Lima Duarte gravou uma mensagem dolorida e comovente em homenagem ao amigo Flávio Migliaccio, que faleceu nesta semana, aos 85 anos. Na visão do diretor Kleber Mendonça Filho, é “um homem de 90 anos falando com outro de 85 sobre um país que não entendeu nada”.

“Eu te entendo, Migliaccio”, diz o ator no início do vídeo. “Eu te entendo. Porque eu, como você, sou do Teatro de Arena, com Paulo José, Chico de Assis, com o [Gianfrancesco] Guarnieri. Foi lá que nós aprendemos com o [Augusto] Boal que era preciso, era urgente que se pusesse o brasileiro em cena”, continua.

Duarte então relembra como ele e Migliaccio conseguiram cumprir a missão de encarnar o homem brasileiro, “com o seu falar, com o seu sentir, com o seu jeitão”. E nisso, “você foi um mestre”, diz, referindo-se ao parceiro de profissão. “Você conseguiu colocar e eu também. Colocamos em cena o homem brasileiro. Foi linda essa viagem, essa aventura foi espetacular”.

No entanto, depois veio 1964 e o golpe militar.

“Por isso, por ter vivido esse momento, por ter pertencido à lenda, eu digo que eu te entendo, Migliaccio”, explica o ator. “Agora, quando sentimos o hálito putrefato de 64, o bafio terrível de 68, agora, 56 anos depois – eu tenho 90 anos, você com 85 – quando eles promovem a devastação dos velhos, não podemos mais”, desabafa.

“Eu não tive a coragem que você teve… Mas espere aí, meu amigo, eu vou logo […] Vamos nos encontrar e contar aquelas piadas horrorosas que você contaria, que o Chico de Assis apontava. Nos encontramos logo”, afirma o artista.

Antes de terminar, Lima Duarte deixa uma mensagem “para os que ficam”, citando uma obra do dramaturgo alemão Bertolt Brecht: “eu quero lembrar uma das falas de Pedro Jáqueras em ‘Os Fuzis da Mãe Carrar’: ‘os que lavam as mãos o fazem numa bacia de sangue'”.

Flávio Migliaccio foi encontrado morto em seu sítio, localizado em Rio Bonito (RJ), na última segunda-feira (4). A causa teria sido suicídio.

Confira a homenagem de Lima Duarte na íntegra:

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