Em Reconhecimento de Padrões (Aleph), o escritor William Gibson, pai do ciberpunk, oferece uma explicação mística para o jet leg. “Almas não conseguem se mover assim tão rápido, são deixadas para trás e precisam ser aguardadas, no desembarque, como bagagens que se perderam”, afirma.

Quando acordo às 3h30 da manhã, o ruído branco dos carros na rodovia mal pode ser ouvido. “Sua alma mortal ficou a léguas de distância e está sendo rebobinada por algum cordão umbilical fantasma seguindo a trilha já desaparecida do avião que a levou até ali, a centenas de milhares de pés de altura sobre o Atlântico”, escreve Gibson.

No meu caso, ela cruzou a Amazônia, a América Central, fez uma escala em Houston. Do Texas à Califórnia, poucas plantações, muito deserto e as Montanhas Rochosas. Elas me fazem lembrar os ETs de Roswell e Thelma e Louise.

Vejo os Estados Unidos com os olhos de uma criança. Palmeiras californianas, prédios vitorianos, espanhóis e franceses, desertos. A diversidade de gente lembra o Brasil, mas aqui é cada um na sua, mexicanos, negros, asiáticos, brancos. Há avisos por todo lugar, faça isso, não faça aquilo e tudo parece funcionar.

Em minha peregrinação de chegada, no entanto, vejo gente morando nas ruas e velhos hotéis, com a clássica escadaria de saída de emergência na frente, abandonados. Não há trânsito, parece feriado, mas é uma terça-feira. O sol forte ajuda a compor o clima.

As duas motoristas dos ônibus que me trouxeram até o hotel são mulheres e bem diferentes. A primeira negra e simpática, conversa com os passageiros, a segunda, com feições de mexicana e toda tatuada, ostenta uma carranca. Mas quando me enrolo para achar mais 25 centavos da tarifa de US$ 2,50, ela me deixa passar por US$ 2,25. O troco não é permitido.
Chego, saio em busca de um adaptador para os equipamentos eletrônicos. Minha vontade é de ir para a rodovia e sair pedindo carona, talvez em direção a Paris, Texas. O cheiro de eucalipto sobressai.

Escrevo um pouco, durmo ainda com sol e acordo no meio da madrugada. Amanhece em tons de cor-de-rosa. Talvez seja a minha alma que, finalmente, chegou.

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