Mãos trêmulas, coração acelerado, medo do mundo e de si mesmo. É possível que você já tenha experimentado algum destes sintomas, em maior ou menor intensidade, em algum momento da vida. Transtornos invisíveis como depressão e ansiedade são silenciosos mas, nem por isso, menos graves.

De acordo com um levantamento da OMS (Organização Mundial da Saúde) de 2016, 33% da população mundial sofre de ansiedade. Em São Paulo, esse número chega a 29,6% dos paulistanos.

Reflexo dos tempos, genética, dificuldades financeiras… As causas que estimulam o aparecimento de transtornos mentais são diversas. Embora o diagnóstico não deixe dúvidas, pessoas que sofrem de ansiedade, depressão ou bipolaridade são, muitas vezes, descredibilizadas e desrespeitadas pelo próprio círculo de convívio social e familiar.

Em vez de apoio e compreensão, elas encontram despreparo e preconceito, combinação que piora ainda mais o dia-a-dia de quem convive com um transtorno mental. A solidão, em doses nada saudáveis, dificulta a superação do diagnóstico.

“O mais grave é quando pensam que tudo não passa de frescura, sem fazer o menor esforço para entender o problema daquela pessoa. Os transtornos são muito complexos, difíceis de analisar. Carregar um tijolo é fácil, mas imagine carregar cinquenta ao mesmo tempo. Fica ainda mais difícil com a desqualificação. As pessoas têm muita facilidade em julgar e desmerecer essas doenças”, acredita Bayard Galvão, psicólogo e hipnoterapeuta.

Cuidar de amigos ou familiares que sofrem com alguma dessas doenças requer compreensão, empatia e, acima de tudo, respeito pelos próprios limites. Separamos algumas dicas que vão facilitar esse processo, vem ver:

Andando com a depressão, por Kathrin Honesta

“Aprenda de mente e coração abertos”

Segundo Bayard Galvão, só respeitamos o sofrimento de outra pessoa quando buscamos entendê-lo, desvendando origens e gatilhos. Em vez de apelar para o “mais fácil”, taxando todo e qualquer transtorno como uma mera fraqueza de espírito, o caminho é se informar sobre a doença que está em jogo. Depressão, pânico, ansiedade; como aquela pessoa se sente? O que a deixa bem e o que a deixa mal? Como evitar surtos e crises?

“É preciso se colocar no lugar daquela pessoa que está sofrendo. É difícil fazer essa conexão apenas conversando com a pessoa que está sofrendo. A boa notícia é que hoje temos muitas ferramentas para buscar conhecimento, como o YouTube, por exemplo. Outra dica é ir a um grupo de auxílio de cuidadores e acompanhar entrevistas de outras pessoas que conseguiram superar o transtorno mental. É uma forma de se sensibilizar”, explica.

“Acolha sempre que possível”

Nem sempre estamos 100% dispostos para atender a um amigo que precisa de ajuda. Mesmo assim, é fundamental fazer um esforço para mostrar-se disponível sempre que possível, dentro de um limite, é claro. Em crises ou surtos, pacientes com algum transtorno mental precisam saber que têm pessoas com quem podem contar, por pior que as coisas pareçam.

Sempre que sobrar um tempinho, tente marcar um almoço ou jantar para conversar, mande mensagens para saber como está indo o tratamento e demonstre interesse e respeito pela condição do amigo ou familiar. É mais fácil acreditar na recuperação quando percebemos que aqueles que estão ao nosso redor também torcem pela gente.

“Quando uma pessoa está doente, a solidão acaba agravando a enfermidade. Podemos falar de câncer, ansiedade ou até mesmo uma gripe, não importa a doença. A solidão é algo brutal, que realmente aumenta o sofrimento de quem está debilitado, física ou psicologicamente”, alerta Bayard Galvão.

Antes de julgar e desqualificar, busque entender o sofrimento da pessoa com transtorno mental. Os sintomas são reais!

“Incentive o tratamento”

Questionar o tratamento sugerido pelos médicos e reforçar tudo que não passa de perda de tempo é desmerecer a recuperação de quem precisa de ajuda. Em vez de colocar o amigo para baixo, reforce os pontos positivos do acompanhamento médico e psicológico e mostre os avanços obtidos desde a primeira consulta.

Esse incentivo é fundamental para o fortalecimento emocional da pessoa diagnosticada com algum tipo de transtorno. Ela também precisa se ver capaz de andar com os próprio pés. Incentivar, porém, não é o mesmo que se responsabilizar pela cura do amigo ou familiar em questão. Lembre-se disso e afaste-se de qualquer culpa por não ter controle da situação ou da recuperação alheia.

“Tenha um tempo para se cuidar”

Os familiares de um paciente diagnosticado com ansiedade, depressão ou qualquer outro transtorno costumam ter mais contato com a realidade de dor e sofrimento da doença do que amigos, colegas e conhecidos. Muitas vezes, a vida de uma família muda, do avesso, para orbitar o problema. A exaustão, tanto física como emocional, não demora a aparecer.

Estabelecer limites é um jeito de preservar a si mesmo e ao outro numa relação que tem tudo para se tornar desgastante e infeliz. Acolher, respeitar e estar presente em momentos de crise são detalhes importantes, mas dentro do limite saudável, sempre. Para o psicólogo Bayard Galvão, os cuidadores precisam saber que nem sempre conseguirão oferecer ajuda da maneira como esperam. E tudo bem!

“Os cuidadores são muito criticados, mas às vezes eles sofrem mais do que a pessoa de quem estão cuidando. Não dá para fazer tudo por alguém, sempre. Quem ajuda e cuida de pessoas nessas condições também precisa do próprio espaço para aliviar a carga e o estresse, senão acabam adoecendo junto”, finaliza.

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