‘Nunca tive problema de racismo’, diz Jair Rodrigues

Redação

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Atualizado em 1/04/2014

Jair Oliveira e Jair Rodrigues

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Créditos: Divulgação/Yuri Pinheiro

Jair Rodrigues

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Jair Rodrigues

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Jair Oliveira e convidados de seu DVD

Créditos: Divulgação/Yuri Pinheiro

Jair Oliveira

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Jair Oliveira e Jair Rodrigues

Créditos: Divulgação/Yuri Pinheiro

Tal pai, tal filho. Jair Rodrigues e Jair Oliveira estão lançando dois projetos ao mesmo tempo. Com produção de “Jairzinho”, de 39 anos, o “Jairzão”, 75, está com um álbum duplo, Samba Mesmo, com 26 canções nunca antes gravadas por ele. Já o cantor, produtor, compositor e instrumentista apresenta Jair 30 Anos, que sai em DVD, Blu-Ray e em formato digital.

Em entrevistas ao Virgula Música, feitas por telefone e com diferença de meia-hora entre elas, os dois falaram sobre trabalho em família e analisaram o atual mercado da música brasileira popular. O pai, diante da pergunta da reportagem se havia conversado sobre racismo com os fillhos, disse que nem ele nem os os filhos nunca sofreram discriminação. ” 

“Olha, maninho, deixa eu te falar uma coisa, eu com 55 anos de carreira, nunca tive sequer uma rusga por problema de racismo. Nunca. Mesmo quando eu era menino e ia para escola. Nunca fui discriminado a respeito de nada”, afirmou o músico, adicionando que seus filhos também não sofreram com a conduta criminosa e abominável em todos os aspectos. 

“Eu sei que hoje tem rascismo no mundo inteiro. Mas eu já viajei praticamente no mundo inteiro, já estive tantas e tantas vezes nos Estados Unidos, já estive na Europa, Japão, Emirados Árabes, nunca fui tratado com desdém por ninguém e, principalmente com problema do racismo”, afirmou Rodrigues.   

Ele disse também que vê a música como dom. “Às vezes eu fico vendo alguém falar assim, poxa, vida, eu vou jogar bola porque jogador de futebol fica rico, tem muitas mulheres, cantor també. Ah, eu acho que eu cantar porque assim enche de mulher do meu lado. Eu digo, vocês estão bestando, se vocês tivessem o dom de cantar vocês não iam dizer isso. Muda de profissão, que você não nasceu para isso, não (risos)”, alertou.

O intérprete de Deixa Isso Pra Lá e Disparada agradeceu por trabalhar em família. “Meu filho Jairzinho e minha filha Luciana Mello foram os dois que herdaram esse dom da música, graças a Deus. A partir daí, tudo ficou sendo mais fácil. De repente, eu perdi o meu empresário, que ele faleceu, ainda nos anos 80. E minha mulher tomou a frente para empresariar. Ela conhece muito, a Claudine é uma negociante de primeiro, conhece tudo da parte empresarial, foi modelo. Agora está tudo dentro de casa. Eu acho que trabalhando em família, família que trabalha junto, permanece junto”, disse.

Político, Jairzão criticou a música que faz sucesso hoje em dia, mas sem radicalizar. “São umas músicas sem letras, de repente com uma palavra só, eles ficam fazendo duas horas de show. O ritmo é bom. Se a moçada se diverte, então, esse país e tão bacana, tão grande, imenso, que tem lugar para todo mundo. Então, só não gosta da forma da letra, que é sem pé, nem cabeça, mas com o ritmo e a rapaziada se divertindo, eu também me divirto”, ponderou. 

“Uma coisa boa na minha carreira é que eu fui crooner por muitos anos, comecei em 1957, parei com a noite em 1967, quando eu já tinha um ou dois sucessos, e dei continuidade na minha carreira. Tudo isso valeu e está valendo a pena porque dentro do meu repertório não tem só samba, tem sertanejo, bolero, samba-canção, tango, valsa, seresta. Tem de tudo, né, nego?”, afirmou o músico.

Com seu habitual bom humor, Rodrigues brincou com seu público. “Hoje são 55 anos de carreira e a gente faz show para criança, para terceira idade, show para as menininhas de 18, de 1918 (risos) e show para garotinha de 6, 7, criança. Tudo isso eu devo a esse meu ecletismo. Porque eu acho que o artista, quem canta, tem que cantar de tudo, fazer todas as vertentes da música, não importa de que país seja”, defende, antes de completar: “Eu sendo brasileiro, claro que eu faço mais a música de meu país, mas se amanhã precisar cantar em inglês, eu canto, em francês, em espanhol, em italiano, até japonês, eu mando alguma coisa”.

Oliveira, por sua vez, falou sobre a influência e as trocas de informações com o pai. “Aprendi muita coisa com meu pai, ele é uma das principais referências do meu trabalho. Aprendi muita coisa, não sei te dizer, qual foi a principal coisa. Aprendi muito porque o samba me veio através do trabalho do meu pai. Eu, que sou muito influenciado pelo samba na minha carreira, acredito que essa referência tenha vindo principalmente pelo trabalho de Jair Rodrigues, mas é claro que eu tenho outras referências. Isso da gente lançar coisas ao mesmo tempo é até um pouco confuso para as pessoas, que as pessoas podem achar que se trata do mesmo trabalho. Na verdade, não é, cada um mantém o seu trabalho”, afirmou.

O músico, que tem no currículo dezenas de álbuns produzidos, entre eles Estudando o Pagode, de Tom Zé, defendeu também ter se tornado uma referência para o pai e ter descoberto muita coisa com suas duas filhas  “Essas gerações tem de se comunicar. Eu como sou pai também, as minhas filhas me trazem muita informação a cada dia. Você tem que estar disposto a estar aberto para estas informações para poder evoluir”, avaliou.

Ele contou também ver a educação e arte como algo indissociável. “Todo o contexto sócio-político mudou. A educação brasileira, eu sinto que deu uma deteriorada muito grande, apesar de ter incluído mais gente, a educação geral do brasileiro é muito fraca. Então, muitas coisas penam com isso. Mas, sem reclamar muito, a gente segue fazendo as nossas coisas, dando murro na ponta da faca e é assim que as coisas têm que ser”, disse.

Ele constata ainda que o espaço para a MPB foi reduzido. “A geração do meu pai foi a geração que pegou um mercado fonográfico mais estruturado e eles eram a música popular brasileira. Hoje em dia já não é, a música popular brasileira hoje em dia é uma coisa completamente diferente”, afirmou. Em seguida, Oliveira comparou: “A gente ficou com um espaço muito mais reduzido, apesar de o advento da internet, de outras mídias que surgiram aí. Mas como o Brasil é muito dependente da TV e do rádio, mas principalmente da TV, a música que a geração do meu pai e que a gente continua dando uma certa sequência, diminuiu muito o espaço”, afirmou. 

Em seu DVD, o músico e produtor reuniu artistas que participaram de várias fases da sua carreira, como Max de Castro, Luciana Mello, Simoninha e Pedro Mariano, músicos que surgiram com ele sob o nome de Artistas Reunidos e que, de certa maneira, foram o embrião de uma nova MPB e de uma música mais plural.

“A gente surgiu em um momento que também era muito complicado para a música brasileira. Para a MPB, como eles chamam, que era ali um começo que só tinha espaço, eu lembro bem disso, a gente estava atrás de espaço e sabia que o espaço só era disponível mesmo para o axé, para o sertanejo, para o pagode romântico e tal. E aí, com a Trama, com outras gravadoras independentes que surgiram naquela época, com uma cena paulistana e uma cena em outras cidades e Estados do país, acabaram empurrando alguns artistas, de outras coisas que não fosse axé, sertanejo e pagode, para poder aparecer e criar uma cena diferente do que estava vindo”, completou.

Mesmo com todas as mudanças entre a sua geração e a do seu pai, contudo, Oliveira vê alguns fatores imutáveis. “Continua sendo a mesmo coisa, precisa ter coração”, resume. “No mainstream ainda tem umas regras, que, você sabe, se fizer tal tipo de música e a gravadora colocar um tanto de grana para poder promover o disco, fatalmente, vai se tornar um sucesso. No mercado independente, as regras não são assim tão claras, dependem muito de outros fatores, então, na hora de fazer um disco, você tem que levar em consideração o seu próprio coração. Sua própria alma, tanto do artista, quanto do produtor, você tem que fazer aquilo que você acredita.”

É isso. Você pode até não gostar, não se indentificar com a música de Jairzão e Jairzinho, mas nunca poderá dizer que ela é desprovida de paixão. 

SERVIÇO

Jair Rodrigues, lançamento de Samba Mesmo
Quando: Sábado, (5), às 21h
Onde: Auditório Ibirapuera, av. Pedro Álvares Cabral, s/n°, Ibirapuera
Telefones: (11) 4003-2330 e 3629-1075

MPB na Cena – Jair Oliveira 30
Teatro MuBE Nova Cultural – www.mubenovacultural.com.br
Quando: dias 9, 16, 23 e 30 de abril (quartas-feiras)
Horário: 21h
Duração: 70 minutos
Endereço: Rua Alemanha, 221- Jd. Europa. São Paulo/SP
Quanto: R$ 100 (inteira) e R$ 50 (meia)
Bilheteria: Terça a Quinta, das 14h às 18h – Sextas 14h às 21h30 – Sábados 14h às 21h – Domingos 10h às 20h.
Site: www.compreingressos.com
Capacidade do espaço: 192 lugares
Ar condicionado
Valet: R$ 25

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