O maior escândalo de espionagem dos Estados Unidos não teria acontecido sem a ajuda de Laura Poitras. A cineasta norte-americana, que já foi indicada ao Oscar, foi o ponto de contato fundamental entre o ex-técnico de informática da CIA Edward Snowden – hoje em asilo na Rússia – e o jornalista americano Glenn Greenwald, do jornal The Guardian

A última “aparição” de Laura na imprensa foi em agosto. Quando David Miranda, namorado de Greenwald, foi detido, interrogado e teve seus equipamentos eletrônicos confiscados em Londres, ele vinha de um encontro com Laura em Berlim. Seu nome, no geral, só foi mencionado de passagem. “Fiquei pensando que preferiria que fosse eu a ser detida”, comentou Laura em um artigo publicado no jornal alemão Der Spiegel em 26 de agosto. “A detenção de David (…) revela uma coisa: nossos governos não querem que a população seja informada quando o assunto é vigilância.” 

O jornalista americano revelou, por meio de reportagens, que os Estados Unidos roubaram dados de milhões de brasileiros e espionaram até mesmo a presidente Dilma Rousseff. Mas é ela, à sombra de Greenwald, quem fez tudo acontecer. “Nada disso teria ocorrido com tanta eficiência e impacto se ela não tivesse trabalhado comigo em todos os aspectos, e na verdade não tivesse respondido pela coordenação da maior parte do trabalho”, disse o jornalista ao The New York Times em agosto.

Foi Laura, na verdade, a primeira a fazer contato com Snowden, após tentativas frustradas dele de falar com Glenn Greenwald. Snowden mandoumensagens anônimas para Laura, sabendo que fazia filmes críticos aos EUA e havia sido vítima de perseguição – estas, denunciadas por Greenwald em um artigo. 

Os três se conheceram pessoalmente em Hong Kong, na China, quando ela publicou um vídeo de 12 minutos no qual o ex-técnico revelou a própria identidade e se tornou, instantaneamente, o homem mais procurado do mundo.

Assista (em inglês):

Nascida em Boston, Laura morou em São Francisco, onde quis estudar gastronomia, e depois em Nova York, onde estudou arte e cinema. Assistiu, da janela de casa, aos ataques de 11 de setembro – e produziu um curta-metragem documental sobre o tema. Hoje, mora em Berlim, após uma temporada na casa de Glenn Greenwald no Rio de Janeiro. 

De acordo com o NYT, ela é reservada. Tem uma conta no Twitter – fechada – e não há página oficial de seu trabalho no Facebook. O site oficial menciona, discretamente e apenas uma vez, seu nome. Na internet, informações a seu respeito são limitadas a seu trabalho – as poucas imagens em agências de fotos a mostram, quase sempre, em eventos de cinema nos quais foi premiada.

Ela é, por sinal, muitíssimo respeitada pela crítica especializada. Em 2007, foi indicada ao Oscar de melhor documentário pelo filme My Country, My Country, no qual acompanha as dificuldades de uma família iraquiana durante a invasão das tropas norte-americanas. Por gravar o filme, foi incluída em uma “lista negra” do Departamento de Segurança Nacional dos EUA, e durante seis anos foi notificada, revistada e interrogada a cada aeroporto pelo qual passava.

Em 2012, Laura lançou pelo jornal The New York Times o documentário-perfil The Program. No filme, ela entrevista o veterano da NSA William Binney, que decidiu denunciar os programas de espionagem usados pela agência de inteligência em território doméstico. Segundo ele, após os ataques de 11 de setembro, o governo norte-americano deslocou, secretamente, todos os seus recursos de inteligência para obter dados de cidadãos americanos, violando as leis nacionais de privacidade.

Assista ao documentário The Program (em inglês):

Entre seus filmes também está The Oath, no qual ela conta a história do ex guarda-costas de Osama Bin Laden e de um prisioneiro de Guantánamo – e os abusos cometidos pelo governo americano contra os dois. Seu próximo projeto, temporariamente chamado de Trilogia – Parte III, promete denunciar com profundidade a NSA, Agência Nacional de Segurança dos EUA.

Em seu site oficial, a única informação sobre o filme é um vídeo que mostra a base da agência em Utah, conhecida como Intelligence Community Comprehensive National Cybersecurity Initiative Data Center. Mas Laura – a única pessoa no mundo, além de Greenwald, a ter todos os documentos obtidos por Snowden – deve quebrar o silêncio em breve.

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