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O botton no estande diz tudo: “Quadrinhos me fizeram gay”. Em uma esquina movimentada da Comic-Con, a Prism Comics, organização LGBT voltada para criadores homossexuais escancara o que antes estava no armário.

“Acho que o mais importante e uma das principais razões pela qual eu me envolvi é que os quadrinhos são uma mídia acessível, as pessoas gostam de ver imagens, é fácil, uma coisa agradável de ser lida. Existem muitas histórias nesses HQs de pessoas saindo do armário, questões da juventude, em que as pessoas podem ver a si mesmo nessas graphic novels. Você percebe que está tudo certo”, afirma o presidente da Prism, Ted Abenheim.

“Na minha primeira participação aqui, há dez anos, tínhamos com um estante de 10 m x 10 m e hoje estamos em um de 30 m x 30 m. Temos muito mais criadores envolvidos com a gente. A Prism cresceu, mas não fomos nós necessariamente que crescemos. A consciência cresceu”, defende.

Josh Trujillo, um dos 20 autores que estão no estante da organização, vê uma nova atitude entre os quadrinistas jovens. “Acho que chegamos em um ponto que os quadrinhos gays não precisam mais defender questões específicas, eles podem explorar outras coisas e ideias. Criadores jovens estão fazendo trabalhos muito novos sobre a experiência gay, não só apenas sexo”, argumenta.

Na vitrine da maior feira de cultura pop do mundo, o próprio Trujillo promove uma HQ que foge dos estereótipos. Love Machines mistura de tecnologia e romance. “Eu diria que se não tivesse crescido gay, eu nunca teria as ferramentas para fazer quadrinhos. Provavelmente, eu seria um advogado ou algo do tipo socialmente aceitável. Os quadrinhos me fizeram se rebelar contra isso e ser eu mesmo”, conta.

Abenheim também usa a própria experiência para contextualizar sua militância via quadrinhos. “A principal razão de eu ter me envolvido é que se eu tivesse acesso a essas histórias quando eu era jovem, eu teria crescido de uma maneira diferente. Histórias que dizem que não há nada errado, você tem problemas que todo mundo tem. Acho que esse é o mais valoroso do que a gente faz”, sustenta.

O presidente da Prism menciona que hoje há personagens gays que se tornaram mais mainstream como a Mulher Gato e os Jovens Vingadores. “Há dez anos era diferente, não havia espaço para personagens queers nos quadrinhos como você tem hoje. E continuamos vivos e com muito a fazer. Éramos marginalizados no passado, muitos criadores que diziam coisas importantes sobre a experiência queer não tinham espaço para serem ouvidos e vistos”, lembra.

Para ele, o desafio agora é integrar os transgêneros: “Acho que uma nova fronteira é termos mais personagens trans. Temos dois convidados especiais transgêneros na convenção. Ainda existem muitas histórias a dizer, de super-heróis, de autobiografias, de heróis, temas vitorianos, de fição científica”, enumera.

Abenheim argumenta ainda que obras como  Azul é a Cor mais Quente, HQ de Julie Maroh levada para o cinema, trouxeram uma nova sensibilidade para a questão gay. “Acho que sempre ajuda ter filmes feitos a partir de graphic novels feitas a partir de personagens gays. É uma história incrível, de personagens incríveis”, diz.

Trujillo, por sua vez, vê a popularização dos personagens gays como forma de quebrar o preconceito. “A cultura é uma boa maneira de atravessar ideias diferentes e unir as pessoas. A Comic-Con tem tantos tipos de pessoas normalmente consideradas outsiders ou esquisitas. Aqui eles estão todos juntos celebrando a cultura pop. Cria uma comunidade”, opina.

Dos corpos musculosos e das roupas que davam pinta, como as cuecas em cima das calças, às desconfianças sobre a relação entre Batman e Robin e o lesbianismo implícito de Sheena, o universo dos quadrinhos sempre foi terreno fértil para especulações. A diferença é que não há mais nada a esconder. Ser gay é OK e a cultura pop já assimilou isso.

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