Como Cartola, Ismael SilvaNelson Cavaquinho e outros sambistas que se tornaram consagrados com idade avançada, Wilson das Neves talvez viva o ápice da sua fama, aos 76 anos. Para o baterista da Orquestra Imperial e que desde o fim dos anos 50 tocou com alguns dos maiores nomes da música brasileira, o sucesso não é motivo de deslumbre. “Meu trabalho é esse, se eu estou durando até aqui é por que eu estou merecendo”, brinca.

Integrante da banda de Chico Buarque, ele conseguiu que o cantor e compositor assinasse uma parceria em seu novo disco Se Me Chamar, Ô Sorte (MP,B/Universal), a faixa feita para o bisneto do sambista Samba para João. “É que nós trabalhamos a temporada e na temporada inteira eu fui pedindo a ele. ‘Olha, eu vou gravar o disco’ (risos). Aí ele não teve como fugir. Como ele gosta de trabalhar sob pressão, então eu fiz a pressão”, lembra, antes de completar que se sentiu meio sem jeito e dizer que não é o “Tom Jobim” para cobrar letro do “chefia”, como ele chama Chico.

Em sua música mais conhecida, o hino O Samba é Meu Dom, Wilson afirma: “O Samba é Meu Dom/ E no samba que eu vivo do samba que eu ganho meu pão/ E é no samba que eu quero morrer de baquetas na mão/ Pois quem é do samba meu nome não esquece mais não”.

Como alguém que transforma música e vida em uma coisa só, a humildade transparesse a cada frase, em entrevista ao Virgula Música. “Tudo que a gente faz com carinho, com amor, com atenção e sempre procurando melhorar é sempre muito bom”, afirma. Leia a seguir.

Eu te chamo de senhor ou você?

Do jeito que você quiser tá bom, o importante é ser feliz

Como que é ficar famoso, uma espécie de popstar, com uma certa idade?

Quem sou eu, meu amigo, eu sou mais um na multidão. Isso é trabalho, meu trabalho é esse, se eu estou durando até aqui é por que eu estou merecendo. É trabalho, eu não levo nada como popstar, de ser isso nem aquilo não.

Eu sou mais um, como estou dizendo a você, estou trabalhando e ganhando meu pão. Para mim é isso, não tem nada de sucesso, nada de extraordinário, é a vida da gente. Agora, as pessoas é que julgam, a gente vive em um mundo de jurados, cada um tem a sua opinião sobre a gente. E cada um faz sua opinião e vai vivendo, gosto, não gosto, é isso, é aquilo. Eu estou trabalhando.

Dá pra dizer que neste disco você teve um tratamento especial pelo nível dos arranjos e o cuidado com que foi feito?

Eu estou procurando melhorar a cada um que eu faço, procuro ver um detalhezinho para melhorar, a intenção é esta.

A sua discografia é bem extensa, porque demorou a lançar disco solo como este?

Este é o quarto. O primeiro saiu em 96. Eu não me apressei em fazer não, meu querido. Eu fui convidado para gravar um disco instrumental e não quis gravar porque tinha gravado uns cinco e ninguém conhece, ninguém toma conhecimento.

Eu já tinha as minhas composições, queria gravar minhas músicas. Mas a ideia não era eu cantar nada, era para eu tocar bateria, fazer um conjunto e botar uma pessoa para cantar, um cantor ou cantora. Wilson das Neves e sua banda interpreta Wilson das Neves, uma coisa assim, aí o Esdras (Pereira) da (gravadora) CID me pediu para levar as músicas e levei eu cantando com o violão, despretensiosamente, só para mostrar as músicas.

Aí ele me disse, ah, vamos gravar e eu digo, mas tem que arranjar uma pessoa para cantar. Ele falou não, se você cantar desse jeito vai você mesmo. Aí fui eu, e acho que canto melhor do que toco porque já ganhei três prêmios cantando (risos).

Quais foram os prêmios?

Eu ganhei revelação de sambista quando gravei O Som Sagrado de Wilson das Neves (1996 – CID), depois concorri com o segundo (Brasão de Orfeu, 2004, Acari Discos/Biscoito Fino), no Grammy e quem ganhou foi o Martinho da Vila, quer dizer eu não perdi nada, estar junto com o Martinho já estou num naipe melhor. E o anterior a este Pra Gente Fazer Mais Um Samba (2010 – MP,B/Universal Music) ganhei melhor álbum de samba.

O senhor tocou com muita gente importante, Eumir Deodato, Ed Lincoln, Elza Soares, João Donato, Egberto Gismonti, Chico Buarque…

Todos com quem eu toquei são importantes, com cada um eu aprendi um pouquinho.

Tem algum que dá para falar que te deixou alguma coisa a mais, que te chamou mais a atenção pelo virtuosimismo ou genialidade?

É o que eu acabei de dizer pra você, com cada um eu aprendi um pouquinho. Cada um tem o seu cada qual. Somando tudo, a gente faz a nossa.

O senhor é uma espécie de “muso” da Orquestra Imperial…

Eu não! Eu estou lá junto com a garotada, fazendo o meu trabalho como eles fazem o deles.

Dá pra comparar como era a música antes com hoje?

A música não muda, muda é a mosca. Mudam os músicos. A música é a mesma, cada um toca do seu jeito. Nada vai ser igual a nada musicalmente. Cada um tem que vir e tocar, ninguém toca igual a ninguém. O piano é o mesmo, cada um que senta tira um som dirente, a bateria é a mesma, cada um toca o seu samba, ninguém toca igual a ninguém. Eu nunca vi. Para o meu entendimento cada um toca do seu jeito, só quando junta que vira uma orquestra por causa do resultado, mas cada um toca do seu jeito, não tem essa não.

Mas a paixão pela música é a mesma?

Com certeza. Ser músico é uma dádiva, não é para qualquer um. É como ser um cirurgião, não é para qualquer um, se não todo mundo operava. Tocar também não é qualquer um que toca, tem uns que carregam o instrumento e outros tocam (risos).

Perguntaram para o Chico Buarque se ele voltaria a fazer música e shows após a última turnê e ele disse que só havia aberto uma exceção para fazer Samba para João, parceria com o senhor. E ele dizia que só havia feito porque te encontrava toda hora e o senhor cobrava a letra…

É que nós trabalhamos a temporada e na temporada inteira eu fui pedindo a ele. “Olha, eu vou gravar o disco” (risos). Aí ele não teve como fugir. Como ele gosta de trabalhar sob pressão, então eu fiz a pressão. Ele disse: “Não, mas eu gosto de trabalhar sob pressão, você não me cobra”. Aí eu digo, “mas eu não sou o Tom Jobim com essa moral para te cobrar uma letra”.

E o senhor escolheu para fechar o disco…

É uma homenagem ao meu bisneto, feito pelo nosso grande Chico, “Chefia”, conforme eu chamo ele.

O disco foi feito em um sistema novo de financiamento, o crowndfounding, em uma campanha do Embolacha. É como comprar um apartamento na planta…

Ajuda, né? Depois tem um churrasco!

Vai ter mesmo?

Quem colaborou quer comer carne, né meu cumpadi? Tomar um cerveja… É mais o prazer da gente bater um papo. Eles vão marcar a data que vai ser.

Foi difícil chegar o repertório deste disco, escolher as músicas?

Não porque, eu vou te dizer, não existe música ruim. Ou ela é música ou não é nada. Então a gente vai roer o osso, as que eu faço, e vou separando com o Paulinho Pinheiro (Paulo César Pinheiro, produtor do álbum ao lado de Berna Ceppas e do próprio Wilson), não só as que eu faço com ele, como as que faço com outros parceiros.

E ainda tem um bocado de coisa para gravar, de músicas inéditas. Só com o Paulinho eu tenho umas setenta e pouco.

Dá pra fazer dez discos?

Isso, ainda estou no quarto, ainda tem mais seis para fazer.

Mais alguma coisa pra falar do disco?

Que as pessoas ouçam pelo menos, não precisa comprar, mas pelo menos ouvir. E dia 2 e 3 estamos lançando lá no Sesc Copacabana.

O pessoal mais jovem, que te conheceu pela Orquestra Imperial, tem ido nos seus shows?

Eu não tenho decepcionado não, a rapaziada comparece.

Tem ideia de qual é o segredo para quebrar esta barreira de gerações?

Tudo é questão de oportunidade. As pessoas também estão ávidas de escutar coisa diferente. Eu não procuro imitar ninguém, eu procuro ser a minha cabeça. Eu erro com a minha cabeça, não acerto com a dos outros.

Então o que eu faço é a minha cara. É é isso, você sendo diferente já está acontecendo. É que as pessoas começam a imitar umas às outras. O que está fazendo sucesso? Aí vai naquela, vamos fazer isso aqui. Mas isso tem o original e genérico ninguém gosta.

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