Como as pessoas reagem nas ruas vendo uma mãe amamentando

Quando o pequeno Davi nasceu, Priscila Reis Turci (da fanpage Corujas – Tal mãe, tal filha) encarou o desafio de ser mãe mais uma vez com a tranquilidade e resiliência das quais só as mães de segunda viagem podem se gabar. Cinco anos antes, ela havia dado à luz a primeira filha, Letícia, e desvendado os mistérios até então insolúveis da maternidade. Entre eles, a amamentação e todos os seus mitos, verdades e tabus.

Para Priscila, a prática nunca foi trabalhosa, traumática ou humilhante, muito pelo contrário. Na primeira gestação, ela contou com o apoio de enfermeiras e funcionárias do banco de leite da maternidade para amamentar Letícia; já com Davi, não existiu qualquer engano ou dificuldade. A única preocupação da mãe era que o filho pudesse ser liberado da UTI o quanto antes, por ele ter nascido prematuro.

“Eu pedi tanto que ele saísse da incubadora, como seria capaz de negar o peito ao meu filho ou adiar esse momento? Amamentá-lo era tudo o que eu mais queria”, ela me contou, com Davi em seu colo, numa tarde quente no Parque Villa-Lobos, na capital paulista. Priscila secou algumas lágrimas com as mãos e ajeitou o filho ao peito, tentando esquecer os primeiros instantes dolorosos de vida daquela criança.

O preconceito daqueles que criticam a livre amamentação das mulheres, portanto, era a menor de suas preocupações.

QUEM TEM MEDO DO PEITO?

Se essa é uma experiência tão íntima e natural, como pode ainda gerar tantos debates e represálias? Por mais que a importância do aleitamento materno seja discutida e defendida pelos órgãos oficiais de saúde, o “incômodo” causado pelas mães nos espaços públicos não passa tão despercebido assim.

Olhares curiosos e constrangidos – algumas vezes indignados – de quem acha que é obrigado a assistir à amamentação ainda faz com que algumas mães prefiram ficar restritas a salas especiais em shoppings e restaurantes. Ou ainda que protejam a cabeça das crianças com mantas, tornando o ato mais “privativo”. E você, gostaria de se alimentar com a cabeça completamente coberta?

Essa campanha de 2014 criticou o posicionamento de alguns estabelecimentos nos Estados Unidos que pediam que mães amamentassem em locais como “banheiros públicos”

Priscila se lembra de ter ouvido comentários de colegas e conhecidas que se sentiam ofendidas ao vê-la amamentar perto de seus respectivos parceiros, como se o seio à mostra naquele momento fosse de alguma maneira “sedutor” para os rapazes. “Algumas meninas já me pediram para jogar um ‘paninho’ em cima do peito. Isso é o que me deixa mais triste, porque é um julgamento vindo de uma mulher que provavelmente vai passar pela mesma situação um dia, quando for mãe”, desabafa.

Mesmo notando esse desconforto, ela nunca passou por um episódio mais grave de preconceito – não verbalmente, pelo menos. O ato de amamentar cria um elo tão forte entre mãe e bebê que o foco acaba sendo totalmente direcionado à criança, sem deixar espaço para essa preocupação com a reação dos que estão ao redor.

A jornalista Izadora Rodrigues percebe o mundo à sua volta da mesma maneira. João, de seis meses, se alimenta exclusivamente do leite da mãe e nunca precisou se acostumar a um horário ou local específico para mamar. Fomos ao ponto de ônibus que fica em frente à Igreja Nova Conceição e ela podia jurar que quase ninguém tinha prestado atenção ao pequeno bebê que mamava em seu peito. Assistindo ao vídeo, conseguimos perceber melhor a reação das pessoas, um misto de constrangimento e curiosidade.

“Eu nunca senti que o fato de estar amamentando estava incomodando alguém. Mas sei que os olhares maliciosos vêm dos homens, quando os percebo, por conta dessa coisa sexual. Lembro que uma vez estava na padaria, com as minhas amigas, e o João está numa fase de largar o peito para olhar as coisas ao redor. Quando percebi, tinha um senhor encarando o meu seio”, conta Izadora.

ALIMENTO QUE NÃO TEM PREÇO

Em novembro, uma publicação causou polêmica nas redes sociais por criticar uma mãe que estava amamentando sua filha, em cima de uma bicicleta. A autora do “manifesto” descreveu a cena como algo de “pobre fazendo pobrice”, e defendeu a introdução das fórmulas infantis na alimentação dos bebês.

“Um absurdo atrás do outro”: post foi duramente criticado nas redes sociais

O fato de a menina da foto ser um pouco mais “crescidinha” também estimulou comentários negativos. Se já é complicado amamentar um bebê em paz, imagine o “absurdo” de continuar dando o peito para uma criança maior?

Priscila amamentou a primeira filha Leticia por quase dois anos, recomendação natural dos pediatras, e se lembra do estranhamento causado pela amamentação “tardia”. Um caso semelhante aconteceu com a também jornalista Fernanda Aranda, mãe de Clara e Olívia, que sabe que alimentar suas pequenas – que não são mais tão pequenas assim – incomoda muita gente. Elas têm um ano e quatro meses.

“Fomos a um teatro infantil, onde teoricamente amamentar deveria ser menos tabu. Uma mulher jovem, com o marido e com a filha, ficou indignada quando amamentei as meninas. Cutucou o marido, bufou e parecia querer proteger a própria filha para que não olhasse a cena. Meu marido ficou incomodado, mas eu só pensava: mais uma menina que vai crescer achando que o corpo da mulher sempre deve ser olhado com retinas de sexualização, desprezo ou erro”, explicou a jornalista.

OUTRO LADO

Há quem acredite que a amamentação também é extremamente idealizada, como se todas as mães tivessem a obrigação de sorrir o tempo todo enquanto amamentam, muito bem arrumadas e com o sono em dia. Na prática, nós sabemos que é um pouquinho mais complicado que isso, né? O ensaio da fotógrafa Suzie Blake mostra justamente esse outro lado, mais real e não menos belo.

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