Lais Almeida já estava testando uma terceira pílula anticoncepcional, depois de duas outras tentativas frustradas, quando percebeu que as dores de cabeça, enjoos e escape (aquele sangramento fora da época do fluxo menstrual) simplesmente continuavam, apesar das dosagens e combinações hormonais diferentes de cada marca.

Lais: “Nada é melhor do que conhecer o próprio corpo”

Foi então que a jovem notou o aparecimento de um nódulo suspeito no seio. Depois do susto, não restou dúvida: a experiência com os hormônios artificiais acabava ali, com ou sem o aval do médico. “Não estava mais feliz e tinha desenvolvido varizes, um sinal de que eu poderia desenvolver trombose. No início, meu ginecologista foi contra, mas precisou apoiar a decisão por questões de saúde”, conta Laís.

Tomada a decisão, o apetite diminuiu e a “não tão querida” TPM voltou a dar as caras, pelo menos nos primeiros seis meses, quando o corpo ainda está tentando lidar com a falta dos hormônios artificiais. Mesmo assim, para Lais, a adaptação está valendo a pena, já que a libido (que na época do anticoncepcional andava bem baixa) parece estar normalizada.

Agora, Lais estuda outros métodos, também não hormonais, e buscou entender o próprio ciclo, ainda que irregular nessa primeira fase de adaptação. A camisinha continua sendo a principal escolha na hora das relações. “Há muitos métodos para evitar a gravidez. Não precisamos ficar tomando algo artificial, que pode fazer mal, só pelo medo da gestação. Nada é melhor que conhecer o seu próprio corpo”, acredita.

Essa também é a opinião da médica ginecologista Cássia Freitas, de São Paulo. Segundo ela, muitas meninas chegam ao seu consultório à procura de uma indicação de pílula, mesmo sem consciência do próprio ciclo menstrual ou ter iniciado a vida sexual. O desconhecimento sobre outros métodos contraceptivos também é muito comum. Em casos assim, muito precoces, a ginecologista recomenda que o anticoncepcional não seja considerado logo de cara, como se fosse a única opção existente.

“Elas não sabem nem como é o ciclo direito, aí eu vou receitar algo artificial para aquele organismo, sendo que ela não sabe como é o funcionamento natural? Ou, no caso do DIU, fazer com que elas parem de menstruar por quase 5 anos? Antes de optar pelo artificial, é fundamental que elas reconheçam o próprio corpo. Algumas não sabem dizer quantos dias tem o ciclo, ou se ele é totalmente artificial, por conta dos medicamentos”, reitera a ginecologista.

NOVAS “VELHAS” ESCOLHAS

A dúvida agora é maior entre as mulheres que, por muitos anos, foram adeptas das cartelas de pílulas hormonais. Quando alguns casos de embolia pulmonar e derrame começaram a ganhar destaque nas manchetes de jornais, o lado “prejudicial” da pílula acabou influenciando uma busca alternativa de contraceptivos – hormonais ou não, como no caso do DIU de cobre e a velha e boa camisinha, que também previne as DSTs.

Luana Alves foi uma dessas mulheres que migraram para outras possibilidades, ainda tidas como “secundárias” em comparação à pílula. Ela usou o anticoncepcional por mais de oito anos, chegando a um ponto em que não conseguia mais reconhecer os efeitos do medicamento no próprio organismo. Para Luana, estava tudo bem.

“Na verdade, eu só conhecia o meu corpo do jeito que o anticoncepcional o deixava. Quando parei, pude perceber que algumas coisas mudaram para melhor. O ponto positivo principal pra mim foi a libido e lubrificação, coisas que eu nem tinha reparado que tinham sido prejudicadas pelo remédio, porque o tomava desde o início da vida sexual”, conta ela.

Depois de ficar um tempo sem o remédio, Luana percebeu que a libido tinha voltado ao normal, o que teve um impacto positivo em sua autoestima. Na opinião dela, a autonomia sobre o próprio corpo e o direito à escolha de métodos alternativos deveria ser uma realidade entre os médicos, o que nem sempre acontece.

luana

Também é preciso levar em conta que, como qualquer outro medicamento, o anticoncepcional é contra-indicado em alguns casos mais específicos e problemáticos, como mulheres que têm histórico de trombose na família ou têm mais de 40 anos e são fumantes, por exemplo. Embora o diagnóstico não seja comum (uma paciente a cada 2 mil usuárias da pílula, em caso de ausência de histórico de trombose na família), a pílula pode, sim, ser fatal para quem faz parte do grupo de risco (mulheres que têm as condições citadas acima).

De primeira, o efeito dos hormônios no organismo pode causar um mal-estar na paciente. Segundo Georges Fassolas, ginecologista e especialista em reprodução humana, os mais comuns são dores de cabeça, tontura e enjoo. Qualquer distúrbio mais grave deve ser levado em consideração, no mesmo instante.

“Se isso se prolongar por mais de três meses, é o caso de conversar com o médico. Sentir falta de ar ou dor no peito usando a pílula pode ser um sintoma de embolia, bem como uma dor de cabeça muito forte pode indicar um futuro AVC. A trombose mais comum, por sua vez, é aquela que dá atrás do joelho, quando perna fica inchada e vermelha”, atenta o especialista.

Depois do jejum de anticoncepcional que durou quase 8 meses, Luana resolveu testar o DIU de cobre e não se arrepende de ter abrido mão do método artificial.

“Quase não tenho cólicas e o fluxo da menstruação aumentou um pouco, mas nada incômodo demais. É importante avaliar outros métodos, porque mesmo com tantos riscos, o anticoncepcional continua sendo receitado para adolescentes que, muitas vezes, nem iniciaram a vida sexual e podem passar até 20 anos da vida sem conhecer direito o próprio ciclo menstrual. Os efeitos colaterais não são muito comentados pelos médicos”, acredita ela.

POR QUE ESCUTAR OS SINTOMAS?

Se você está testando uma pílula nova e sente que alguma coisa não vai bem, é fundamental parar e prestar atenção aos sinais que o corpo está dando. Ainda que sutis, os sintomas podem servir de alerta para uma possível incompatibilidade do organismo com o medicamento. Relatar tudo isso ao ginecologista pode evitar problemas mais graves no futuro.

Bianca Lima só parou de tomar a pílula depois de dez anos, com alguns meses de pausa ao longo desse período. O medicamento com uma alta dose hormonal foi a única saída para tratar as cólicas intensas que a garota sentia. Esse é outro ponto que deve ser comentado pelos médicos na hora de receitar uma fórmula mais forte.

De acordo com a ginecologista e professora da Universidade Federal de São Paulo  Zsuzsanna di Bella, doses sintéticas elevadas estão mais associadas à ocorrência de complicações, como no caso de um AVC. “Quando o hormônio é natural, os riscos são menores”, pontua a ginecologista.

Foi uma crise gástrica, porém, que levou Bianca a repensar sua decisão em relação à pílula receitada pelo médico. “Tive essa piora no estômago por causa da troca do anticoncepcional. Como meus sintomas eram sentidos no estômago, o gastroenterologista pedia exames e não conseguia fazer a ligação com a pílula. Só fui descobrir muito tempo depois”, explica.

Azias, enjoos e dores no estômago só melhoraram quando ela se acostumou a uma rotina livre das pequenas pílulas, notando a melhora progressiva em outros aspectos do organismo, como a libido. Pesquisar alternativas e debater os prós e contras com o ginecologista, segundo Bianca, é o primeiro passo para abandonar de vez os hormônios. Isso não quer dizer que o sexo precisa ficar completamente desprotegido, certo?

“Tem que bater na tecla dos preservativos, sempre. As DSTs estão aí, e só os preservativos podem oferecer algum tipo de proteção. Poucas mulheres conhecem o preservativo feminino. Ele é bom porque deixa a decisão toda na mão delas, não precisa do aval do parceiro. O problema é que esse método é pouco difundido, como muitos outros, quando só a pílula é levada em conta”, alerta Cassia Freitas.

No começo de tudo, a pílula era vista com muito preconceito: “contracepção mata bebês”

QUEM É A TAL DA PÍLULA

Lá pela década de 1960, tomar pílula anticoncepcional era um ato de rebeldia e subversão entre as mulheres, já que a sexualidade estava totalmente sob o controle delas, sem o risco de uma gravidez indesejada. Responsável por promover essa revolução comportamental e sexual, o medicamento resistiu a todos os julgamentos, preconceitos, rótulos e, mais de 50 anos depois, tornou-se o método contraceptivo mais adotado e recomendado por médicos e especialistas.

O uso indiscriminado da pílula rolou numa boa, sem muitos questionamentos, durante todos esses anos. Obviamente, o remédio de hoje tem uma fórmula química muito diferente das primeiras pílulas produzidas em 1960, nos Estados Unidos e na Alemanha. A quantidade de hormônios naquelas primeiras amostras era algo um pouco assustador. Chamar as pílulas antigas de “bomba de hormônios” não era nenhum exagero, vai por mim.

A indústria farmacêutica aperfeiçoou o anticoncepcional e preencheu as prateleiras das drogarias com pílulas de dosagens, colorações e combinações diferentes, atendendo às necessidades das mulheres e até promovendo alguns benefícios de saúde e estética, como o controle da oleosidade da pele, diminuição do fluxo e cólicas mais suaves.

Para Cassia Freitas, porém, a conscientização sobre o universo das pílulas anticoncepcionais ainda engatinha. “Tem que existir essa discussão. Os efeitos colaterais vão aparecer, mesmo que a paciente não tenha risco de trombose. A pílula sempre vai aumentar esse risco, por si só, porque é uma mudança hormonal”, ressalta.

Métodos diferentes e alternativos à pílula existem, com ou sem hormônios. Falamos ali em cima do DIU, por exemplo; trata-se de um método intra-uterino fabricado nas duas versões, que são os contraceptivos mais seguros depois da pílula e da camisinha, de acordo com os especialistas.

Ainda assim, cada organismo, vai reagir de uma maneira diferente. Por isso a participação ativa do médico é tão importante, principalmente se tratando de sexualidade, um tema que nem todo mundo curte discutir.

“É muito comum aquele caso da amiga que indica uma pílula para a outra. Isso tem que ser avaliado antes da prescrição, levando em conta os riscos da paciente. Também é fundamental que o médico mostre todos os métodos existentes, dos tradicionais aos mais recentes. A decisão final tem que ser da paciente”, conclui Zsuzsanna di Bella.

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