Foram três anos de tentativas, frustrações, erros e acertos. Para Dayene Amorim, a maternidade não era um mero presente do acaso e, sim, parte do planejamento familiar que ela e o marido ansiavam por começar. Uma gestação tranquila, sem grandes efeitos colaterais, fez com que Dayene acreditasse que vivia o melhor momento de sua vida. Isso durou até as primeiras semanas depois do nascimento de Felipe, que hoje tem 9 meses.

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É preciso pedir ajuda: a depressão pós-parto é uma doença silenciosa que tem cura e prevenção, apesar dos sintomas sutis

Como uma mãe pode se sentir tão infeliz depois de realizar o sonho de dar à luz? Parece inconcebível e proibido falar em qualquer tipo de rejeição materna, mas a realidade é bem mais dura do que os idealismos – principalmente com as mulheres que engravidam. A depressão pós-parto é difícil de ser quantificada, já que a questão permanece como um tabu na sociedade: muitas mulheres sofrem com esse transtorno, mas sentem medo ou vergonha de admitir o que realmente acontece nos primeiros meses do puerpério. Um estudo feito nos Estados Unidos mostrou que uma em cada sete mulheres desenvolve esse tipo de depressão.

Em alguns casos, o quadro pode regredir em até dois meses após o parto. Em outros, pode durar muito mais.

“Essa depressão tem um componente social muito importante dentro do contexto atual, das mulheres que retardaram a função materna e têm total controle sobre a própria vida. De repente, ela passa a colocar o bebê em primeiro plano, sem tempo para ir ao banheiro. É um choque de realidade muito grande se deparar com uma vida totalmente dependente de você, com a sensação de que aquilo não vai acabar nunca”, explica Aline Melo de Aguiar, psicóloga e coordenadora da AMA Psicologia.

Na cabeça dessa mulher, aquela criança é algo completamente diferente do que familiares e amigos próximos conseguem ver. Ela não consegue reconhecer o filho como parte de si; é apenas uma pessoa estranha, que não inspira afeto ou amor. A depressão é silenciosa e os sintomas podem ser sutis, mas nem por isso menos devastadores. O grande erro é ignorá-los e deixar que a condição se agrave com o passar do tempo.

Irritabilidade, insônia, agressividade, falta de apetite e dificuldade para estabelecer o vínculo afetivo com o bebê são alguns dos sinais do quadro de depressão pós-parto. É hora de buscar ajuda.

Baby blues: toda angústia é temporária

Dayene sentia que tudo ia bem depois de receber alta da maternidade. Quando o leite começou a descer, ela percebeu uma estranha alteração hormonal no organismo, um processo natural que dá continuidade à maternidade. Essa alteração, aliás, mexe profundamente com o humor das mulheres. Nas primeiras semanas após o parto, é normal sentir certa melancolia e muita dificuldade para voltar à rotina. Esse é o famoso “baby blues”.

“Cerca de 70% das gestantes sofrem com essa mudança de humor. O baby blues é a melancolia pós-parto, algo bem leve e sutil. A mãe fica triste, mas logo passa. A grande diferença em relação à depressão pós-parto é a intensidade, já que nesse caso a mãe fica mais distante da identidade materna. Ela quer evitar o contato com o filho. O baby blues não é assim”, atenta Ivan Morão, psiquiatra, psicanalista e chefe do Departamento de Psiquiatria do Hospital São Luiz.

Dayene tinha crises de choro repentinas e questionava se conseguiria cuidar do filho, já que o peso da responsabilidade sobre aquela vida era maior do que ela imaginava. A mãe temia que o pequeno bebê sofresse algum acidente, passasse mal com as vacinas, ficasse sem o pai… Temores cada vez maiores, como se uma voz dentro de sua cabeça dissesse que aquilo jamais teria fim.

Tomando medicamentos para aumentar a produção de leite (entre eles, um que apresentava como efeito colateral sintomas de depressão), Dayene se isolou e passou a pular refeições e horas de descanso, por conta da insônia. No retorno ao obstetra, 40 dias após o nascimento do filho, ela teve o diagnóstico de depressão pós-parto confirmado. A solução era começar o tratamento com um medicamento antidepressivo, Fluoxetina.

“A gente acha que não acontece por motivos pessoais da própria mãe, só se existir uma crise no relacionamento ou na vida financeira. Comigo foi totalmente diferente. Era a cobrança em relação a mim mesma, como mãe, que aumentava a depressão”, lembra Dayene.

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Na primeira semana com o medicamento, a angústia e a vontade incontrolável de chorar haviam melhorado. O tratamento continuou durante seis meses, período aconselhado pelo médico da jovem para evitar a recaída. “No segundo mês, eu já conseguia interagir com meu filho normalmente. No começo, você tem a impressão de que a sua vida acabou, que nada será como antes. Procurei manter tudo igual, mas levando meu filho para os lugares. Isso me ajudou também. Vi que podia ter a mesma vida de antes da gravidez”.

Apoio e compreensão

O desequilíbrio hormonal tem grande influência no diagnóstico de depressão, mas ele não é o único vilão da história. A rotina de uma mãe de primeira viagem não é fácil e toda ajuda é bem-vinda. De acordo com a psicóloga Aline Melo, preparar uma “rede de apoio” à mãe é fundamental para combater a sobrecarga e o estresse, fatores que estimulam o aparecimento de um quadro depressivo.

Para isso, basta que a família divida melhor as tarefas da casa entre todos os membros, de modo que a mulher consiga se dedicar aos cuidados com o bebê sem esquecer de si mesma. Pai, avós e irmãos, por exemplo, podem cuidar de pequenas coisas, como o preparo das refeições ou a organização da casa. Nesse meio tempo, a mãe consegue dormir um pouco mais, essencial para o bem estar emocional. A privação de sono também favorece a depressão.

“A maioria das pessoas subestima essa doença, achando que não passa de frescura, algo que deve ser deixado de lado. Aquela mulher está doente, nem ela consegue se reconhecer. A família precisa estar ao lado, como pacientes, encorajando o tratamento. Senão, ela só se sentira mais cobrada, incomodada e incapaz como mãe”, alerta Ivan Morão.

A depressão pós-parto tem cura e pode, sim, ser evitada em uma segunda gestação. Basta fazer um acompanhamento reforçado durante o período gestacional e se atentar a qualquer angústia ou ansiedade. Lembrar-se dos limites e imperfeições da maternidade é o primeiro passo para trabalhar a insegurança. Nada é perfeito, nem precisa ser. “Para você cuidar de um bebê, você primeiro precisa cuidar de si mesma. Não pode ser o sacrifício em função da maternidade. A tristeza é um sentimento legítimo e que pode ser trabalhado”, acredita Aline Melo.

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