“Ele nem se preocupa com o quanto ganha. Eu sim”, diz o pai do jogador Neymar Jr. no livro Neymar – Conversa Entre Pai e Filho, que chega às livrarias pela editora Universo dos Livros em setembro. Na obra, o ex-camisa 11 do Santos e seu pai contam, em tom de confidência, os bastidores, histórias pessoais e detalhes da trajetória do atleta no futebol.

Organizada por Mauro Beting e Ivan Moré, a publicação passa ainda por temas como o filho do jogador, Davi Lucca, as rédeas curtas do pai do jogador quando o assunto é dinheiro – ele é também seu empresário – e as polêmicas envolvendo o Santos, clube que revelou Neymar antes de sua transferência para o Barcelona, na Espanha.

Uma das revelações feitas pelo pai é a de um acidente de carro quando Neymar J.r tinha apenas quatro meses de vida. No capítulo o pai fala sobre o medo de perder o filho recém-nascido. “Minha esposa e eu tínhamos quase certeza de que havíamos perdido nosso filho. Naquele desespero e com aquela dor insuportável na bacia, só consigo me lembrar de ter pedido ao Pai para que me levasse no lugar do Juninho”, conta.

Virgula revela, com exclusividade, um capítulo do livro. Leia abaixo:

Real Madrid

Dinheiro não aceita desaforo. Tem de guardar. Por isso, cuido das contas do meu filho de maneira cautelosa. Preciso deixá-lo livre para brilhar. O Neymar Jr. tem de jogar bola. Eu tenho de cuidar da parte burocrática para isso. Ele nem se preocupa com o quanto ganha. Eu sim. E trabalho para que ele prospere cada vez mais fora de campo. Do mesmo jeito que ele cresce cada vez mais dentro de campo. Não é ganância. É responsabilidade. Quero o melhor para meu filho, para a família dele, para nossa família. Por isso trabalho tanto por ele. Assim como ele tanto trabalha por nós. Desde que entrou no time principal do Santos, em 2009, e passou a ser muito assediado por todos, eu passei a controlar tudo ainda mais. Tudo o que ganha e tudo o que gasta. Brincava – falando sério – que, de vez em quando, eu dava uns dez reais para ele tomar sorvete. Era um pouco mais, mas não muito.

Para jogar bola é preciso ter os pés no chão e a cabeça no lugar. Para não se deixar levar por dinheiro em tão pouco tempo de vida e de carreira, é preciso ser cauteloso com o bolso. Desde os onze anos, Neymar Jr. já tinha contrato com o clube. Isso vale muito para nós. O reconhecimento que o Santos sempre teve pelo meu filho. E o dinheiro não vale mais que isso. Tanto que, em março de 2006, ele poderia ter se tornado jogador do Real Madrid. Mas ele não quis. Nós não quisemos. Quem trouxe a proposta do clube espanhol foi o nosso empresário, o Wagner Ribeiro, que nos foi apresentado pelo Betinho.

O Wagner, empresário de sucesso e muito respeitado em todo mundo, havia ficado impressionado com o talento do Juninho. Tanto que desde cedo apostou nele. Quando meu filho tinha cerca de doze anos, fomos ao escritório de outro famoso empresário do futebol, o uruguaio Juan Figer. Ele e o Marcel Figer, filho dele, passaram a cuidar do Neymar Jr. Acertamos o contrato, e o Wagner nos dava um dinheirinho por mês. Não era muita coisa, não. Mas juntando meu salário na CET e a ajuda de custo que o Santos ofereceu para que o Juninho continuasse no clube, dava uma boa melhora na nossa qualidade de vida e a minha esposa pôde parar de trabalhar.

Com a Nadine em casa, o Neymar Jr. já tinha alguém para fazer o almoço dele antes do treino. Ele não precisava mais esquentar sozinho a comida no forninho. Estava tudo se acertando. Até que o Wagner Ribeiro se desentendeu com o Santos Futebol Clube por conta da longa negociação da saída do Robinho para o Real Madrid. Diante dos acontecimentos, chegava gente dizendo que o Juninho não ficaria mais na Vila Belmiro se o Wagner continuasse nos empresariando. Foi difícil. O Neymar Jr. se esforçando nos jogos e treinos e algumas pessoas querendo tirá-lo do clube só por que o Wagner trabalhava comigo. Um absurdo! Eu não achava certo, pois o Wagner estava nos ajudando muito. Aprendi muito com ele. Ia direto ao seu escritório. Não era correto. Ele apostara no meu filho desde o comecinho. Estava fazendo muito por nós. Não era certo deixar de trabalhar com alguém por pressão de terceiros. Não era correto largar alguém só para me dar melhor. Não tínhamos nada a ver com os problemas dele com o Santos, e vice-versa. Mais que tudo: tínhamos um compromisso firmado e uma palavra honrada com nosso agente. Esse combinado vale mais que tudo.

É com lealdade que se vence também fora de campo. É com lealdade que se vence em qualquer campo da vida. Depois disso, quando Neymar Jr. tinha treze anos de idade, o Wagner Ribeiro deu um jeito de apresentá-lo ao Real Madrid. E fomos passear de avião pela primeira vez. Eu e meu filho passamos dezenove dias na Espanha. O Real Madrid fez uma proposta parecida com a que o Barcelona tinha feito pelo Messi quando garoto. Uma aposta no futuro. Eles levariam o Neymar Jr. para Madri, e ele cresceria na Espanha. Como homem e atleta. Pagavam muito bem por isso. Por um garoto de treze anos! Em seis dias na Europa, eu e o Juninho já não aguentávamos mais. Não conseguíamos comer mais nada.

Tudo era igual. Ou tudo era diferente para nós. Nessas horas, o sentimento paternal precisa entrar em campo. Eu tinha condição de aguentar a saudade de casa. Já passei muitas dificuldades na vida. Sou adulto. Homem feito. Mas meu filho era apenas uma criança de treze anos. Para mim, como para qualquer pai, ele era um bebê. Era e sempre será. Deixá-lo na Europa, ainda que ganhando bem, com potencial para fazer coisas ainda maiores, era uma violência para uma criança de treze anos. Na vida, tem vezes que é preciso pensar muito bem. Como pai e empresário do filho, é preciso pensar além. Saber dosar as coisas. Toda decisão tem lados bons e ruins. Não tem nada 100% nem 0%. É preciso equilibrar. É preciso ter a noção de que, algumas vezes, não estamos perdendo as coisas. Estamos apenas deixando de ganhá-las naquele momento. É muito importante ter isso em mente durante toda vida e para tudo. Deixá-lo na Europa, ainda que ganhando bem, com potencial para fazer coisas ainda maiores, era uma violência para uma criança de treze anos.

Foi o que aconteceu quando fomos para Madri. Deixamos de viver lá desde os treze anos do Juninho. Mas veja só o que ele conquistou, desde então, no Santos e no Brasil. E, agora, tudo o que vai conquistar no Barcelona. Valeu a pena! Quando penso no passado, percebo que fizemos as escolhas certas. E olha que não foi fácil dizer não. No primeiro dia, eles já botaram o Juninho para treinar. E como jogou bola! Em dezenove dias, ele marcou 27 gols nos treinos. Nos primeiros três dias, já tínhamos acertado tudo com eles. Contrato feito, tudo bonitinho. Escola para o Neymar Jr. e para a Rafaela. Tudo certinho. Só faltava a assinatura da mãe. A Nadine tinha passagem para vir para a Espanha comigo e com o Juninho, mas ela preferiu ficar em Santos com nossa filha.

Logo depois, não deu uma semana, o Juninho não parecia feliz. Bateu aquela saudade da nossa casa. Da nossa família, dos amigos, da escola, da cidade e do Santos Futebol Clube. Saudade de tudo. A comida era boa. Mas não aguentávamos mais de saudade do arroz e do feijão. Não tem dinheiro que pague isso. Vi o Neymar Jr. ficando triste a cada dia. O ambiente ficava cada vez mais difícil. Mesmo com tudo sendo facilitado para nós, achei que não era o momento. O Juninho concordou. E assim foi feito. Ficamos em Santos. Para nossa alegria, voltamos para casa. O coração decidiu. Não queria saber se estávamos deixando de ganhar muito dinheiro. Eu apenas queria que ele continuasse jogando bola feliz. E ele não estava feliz naqueles dias. Não havia dinheiro em Madri e no mundo que comprasse a felicidade do meu filho.

Nossa decisão foi pautada pelo Juninho. Eu percebi, como pai, a situação dele e falei para o Wagner Ribeiro e para o seu Zito, no Santos, que queríamos voltar. O Wanderley Luxemburgo também queria que o Juninho ficasse. Ele havia trabalhado no Real Madrid, em 2005, e estava justamente no Santos, em 2006. Ele ligou para o Wagner e convenceu o presidente Marcelo Teixeira a apostar na permanência do Juninho na Vila. Nós também tínhamos certeza de que teríamos novas propostas durante a carreira. Não era a hora. Não era o lugar. Não era o momento. Entendi, também, que Neymar Jr. precisava amadurecer em Santos, atuando no futebol brasileiro. Um dia iria para a Europa e aprenderia bastante. Mas ele precisava crescer na nossa casa, no nosso país. Muitas pessoas nos ligaram e vieram conversar com a gente, especialmente comigo.

Perguntaram se eu estava louco, delirando por não ter aceitado uma proposta da Europa. Muita gente teve a convicção de que nós havíamos perdido a oportunidade de nossas vidas. Só que muitos não entenderam que ela já havia sido dada por Deus. Desde que fez nascer esse menino… Mas, claro, para isso, para poder permanecer no Santos, era preciso negociar uma situação melhor para nós. Não havia dinheiro em Madri e no mundo que comprasse a felicidade do meu filho. Falamos, então, com o presidente Marcelo Teixeira. Ele nos chamou na Universidade Santa Cecília, em Santos. Conversamos e deu tudo certo. Aos treze anos, o Neymar Jr. já era um jogador iniciante bem-sucedido. E por dizer não ao Real Madrid, estávamos felizes em casa. Podíamos sair da nossa casinha em Praia Grande e comprar um apartamento melhor.

O Santos era mesmo a nossa casa. O primeiro apartamento que compramos foi na frente do clube. Foi um grande acerto para nós. Somos gratos a todos que intercederam e nos ajudaram. Em especial ao seu Zito. Agora, para falar a verdade, quando o Juninho assinou aquele contrato, lá na mesa da nossa casinha na Praia Grande, eu esperava que o seu Zito pagasse um rodízio na churrascaria para a gente, em nome do clube. Mas sabe como é, né… Ele, mão de vaca, só comeu as empadinhas que tinham sobrado do aniversário do Juninho! Nada de uma carninha. Ele resolveu atacar as empadinhas para agradar minha patroa. Grande Zito! Um amigo querido para todos nós. Mesmo quando ele fala que se jogasse contra o Neymar Jr. hoje, ele… Bem, melhor não publicar essa parte… Aos treze anos, o Neymar Jr. já era um jogador iniciante bem-sucedido. E por dizer não ao Real Madrid, estávamos felizes em casa.

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