Autor de peças chave para a modernidade cinéfala como Adaptação e Quero ser John Malkovich, Spike Jonze volta aos cinemas como Her, uma experiência romântica virtual que plasma a solidão e o narcisismo do século XXI com o qual encerrou neste sábado, com ovação, o Festival de Nova York.

Com Joaquin Phoenix como herói romântico e seu objeto de desejo ser a voz de Scarlett Johansson, que nunca aparece na tela, já dá para perceber que o que se anuncia como “uma história de amor de Spike Jonze” não será um filme convencional.

O diretor, que apresentou o filme em Nova York junto a Phoenix e outros membros do elenco, como Amy Adams, Rooney Mara e Olivia Wilde, capta essa sensibilidade difusa contemporânea tendente à frutração e à autocontemplação.

Her é a história de Theodore, dedicado a escrever cartas de amor alheias mas que, após um divórcio, começa uma relação com um sistema operacional chamado Samantha, capaz de saber suas necessidades a cada instante e revisar todos seus e-mails. É um futuro não muito distante no qual as máquinas foram capazes de desenvolver emoções ou, pelo menos, de satisfazê-las no plano sentimental.

“Nosso mundo é cada vez mais amável, especialmente em Los Angeles. No entanto, cada vez um se sente mais isolado e só. No filme, não se sabe muito bem se esse futuro é utópico. Mas acho que nossa sociedade tende a isso. E, apesar de tudo o que precisa, sente-se cada vez mais só”, refletiu o diretor.

Para Jonze, Her representa sua autonomia definitiva como criador. Desamarrado já do gênio do roteirista Charlie Kauffman, autor dos roteiros de seus primeiros filmes e, sem a base literária que lhe deu o conto de Maurice Sendack em Onde Vivem os Monstros, agora escreve e dirige, embora tenha contado com o conselho de Steven Soderbergh para uma montagem que deixou fora do elenco o ator Chris Cooper.

Her é um título irônico para um filme indubitavelmente centrado no “eu” que é interpretado por Joaquin Phoenix. Seu personagem se sente cômodo com essa “ela” criada em sua imagem e semelhança pelos códigos informáticos.

Mas apesar do filme mostrar a beleza desses esperançosos sentimentos independentemente de qual seja sua detonante, também mostra como essa relação “de imagem e semelhança” acaba gerando ao protagonista reações tão humanas como os ciúmes, o excesso de responsabilidade ou a dúvida existencial.

“Samantha é nova no mundo. Não tem inseguranças e nem tem dúvidas”, descreveu Jonze, que vai analisando a preocupante incapacidade social para lidar com a realidade, em contraposição ao auge da simplificação das relações virtuais.

E falando da confusão entre realidade e ficção, a entrevista coletiva de apresentação do filme, ao contar com Joaquin Phoenix, voltou a se transformar em um espetáculo de pessoa e o personagem do ator em sua atitude com os meios de comunicação.

Phoenix não perdeu a oportunidade de fumar um cigarro eletrônico, levantar seu dedo indicador para se dirigir a Amy Adams ou, perante uma resposta elaborada de Olivia Wilde, dizer. “Estão vendo? Não precisa de estudos”, em referência ao fato da a atriz não ter ido à universidade.

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