‘O Brasil não se entende enquanto latino-americano’, afirma francisco, el hombre

Fabiano Alcântara

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Atualizado em 20/09/2017

Francisco, el Hombre

Rodrigo Gianesi Francisco, el Hombre

Nome da nova cena brasileira e com um pé no México, a banda francisco, el hombre se apresenta nesta sexta (22) Auditório Ibirapuera, em São Paulo. A frase “Somos as fronteiras que cruzei”, presente na música Francisco, el Hombre, é uma boa definição do grupo, formado pelos irmãos mexicanos Sebastián e Mateo Piracés-Ugarte e pelos brasileiros Juliana Strassacapa, Andrei Kozyreff e Rafael Gomes.

Isso porque o quinteto encontra na estrada – e na vida cotidiana – suas grandes inspirações. Com letras em português e em espanhol, a banda costuma colocar o público para cantar nas duas línguas em suas apresentações. No show marcado para o dia 22 de setembro no Auditório Ibirapuera –Oscar Niemeyer não deve ser diferente, já que o grupo arrebanha fãs por onde passa desde o lançamento do EP de estreia La Pachanga! (2015).

Nós trocamos uma ideia com eles. As respostas são do Mateo Piracés-Ugarte, que toca violão, canta e faz synths:

Que está acontecendo de mais novo na música hoje, na sua opinião?
Mateo Piracés-Ugarte -  Vou falar de um ponto específico porque sinto que tenho propriedade pra isso: a cena independente do Brasil. São festivais em todo país, casas de show, coletivos, agências, produtoras diferentes. E está rolando uma comunicação ótima entre todas essas frentes, uma verdadeira rede, todos muito amigos. Um sentimento de comunidade com relação à cena de música brasileira contemporânea – de rock ou MPB.

O Festival CoMA, em Brasília, por exemplo, surge a partir de uma banda querendo fazer a música reverberar. Ou o Contato, no qual alguns produtores de palco trabalham na cena do independente há mais de dez anos. No Bananada, alguns diretores e produtores são pessoas de banda. Tem um princípio gerador do anarquismo que eu acho que tá se aplicando muito, “a minha liberdade começa onde começa a liberdade do outro”.

Quando você entende isso, entende que quando o outro faz um rolê bem feito, melhor vai ser o seu porque vai ter em quem se inspirar e quem ajudar. Bato forte no peito pra falar dessa cena porque me impressiona como todas as bandas se encontram nos backstages dos festivais, independentemente do gênero. E isso não é comum nem aqui mesmo no Brasil há alguns anos ou fora dele nesse mesmo nível. Isso pra mim é muito novo e muito bonito; ainda vai estar nos livros de história como um momento marcante.

Por ser o único que fala outra língua, o Brasil vive isolado em relação ao que acontece na política e na cultura de outros países da América Latina?
Mateo – Definitivamente, a língua é algo que afasta o Brasil dos outros países, mas não é nem um pouco o motivo porque vivemos isolados. Acaba que isso é um atrativo porque as línguas são muito parecidas; é muito fácil uma banda de fora vir pra cá e ser compreendida e o contrário também acontece facilmente.

O que verdadeiramente afasta são 500 anos de uma política de não criar um mercado interno da América Latina e, com isso, o continente não dialogar, não criar sua auto-sustentabilidade de modo geral. Na cultura isso se vê com a música. Isso implica que a gente entenda, por exemplo, Argentina, Paraguai ou Uruguai enquanto rota de turnê do mesmo jeito que consideramos outras cidades do Brasil. Não é preciso ir pro hemisfério Norte pra uma turnê internacional. Existe um mercado de rock muito forte na Argentina, no Uruguai… a gente tem que aproveitar esse mercado interno. Faz muito tempo que a gente tá comprando cultura de um outro hemisfério.

Esse imperialismo cultural que afasta tanto o Brasil. As bandas que se dedicam a criar público nos países próximos conseguem. Natiruts e Armandinho lotam estádios pra 8 mil pessoas na Argentina. No caso do Natiruts, fazendo três datas com ingressos esgotados no Chile e Uruguai. As bandas emergentes têm que se entender como latino-americanos e ir até lá. O Brasil não se entende enquanto latino-americano e a profundidade do problema mora aí. Importamos muito menos de cultura latino-americana do que o resto do continente compra do Brasil. Não só na música, como no futebol, por exemplo.

O sucesso do fenômeno Despacito pode ser positivo para impulsionar a latinidade no Brasil?
Mateo – Eu amo Despacito, tem sido uma referência sobre produção; considero um importante marco dessa década. E pra estimular a latinidade no Brasil é extremamente importante. É uma música que conseguiu romper limites de todos os nichos. Faz muito tempo que o reggaeton vem fazendo isso, ganhando espaço em toda América Latina, e agora ganha o Brasil e acho relevante justamente pra que o Brasil se veja como latino-americano. Fico contente de ver vertentes do sertanejo universitário, por exemplo, usarem elementos desse estilo, de a Anitta fazer parcerias com outras pessoas desse continente. É maravilhosa essa união.

Ter se dedicado bastante à estrada ajudou a fazer com que o som de vocês crescesse?
Mateo –  
A gente sempre acreditou na banda enquanto fazedora de história e, pra isso, é pedacinho por pedacinho. Nos dedicamos à estrada pra crescer, pra ir construindo uma base de amigos que pudessem sustentar essas rotas. E a partir deles vem aquilo que depois é chamado de fã ou apoiador. Ter se dedicado a criar essa rede é o que fez do nosso trabalho algo tão sólido com seguidores tão presentes.

Além disso, por sempre estar na estrada, tivemos de sempre renovar o show pra pode ter sempre a atenção do público. Como começamos tocando pelas ruas, tínhamos de sempre conseguir cativar esses cinco minutos de atenção das pessoas pra conseguir passar o chapéu. Isso fez com que sempre nos adaptássemos ao lugar que estamos, inclusive absorvendo informação sobre este local. As pessoas nos dizem que nosso show tá mudando, crescendo e melhorando e nossa conexão com elas também. E isso vem da prática, do tocar. É fazer a música naquele instante da catarse do show reverberar sempre diferente, mudar a música. Testamos Bolso Nada e Calor da Rua em Cuba, por exemplo, pra ver como tocá-las, como seria a conexão de um público completamente distinto com elas. Hoje sinto que as tocamos como queremos.

Que artistas da nova cena mais gostam e indicam?
Mateo –  O que mais me inspira agora e me influencia são aqueles que estão juntos de nós e fazendo seu melhor, na mesma estrada, sempre dando um passo maior. Pra essa resposta vou focar em duas bandas: Zaíra (banda de forró que tá tentando quebrar os moldes do estilo, fazendo a comunicação entre a cena independente e a cena deles. Além disso, entendem o forró como latino-americano) e o Braza (que é nova, mas já tem um nível impecável de produção, com mensagens muito lindas nas letras).

SERVIÇO

Francisco, el Hombre
22 de setembro de 2017 I 21h duração: 80 minutos (aproximadamente) ingressos: R$ 20 e R$ 10 (meia-entrada) [livre para todos os públicos] A apresentação conta com interpretação em Libras (Língua Brasileira de Sinais) informações: www.auditorioibirapuera.com.br tel: 3629-1075 ou info@auditorioibirapuera.com.br Auditório Ibirapuera – Oscar Niemeyer

Capacidade: 806 lugares Av. Pedro Alvares Cabral, s/n – Portão 2 do Parque do Ibirapuera (Entrada para carros pelo Portão 3) Fone: 11.3629-1075 info@auditorioibirapuera.com.br http://www.auditorioibirapuera.com.br/ Ar-condicionado. Acesso a pessoas com deficiência. Proibido fumar no local.

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