Selton lança ‘Manifesto Tropicale': ‘É nosso álbum mais brasileiro e mais italiano também’

Itaici Brunetti

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Atualizado em 10/11/2017

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(Foto: Chiara Mirelli/divulgação) Selton

Uma banda de brasileiros que começa cantando em inglês nas ruas de Barcelona, Espanha, se muda para a Itália e começa a escrever (e pensar) também em italiano“, assim é o resumo da história do Selton, narrado pelo vocalista e guitarrista Ramiro Levy. O grupo de gaúchos, que reside em Milão desde 2007, acaba de lançar o quarto álbum de inéditas, Manifesto Tropicale, pela gravadora Universal, e se prepara para abraçar este novo momento em sua trajetória.

O álbum anterior, Loreto Paradiso, de 2016, rendeu presença frequente em rádios de grande audiência e convite para festivais concorridos na Itália, além de uma extensa turnê. Com Manifesto Tropicale, a resposta está sendo ainda mais positiva para os brasileiros. “Ao mesmo tempo em que é o nosso disco mais brasileiro, musicalmente falando, é o mais italiano também, já que nunca tínhamos tido um disco com tantas músicas cantadas em italiano“, diz Levy em exclusiva ao Virgula sobre a mistura de culturas que permeia o trabalho. Eles ainda inserem a língua inglesa, portuguesa e espanhola dentro de uma sonoridade que vai do pop requintado dos Beach Boys a cultuada Tropicália, passeando pelo indie contemporâneo.

Na conversa, Levy revela de onde surgiu o nome do álbum, quais foram as influências buscadas e também de sua admiração por Caetano Veloso, referência bastante presente nas novas músicas.“Caetano falava de pós-globalização antes mesmo que a globalização existisse. Quando nos perguntam por aqui qual a importância do Caetano Veloso para a música brasileira, gostamos de dizer que ele é uma espécie de David Bowie tropical”.

Confira o papo completo:

Capa de Manifesto Tropicale

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Virgula: O que seria Manifesto Tropicale?

Ramiro Levy:  A inspiração para o título vem do Manifesto Antropofágico, de Oswald de Andrade. O questionamento sobre a natureza da identidade brasileira e o seu caráter antropofágico (absorver, digerir e transformar culturas que vêm de fora) foram assuntos que nos acompanharam de perto durante o processo do disco. Da mesma maneira como o Brasil nasceu e cresceu se alimentando de culturas estrangeiras, atualmente nos encontramos numa Europa cada dia mais influenciada por outras culturas. Esse é o fluxo natural da história, mas às vezes nos esquecemos. Caminhando por Loreto (bairro onde vivemos em Milão) é possível encontrar muito mais opções de restaurantes chineses, africanos, árabes ou peruanos que italianos.

No que Manifesto Tropicale difere do álbum anterior, Loreto Paradiso?

Acho que a grande diferença de Loreto Paradiso para Manifesto Tropicale talvez esteja aí: se o anterior era uma tentativa de aceitar o lugar no qual vivemos e lutar pra transformá-lo num paraíso, em Manifesto Tropicale estamos já dentro desse novo mundo no qual todos esses universos coexistem e se influenciam constantemente.

Manifesto Tropicale parece ser o álbum mais brasileiro do Selton até agora. Essa brasilidade sonora foi intencional? 

É uma observação muito interessante, também falamos disso muito durante o processo de criação. Acredito que exista aí um dos grandes contrastes que dá ao disco grande parte da sua personalidade. Ao mesmo tempo em que é o nosso disco mais brasileiro, musicalmente falando, é o disco mais italiano também, já que nunca tínhamos tido um disco com tantas músicas cantadas em italiano. Não foi exatamente intencional, mas quando vimos que estava se criando esse contraste, simplesmente deixamos que ele crescesse e se desenvolvesse, nos interessava essa mistura.

Ouvindo o álbum não tem como não lembrar de Caetano Veloso. Ele foi uma inspiração?

Caetano pra gente sempre foi uma figura muito presente. Durante o processo desse disco, ainda mais. A capacidade desse artista em se reinventar esteticamente e conceitualmente foi desde sempre uma inspiração pra gente. Caetano falava de pós-globalização antes mesmo que a globalização existisse. Quando nos perguntam por aqui qual a importância do Caetano Veloso para a música brasileira, gostamos de dizer que ele é uma espécie de David Bowie tropical.

Qual é o momento do dia em que Manifesto Tropicale funciona melhor?  Para qual cenário ele foi criado?

Acho que em geral nossos discos são ótimos pra se escutar na estrada. Mas se tivesse que escolher um momento do dia pra Manifesto Tropicale, acho que eu diria o amanhecer, preferivelmente vendo o sol nascer no mar.

Em Manifesto Tropicale há músicas em inglês, português, espanhol e italiano. Vocês não têm receio de que a mistura de idiomas dê um ‘bug’ na cabeça do ouvinte? Esse ‘mix’ mais ajuda ou atrapalha? 

Essa sempre foi uma questão-chave pra gente. Claro que é um ponto delicado e já foi um problema quando ainda não tínhamos uma identidade muito definida musicalmente. A sensação que temos, no entanto, é que quanto mais o tempo passa, mais isso está se tornando uma coisa natural, fluida pra gente. Acho que tem a ver com toda a questão da busca pela identidade da qual falávamos antes. Aprendemos a aceitar que essa mistura de línguas é uma parte muito importante de quem somos e acreditamos que todas essas línguas podem, sim, conviver dentro de um mesmo disco no momento em que a identidade sonora é clara. Nossos ouvintes podem dar play serenamente que, em teoria, não há risco de bug durante a escuta (assim esperamos).

Há planos da turnê de Manifesto Tropicale vir ao Brasil?

Estamos vivendo um momento de muita agitação aqui na Itália. Já tínhamos feito alguns passos importantes com Loreto Paradiso, mas Manifesto Tropicale está tendo uma resposta ainda mais positiva. Por esse motivo, neste momento estamos muito absorvidos com todo o trabalho por aqui. Mas não vemos a hora de poder voltar para o Brasil com esse novo trabalho, estamos fazendo de tudo pra que isso seja possível em 2018.

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(Foto: Chiara Mirelli/divulgação) Selton

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