Mano Brown por Pedro Dimitrow

Nesta quinta-feira (26), estreia como um original Spotify, o podcast “Mano a Mano” com apresentação do rapper Mano Brown. No programa, o artista receberá diversos convidados para falar sobre temas ligados à música e questões sociais. Em coletiva, o rapper falou sobre a criação do projeto, os convidados e comentou sobre a nova cena do rap.

Em 2020, quando o mundo foi paralisado por conta da Covid-19, Mano Brown se viu em uma situação que precisava controlar a ansiedade. Entre uma doença que avançava a cada dia e a negação por parte da sociedade, foi nos estudos que ele afirma ter encontrado um ponto de paz e equilíbrio. “Eu fui estudar, fui ler, através da internet também. Fui estudar coisas sobre teologia, arqueologia, filosofia, ciência e coisas relacionadas à diáspora africana”, relembra.

Compartilhando as descobertas com os amigos, surgiu a ideia de fazer um podcast, que foi incentivado pela Boogie Naipe, produtora do artista. “Meus amigos falam que eu sou um contador de história nato. […] E a Boogie Naipe apostou em mim”.

O hip hop me salvou. Tudo que eu tenho venho do hip hop, sem a popularidade dos Racionais eu não teria o podcast”, confessa o artista. O grupo vem desde 1988 contando histórias e retratando a realidade das periferias brasileiras, da forma mais sincera e clara possível, com discos produzidos há mais de 30 anos que ainda conversam com os dias atuais. “O Brasil não mudou tanto como eu queria que mudasse”, reflete Mano Brown.

Como forma de ampliar novos diálogos, pontos de vista e fugir dos clichês, Mano Brown abre espaço para conversas com as mais variadas pessoas com objetivo de trazer novas visões.

Tem muita gente cansada de ideias, das mesmas ideias. Eu procuro fugir do clichê para que as minhas ideias não percam importância”, diz. “Tem que ampliar. Tudo é clichê se você não amplia a ideia e não ouve o outro. O que é o clichê? Ideias velhas e ultrapassadas que você quer implantar como novas”, completa.

Brown assume que saiu da zona de conforto ao procurar entender como conduzir uma entrevista, mas que ao ler e assistir as mais variadas conversas foi se sentindo mais confortável. E ainda afirma que as pessoas vão lhe conhecer melhor. “Eu sou um brasileiro de mentalidade mediana, como diz Jorge Ben, mas aprendendo. Sou eu brasileiro médio, filho de uma mulher negra com um cara branco desconhecido. Sou a cara da massa, a cara da maioria. Eu sou um produto tipicamente brasileiro, filho da escravidão”.

A primeira temporada conta com 16 episódios que estarão disponíveis todas as quintas-feiras no Spotify. Com diferentes assuntos em cada episódio, Brown afirma que deseja que o podcast seja um sucesso. “O meu desejo é que faça sucesso, que alcance o que a gente planejou, que seja uma coisa agradável. Porém, antes de ser agradável, que seja útil. Útil para acrescentar na vida das pessoas na prática, no dia a dia”, afirma. “A revolução hoje tá na prática, o que você pratica no dia a dia“, destaca.

Karol Conká, Fernando Holiday e Dráuzio Varella são alguns dos primeiros convidados

A primeira temporada teve alguns dos convidados revelados. Entre eles estão a cantora Karol Conká, que estreia o programa nesta quinta-feira, o técnico de futebol Wanderley Luxemburgo, o político Fernando Holiday, o médico Drauzio Varella e o pastor Henrique Vieira. “No Brasil há diversas inteligências negras que conseguiram driblar essa asfixia, e pressão que há em cima dos nossos pensadores negros. Essas vozes que o Brasil não ouviu ainda”, afirma.

Ao longo dos episódios, Brown descobrirá um pouco mais sobre cada convidado e debaterá os mais diversos temas ligados à sociedade. “Estamos sempre aprendendo, e eu estou aprendendo muita coisa”, comenta. Sobre os convidados, Brown afirma serem pessoas relevantes que têm algo a comunicar. “São pessoas que são ídolos do povo. Gente relevante que as pessoas querem saber o que eles pensam”, completa.

Como uma forma de abrir novos diálogos e pontos de vista, Brown afirma uma variedade de convidados com pensamentos distintos. “Um cara que ninguém quer ouvir, eu quero ouvir”, afirma Brown sobre Fernando Holiday, que o cantor confessa ter opiniões distintas mas ressalta a importância deste diálogo. “Os eleitores de partidos de direita e centro-direita estão nas ruas. Estão assinando leis, executando e praticando o que eles pensam. Não é deixando de falar com eles que eles vão deixar de existir. São pessoas que vamos ter que dialogar na rua”, reflete. “E eles continuam pensando da mesma forma, vamos ter que dialogar com esses caras, não é uma massa que dá para ser desprezada”, completa.

Sobre o episódio de estreia, com Karol Conká, Brown afirma resistência por parte de algumas pessoas que consultou de fora da produção ao comentar que iria entrevistar a artista. “Uma rejeição de 99% me interessa muito. Talvez eu tivesse uma rejeição maior que a dela”, confessa.

Além disso, Brown mostra satisfação em poder entrevistar pessoas que sempre admirou. Com a variedade de conversas, o rapper deseja que as pessoas cheguem às suas conclusões por conta própria.

Eu espero que o programa consiga transmitir liberdade. O Brown não vai direcionar você para isso, você que vai chegar nesse resumo” conclui.

O nova cena do rap e as novas conquistas

Brown ainda faz questão de exaltar a nova cena do hip hop, citando nomes importantes da cena atual, como Matuê, Djonga, Hungria, Rincon Sapiência, Rael e Caveirinha. “Esses são o ouro do Brasil, os jovens. Eles são os protagonistas, eles falam com os jovens”.

O artista ainda ressalta como a nova geração do rap consegue chegar em diversos lugares. “O negro sempre teve o ponto de vista dele abafado como se fosse uma coisa sem importância. ‘Não negão, isso aí falamos depois’, ‘Pera aí, Negão’, é o que mais se ouve. O rap não espera. Essa molecada eles não esperaram nem pediram nada, eles invadiram com talento e luta. E música, e com views, milhões e milhões de views“.

Lembrando que, com novas histórias e ampliando diversos debates, Mano Brown estreia como apresentador do “Mano a Mano”, nesta quinta-feira (26), de forma gratuita apenas no Spotify. O projeto conta com a produção do Spotify em conjunto com as produtoras MugShot e Boogie Naipe e co-direção criativa da Agência GANA. Abaixo, ouça o teaser do podcast.

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