baseado em voz e violão. Seu disco seguinte, O Deus que Devasta mas Também Cura (2012), tinha algumas coisas até sinfônicas. Quando você faz um trabalho novo, começa do zero ou continua de onde parou?

Sempre do zero. Mas o lance é assim, nesses trabalhos autorais, todos eles, a medida que você vai fazendo mais discos, sempre no disco você introduz algo no seu repertório que é novo, que você buscou uma coisa nova, mas você também trabalha com as coisas que você veio descobrindo ao longo do tempo.

Então acho que cada vez vai ser mais normal, num disco meu, alguma coisa remeter ao 3 Sessions in a Greenhouse (2006) ou ao Sem Nostalgia ou a outro. Porque é um repertório que você vai mudando ao longo do tempo e, volta e meia, você bebe do seu próprio repertório, de coisas que você chegou ali. Acho que isso é normal.

Como é que você faz suas músicas?

Na hora de fazer música, é música mesmo. É muito ouvido, fazer as coisas e ficar escutando. Parar de escutar um tempo e volta a escutar. Naturalmente, aquilo que está precisando, você entende, é quase como se estivesse pedindo, pô, eu tô precisando disso ou daquilo. E também letra, depois de um tempo você olhar e dizer, não, isso aqui funcionou, tá legal, tá OK pra mim.

É sempre ouvido acima de tudo.

Você compõe organicamente ou se impõe metas, tipo, agora eu tenho que fazer um disco?

Cara, as músicas eu vou fazendo, quando vão pintando, raramente eu falo, agora eu vou fazer uma música, só quando é encomenda.

Às vezes, vem toda de uma vez, mas, às vezes, vem só a melodia e você passa a trabalhar, beleza, agora eu vou fazer uma letra. Mas, as ideias iniciais de melodia, de letra, de harmonia eu sempre espero vir alguma coisa. Não sentar e falar, agora eu vou fazer.

A França foi importante para você? Você está com um artista e um produtor francês aqui…

Pra qualquer um da música brasileira porque os franceses são os que mais abraçam a música brasileira. São quem, realmente, tem um amor incrível pela música brasileira.

Toca muito na rádio e eles acompanham todo mundo, Caetano, Gil, Vinicius, tudo, coisas antigas e novas. Eu não sei, eles tem essa língua que é bastante melódica também, eu acho que isso tem a ver. Eles adoram ouvir a nossa língua, os sons, eles amam isso.

O lance do Sem Nostalgia ter explodido foi por já ter um caminho para que eles identificassem como música brasileira?

É. Qualquer coisa fora do Brasil, não só na Europa como nos Estados Unidos, que seja voz e violão é bossa nova. Você pode fazer um disco de punk rock, se cantar em português, eles vão achar que é bossa nova.

Aí, ao mesmo tempo, tinha a coisa de você pegar um formato clássico, bossa nova, João Gilberto, e você reconstrui-lo. Então para eles era incrível. Que era uma coisa que já conheciam, mas que propõe justamente quebrar aquilo.

Para eles foi uma coisa que fez muito sentido. Talvez se eu tivesse começado lá com o outro disco (O Deus que Devasta), talvez não tivesse para eles toda essa tensão, que para eles era muito fácil de entender.

Isso mudou sua relação com o mercado aqui no Brasil? Você achou novos públicos?

Sim, né, aqui tem muito essa coisa, que é um reflexo um pouco dessa coisa de colonizado. Se lá fora falam que você é legal, aí uma galera começa a dar atenção, com certeza.

Você é um cara que está sempre fazendo pontes, sente responsabilidade em indicar novos nomes para o mercado externo?

Não, cara, essas coisas, por exemplo, o Féfé vai para Salvador. Indiquei as coisas que eu admiro, entendeu, é o que eu falaria para qualquer amigo na esquina. Sinceramente, não sinto essa coisa, não.

E de representar a nova música brasileira?

O que eu acho legal que eu ouvi muito em entrevista era assim, que eles ficaram um tempo sem acompanhar a música brasileira. É como se depois dos anos 70, 80 e 90, rolasse um hiato. Que eles me perguntavam, pô, a gente que deixou de acompanhar a música brasileira ou a música brasileira ficou um tempo sem ser interessante?

Boa pergunta…

Eu falava, não, aconteceram muitas coisas interessantes. Mas é que a coisa dos anos 70 é muito forte. Então vocês talvez tenham parado de olhar para lá. Também muita coisa que foi produzida lá nessa época, pode ser uma coisa que talvez não provoque muito interesse, que é um pouco uma cópia de coisas daqui de fora.

Ao passo que nos anos 2000, não, brotou uma geração que é muito autoral e que criou uma música urbana, extremamente internacional, sem querer copiar nada, mas fazendo a sua própria gestão das coisas.

E o Sem Nostalgia e os meus discos trouxeram atenção, hoje em dia se fala de Metá Metá na Europa, de Gui Amabis. Isso realmente foi legal porque trouxe um olhar pra cá. E também a questão do selo do Lewis (Robinson, Mais Um Discos), que é especializado em música brasileira contemporânea, que começou com o Sem Nostalgia e depois lançou o Deus…

É esse cara que tá aqui com você?

Não, esse cara é Laurent Bizot, que é o dono da No Format, que é francesa, com o Lewis a gente vai continuar na Inglaterra só.

Nesse seminário SIM também foi dito que os gringos tinham dificuldade de identificar música brasileira quando não era bossa ou samba…

Então, mas é isso que vem mudando nos últimos anos. As rádios públicas de vários países tocam uma programação muito fina. A classe média e a classe baixa lá têm o ouvido muito apurado.

Neguinho fica ouvindo só coisa boa o dia inteiro na rádio. E isso faz com que coisas novas que cheguem, não só do Brasil, mas de qualquer outro lugar, que são mais modernas, eles entendem os crossovers.

Pô, tudo que aconteceu comigo lá em dois anos demorou dez anos para rolar comigo aqui. Para ter um entendimento de qual é o som, o que era aquilo.

Sabe, no começo neguinho achava que era axé. Demorou um tempão para sacarem qual era o meu som aqui e lá, muito rápido sacaram tudo. Por isso, porque a educação, o ouvido da classe média está muito mais treinado para as misturas.

Em show também, começa o show na quarta música neguinho já entendeu, técnico de som. Você vai passar o som e não precisa explicar muito, já sacou na hora. Isso é por conta desse ouvido mesmo.

Você é filho de um produtor (o tropicalista Roberto Sant’Ana), de discos de monstros como Caetano Veloso, e acompanhou toda aquela cena dos anos 70. Qual é a principal diferença daquela geração para a de hoje?

Olha, eu acho que as duas gerações estavam buscando uma coisa autoral. Tem uma diferença comportamental do baby boom.

Eles tinham uma sociedade careta e tinham uma plataforma de ação em questões que eram urgentes. Paradigmas eram urgentes de serem quebrados e estavam ali muito claramente onde é que estava a porta para bater e entrar.

Ao passo que a nossa geração cresceu em um mundo já totalmente fragmentado, digamos que a gente já nasceu no bagaço da laranja. Então, por um lado, pra gente é muito mais difícil, conseguir empreender uma coisa autoral e já que também esses inimigos e esses paradigmas todos já se dissolveram no ar.

É muito difícil tudo. A atenção para as coisas, hoje em dia são muitos mais difíceis que naquela época. Naquela época tinham poucos artistas, então quando ia sair um disco de fulano, era uma coisa aguardada e você só teria acesso à música comprando um vinil. Imagina, pra gente são 300 mil bandas por segundo acontecendo o tempo inteiro na internet, tendo que disputar atenção com todo mundo e as pessoas com milhões de informações sendo arremessadas na cara delas.

Sei lá, essa minha geração realmente tem feito coisas incríveis. Outro dia o Kassin falou, cara, tem muita gente fazendo disco bom, canção boa, há muito tempo. Eu sinto maior orgulho.

O que você acha que faz uma música ser relevante hoje, no meio de tanta informação?

Como disse o Féfé, de você sentir ali um frescor, que é daquela pessoa: “isso é muito fulano”. Ter ali a assinatura mesmo, a persona, a energia da pessoa. Claro que ninguém faz só canções boas, fora esses caras das antigas que realmente eram excepcionais. Mas, tem a ver com essa naturalidade, com essa busca por um som.

Você optou pelo esquema de crowdfunding pra fazer seu disco novo, está sendo tenso?

Rapaz, muito. É a primeira e última experiência, eu espero. Porque é muito doido, ninguém entende no Brasil que você está dando uma contrapartida, então realmente você é o cara que fica pedindo dinheiro para todo mundo, sacou? É horrível.

Mas, sei lá, é um desafio também. A partir do momento que você entra, se tá na chuva… aí você vai com tudo também. Pra mim, como tudo na vida, já que eu tô tendo aquela experiência, de ir fundo mesmo. Tipo, agora rolou o itsART, que é uma nova plataforma e garantiu uma parte do crowdfunding, acabou pintando um crowdfunding dentro do crowdfunding.

Tem essa coisa psicológica também e até essa relação que ficou louca. Eu dei meus discos a vida inteira de graça. Aí uma hora você fala assim, agora eu vou pedir uma graninha e pensa que todo mundo vai dar.

Mas você vê que é difícil, as pessoas querem tudo na internet de graça o tempo inteiro e várias coisas que estão ali gasta-se uma grana para ser feito, para ser bem feito então, você tem que gravar num estúdio legal, com um técnico legal, mixar com um cara legal, chamar uma galera legal.

Isso tudo demanda grana, é um investimento que você faz para apresentar um negócio bacana para as pessoas. Cada vez mais não se tem esse entendimento. Pô, me dá de graça aí, não vou nem ouvir.

Detalhe de equipamento no estúdio 12 Dólares, em São Paulo

Seu novo disco não tem nome ainda, mas já tem um conceito?

Quando eu fui pensar em nome, ver as letras, eu vi que falava muito de coisas que acontecem durante a noite, músicas com uma pegada bem de balada, meio inferninho, eu até já postei uma que chama Funk dos Bromânticos. E coisas que acontecem durante o dia, como nessa música (Diary of a Bike), que está falando sobre andar de bicicleta, é um dia ensolarado. vai ser meio por aí, meio essa narrativa.

Diary of a Bike tem uma influência tuareg?

Tem. Eu toquei no festival Womad, no ano passado, e antes do meu show andando de bobeira, conheci uma banda que se chama Tamikrest e tem um guitarrista que se chama Bambino e eu pirei com esse som do Tuareg. E aí chamei Bruno (Buarque) e Caetano (Malta), que estavam comigo lá e eu falei, caras, quando a gente voltar pro Brasil vou fazer uma música pra gente fazer essa parada, fazer essa ponte com esses caras, que tem tudo a ver com o que a gente gosta de ouvir.

Aí, eu fiz a música, a gente gravou e aí eu tive essa ideia de chamar um rapper francês, já que agora a gente tá em um selo francês e aí o Laurent falou, chama o Féfé e me mostrou os vídeos, eu falei, já é. Esperei ele vir fazer show da Virada (Cultural, de São Paulo).

Você começou a carreira tocando flauta no Unplugged do Gil. Isso foi um parâmetro muito alto? É até covardia… 

É sorte. Começar a carreira desse jeito, ele me chamar. Poderia chamar um monte de gente boa, até que tocava flauta melhor do que eu. Mas, tava ali, o cara chamou, fiz aquilo ali dando o sangue que era uma grande oportunidade.

Dei sorte também que foi um com os arranjos meio coletivos, deu tudo certo. Em uma semana o Gil levantou o show. Foi uma puta experiência, fui para Europa, América do Norte, América do Sul, conheci várias cidades do mundo. Peguei essa cancha de estrada, de show.

E o momento que você teve a sua epifania, sua iluminação musical, foi ali ou foi depois?

Foi durante. Eu tinha muito tempo de hotel, aqueles ócios do hotel, comprei um violão, comecei a compor, fazer minhas músicas. Mas, também meio que não sabia por que.

Daí, acabava o show, eu não estava mais feliz, depois de uns três anos. Pô, se eu não tô feliz tocando com Gil, sabe, realmente para mim tinha dado essa parada.

Eu conversei com ele e falei, pô, Gil, tô a fim de fazer as minhas coisas, as minhas músicas, de comprar guitarra, pedal, MPC, de fazer música de outro jeito. Saí e já emburaquei de fazer o primeiro disco.

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