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Não é DJ, é selector ou selectah, não é dub, que é um sistema de mixagem, é reggae mesmo. O gênero é reggae e a versão é o dub. Jah bless, bem vindo ao reino dos sound systems paulistanos, onde Lioness Laylah, 29 anos, é uma rainha.

Integrante do Quilombo Hi-Fi, ela vê a chegada do Dubversão Sistema de Som, há 11 anos, como marco de uma cena que continua em expansão. “As festas têm ficado cada vez mais cheias e o que mais me chama a atenção é a fidelidade do público. O coletivo que integro tem como mote principal as festas na rua, de graça e por elas fica ainda mais fácil perceber o quanto as pessoas se deslocam, atravessam a cidade e acompanham as festas seja lá onde elas forem”, afirma.

Filha de um militantes do movimento negro, geógrafa, Laylah mostra em entrevista ao Virgula Música conhecimento de causa sobre a história do gênero, sua missão como artista e cidadã. Ela fala também de sua descoberta como cantora em um coral com crianças de diversas etnias para levar o ideal de igualdade, antirracismo, antixenofobia e da presença das mulheres no reggae, entre outros assuntos.

Que outras mulheres admira no reggae no Brasil e no mundo?

Assim como outras tantas áreas da sociedade ainda é numericamente menor a participação feminina nessa cultura, infelizmente. O reggae traz muito do cotidiano, do sentimento, da crítica e nós temos muito o que dizer também sobre essas coisas, obviamente.

E dessa forma, buscarmos ser participantes para além da plateia e do dançar na pista. Somar como construtoras. E quando nos propusermos a isso, é importante fugir do estereótipo da “cantora gostosa de letra pobre”.

Bem, após o desabafo, (risos)…. O lado positivo, o da participação consistente dessa série de “construtoras”. A primeira que destaco é Sonia Pottinger, que é a primeira mulher produtora de reggae, teve seu selo exclusivo e entre as décadas de 60, 70 a até início de 80 produziu grandes artistas.

Ainda entre as “sônias”, aqui no Brasil temos a Sônia Soares, de Belém (PA), uma das maiores colecionadoras do Brasil. Pesquisadora e colecionadora de destaque na atualidade é Cecilia Nunes, aqui de SP, com um acervo muito rico e profundo.

Destaco ainda Silmara PDC, integrante do Garage Sound System do ABC Paulista, que segura a onda forte ali na técnica, é muito admirável o que ela manja e põe a “mão na massa” na construção das caixas, na parte elétrica, e nesse tipo de bastidores é ainda mais difícil de se ver a mulherada.

Pois bem, falando das cantoras, admiro muito as vozes de Susan Cadogan e Phillis Dylon, mais das antigas, importantíssimas chegaram a emplacar grandes hits. Gosto muito do timbre de Christine Miller e da Aisha.

E aqui no Brasil, destaque ainda para Massa Rock, que tem uma trajetória anterior à minha e que me identifico por ser mais parecida. No sentido de ter esse lance de ser uma cantora que traga ideias consistentes e que também não se limita ao microfone, participando ativamente nos corres todos que envolvem a prática da cultura reggae sound system.

Como você começou a cantar?

Meu pai sempre foi ativista e trabalhou com a questão racial no movimento negro. Em meados de 1995, meu pai era presidente do Conselho Estadual da Comunidade Negra e uma de suas ações, em parceria com a Federação Israelita de São Paulo, foi criar um coral de crianças de 5 a 15 anos, das mais diversas etnias para levar o ideal de igualdade, antirracismo, antixenofobia.

Na época eu tinha 12 anos e fui participar também. Éramos cerca de 300 crianças. No início, o repertório estava sendo elaborado e o maestro do coral chegava com algumas opções de música e chamava algumas crianças para cantar lá na frente e assim ele observava o potencial.

Em um destes primeiros ensaios ele me chamou junto a algumas outras, para o azar da tímida aqui, (risos)… e tremendo como vara verde eu cantei. Foi aí que fui “descoberta” (risos). Esse coral se apresentou em lugares de destaque como o Memorial da América Latina, Praça da Paz no Ibirapuera, Teatro Municipal, entre outros. Fui solista de canções importantes e assim perdi um pouco a timidez e tive a oportunidade de aprender e me aprimorar.

Você tem planos de lançar mixtapes, álbuns, singles em breve?

Tenho sim. Mas te confesso que está de rosca (risos). Já era pra ter saído. Tenho boa parte das músicas já gravadas, algumas delas já disponíveis pra se ouvir na rede, mas o objetivo é concentrá-las em um álbum que pretendo que seja para além do reggae, com fortes influências de outras linguagens da música negra.

O que dificulta é que o sustento não consigo tirar da música ainda, e na real minha prioridade no desenvolvimento musical nem é nesse sentido financeiro. Sendo assim, tenho que tocar junto o outro lado “do vinil da minha vida” (risos), que é o trabalho vinculado à minha formação acadêmica, sou geógrafa.

Sobre o que trata suas músicas?

Minhas letras falam sobre injustiça e desigualdade social, étnica, de oportunidades, de gênero. Falam da importância de se conhecer a própria trajetória, sendo assim, falo de africanidade e trago de fato a africanidade quando puxo algum canto vinculado a ritos de religiões de matriz africana, ou com influência de jongo.Tenho uma característica mais crítica que procuro tratar com suavidade, até mesmo pelo tipo de voz que tenho, mais melódica.

Qual considera ser sua missão na música?

Considero que ela deve ir além de uma missão na música somente. Acho que a música em si tem esse papel, de formar opinião, de criar, educar as pessoas. E não menos também, o papel de promover a alegria e o aflorar de sentimentos e com isso relaxar, divertir, fazer refletir, fazer dançar. Para mim a música tem essa dimensão imensa e é isso que eu quero, essa imensidão pra minha música também.

Sobre a cena reggae paulistana e brasileira atual, percebe alguma inovação em relação aos clássicos jamaicanos? Há uma expansão do público?

Bem, tem todo um caminho bacana e positivo atualmente, mas é inevitável não falar que esse tema ainda tem um nozinho que persiste aqui no Brasil e vou explicar sob o meu ponto de vista o porquê…. Salvo algumas exceções, no geral, há um racho visível ainda, que é: bandas pra um lado e sound systems (ou coletivos de seletores) para o outro. Muitos da minha geração, tenho hoje 29 anos, tiveram o contato inicial com o reggae por meio de bandas e a maior parte dessas bandas também eram iniciantes na época, ou seja, todo mundo começando.

E o lance é que, hoje, esses espectadores e boa parte de músicos dessas bandas jamais iriam a apresentações de bandas nacionais novamente. Tanto das que se mantiveram, quanto das que surgiram mais recentemente. Pois bem, inicialmente deixo claro que a minha crítica não é quanto à qualidade técnica de execução de instrumentos por parte dos músicos de bandas, e sim, porque sinto que ao longo desses últimos anos faltou um considerável aprofundamento no estudo e conhecimento da música reggae de boa parte.

E isso fica nítido ao se ouvir as produções de reggae, velhas ou novas, jamaicanas, europeias etc, e compará-las às produções de bandas nacionais ainda, e digo novamente, falo no geral, pois há uma minoria de exceções.

Não se vê as bandas tocando riddims clássicos quando se propõe a tocar covers e não se vê produções próprias que tenham conjunto harmônico com essa sonoridade. Sinceramente, a única banda atuante que conheço que traz isso no seu todo é o QG Imperial. Repito, que eu conheço.

O caminho da cultura reggae sound system, que sei mais por vivenciar ativamente, teve uma expansão muito considerável nos últimos anos. Temos um marco inicial de 11 anos atrás com o Dubversão Sistema de Som e depois de alguns anos apareceu uma primeira leva, dentre eles o sound system que sou integrante, Quilombo Hi-Fi.

E mais ainda agora, nos últimos um ou dois anos têm pintado outros tantos seletores, crews, gente querendo montar sistema de som, promovendo eventos e observo como um crescimento altamente positivo.

A influência é muito grande dos sounds jamaicanos, sim, mas acredito que a cena da Inglaterra é tanto quanto influente, especialmente porque na atualidade é a que contempla mais os caminhos escolhidos pelos sounds daqui. O crescimento do número de colecionadores também revela o crescimento do número de espectadores, agitadores.

As festas têm ficado cada vez mais cheias e o que mais me chama a atenção é a fidelidade do público. O coletivo que integro tem como mote principal as festas na rua, de graça e por elas fica ainda mais fácil perceber o quanto as pessoas se deslocam, atravessam a cidade e acompanham as festas seja lá onde elas forem.

Cabe destacar ainda a cena no interior, um crescimento imenso, crews de longa data montando seus sistemas de som, produzindo sons, revelando cantores. E a inovação está ai: nas produções próprias cada vez de maior qualidade, no destaque até mesmo internacional de cantores e produtores daqui e nas coleções de vinis cada vez mais cabulosas e profundas.

Veja Lioness Laylah no Quilombo Hi-Fi

Dé Schuw e Lioness Laylah na festa Ferro na Boneca no Boteco Prato do Dia

Lioness Layla, Jah Knomoh, História Única, Dub Movement Prod, Chicas Sound Sisters


História do Dub, Deep Roots Music, legendado

Serviço

Onde ouvir reaggae em São Paulo

Toda quarta-feira, Spliff Reggae Hour, no Boteco Pratododia, rua Barra Funda numero 34 (próximo ao metrô Marechal Deodoro).

Festa mensal Java, do DubVersão Sistema de Som. Próxima edição nesta sexta (19), na Lega Italica, praça Almeida Júnior, 86. (Metrô Liberdade ou Sé), com Yellow-P, Pitshu, Jymmy Dancer, Cirille Monama.

CCPC, General Club. Toda terça CCPC Jamaica. Eventos também em outros dias da semana e do fim de semana. Rua General Jardim, 269. (Próximo ao metrô Repúlblica).

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