Um novo livro sobre a vida de Mick Jagger revela que o guitarrista Keith Richards, companheiro do cantor na banda The Rolling Stones, inventava apelidos para o vocalista e “não suportava” sua postura autoritária. De acordo com a obra, Richards usava três apelidos para se referir a Jagger nos anos 1970: “madame”, “Brenda” e “majestade”.

Mick Jagger – O Mito aborda a trajetória do músico, que completou 70 anos em 2013 e tem mais de 50 anos de carreira. Bastidores de escândalos e curiosidades foram compilados na narrativa, cheia de referências à entrevistas e momentos icônicos da cultura pop.

Leia com exclusividade um capítulo do livro:

Cause I try, and I try, and I try

O hit que trouxe fama aos Stones. O segundo disco gravado em estúdio. Sucesso combinado com drogas e festas. A integração entre Mick Jagger e Keith Richards, os principais compositores da banda. A revolta e a queda de Brian Jones, o homem que queria ser líder dos Rolling Stones.

Keith Richards compôs a melodia de “(I Can’t Get No) Satisfaction” em uma madrugada, no apartamento localizado em Carlton Hill, St. John’s Wood . O local fica a poucos metros da Abbey Road e do Abbey Road Studios, onde os Beatles gravaram seu último álbum.

Mick Jagger contribuiu em “Satisfaction” escrevendo a letra em uma piscina em Clearwater, no estado norte-americano da Flórida, quatro dias antes da gravação (marcada para 12 de maio de 1965, no RCA Studios, em Hollywood). Dessa forma, o maior hit do começo da carreira dos Rolling Stones nasceu no Reino Unido mas foi finalizado nos Estados Unidos. A música chegou ao topo das paradas britânicas em setembro de 1965.

“Keith não queria que ela [Satisfaction] saísse como single. Foi a música que realmente fez os Rolling Stones, nos transformou de apenas mais uma banda para essa coisa monstruosa, enorme. Você sempre precisa de uma canção. Nós não éramos norte-americanos, e os Estados Unidos eram um grande negócio, e sempre quisemos conseguir as coisas aqui. Foi muito impressionante como aquela canção e a popularidade da banda se tornaram uma coisa internacional”, explicou Mick Jagger à revista Rolling Stone em 1995. “Para fazer isso, você precisava de uma canção; do contrário, você era apenas essas figuras no jornal, com alguns sucessozinhos.”

A letra de Mick se encaixou no que Keith Richards afirma ser uma “linha de trompa”: uma frase de guitarra elétrica que simula o som desse instrumento de metal. “Satisfaction foi uma colaboração típica entre Mick e eu na época. De maneira geral, posso dizer, eu criava a música e a ideia básica e Mick fazia o trabalho duro de preenchê-la e torná-la interessante. Não temos como dizer, em uma única frase, ele escreveu isso, fez aquilo”, explica Keith em sua autobiografia sobre o processo de composição da dupla.

Uma peculiaridade sobre “Satisfaction” é que a música explodiu em meados de 1965, principalmente nos Estados Unidos, mas os Stones deixaram de tocá-la por um tempo.

Só depois de ouvir a música ser interpretada pela diva do soul Aretha Franklin , Mick Jagger entendeu que o hit merecia uma nova interpretação e outro tipo de performance para funcionar no palco. Desde então, a música faz parte do repertório fixo da banda. A versão original de “Satisfaction” era mais lenta. Atualmente, a música é executada de maneira mais rápida, mais intensa e com mais distorção. A voz de Mick também ganhou mais destaque nas versões atuais.

“É uma canção de assinatura, porque é apenas uma coisa – um tipo de assinatura que todo mundo conhece. Ela possui um título bem grudento. Tem um grande som de guitarra, que era original na época. E ela captura o espírito de uma época, que é muito importante nesse tipo de música”, afirma Mick Jagger sobre a mensagem que “Satisfaction” transmite. O cantor também aborda uma mensagem específica da canção: “[O tema] era alienação. Ou talvez um pouco mais disso, mas um tipo de alienação sexual. Alienação ainda não é a palavra certa, mas é uma palavra que cabe”.

“Satisfaction” foi o 21º single dos Stones, lançado no dia 6 de junho nos Estados Unidos e no dia 20 de agosto no Reino Unido. Poucos meses antes, no dia 15 de janeiro, a banda havia lançado o segundo disco, The Rolling Stones No. 2. A capa do single é a mesma do álbum com os integrantes da banda juntos em uma foto escura. Mesmo com mais de vinte compactos lançados, a banda ainda tinha mais versões de outros músicos do que composições próprias nesse disco.

“You Can’t Catch Me”, de Chuck Berry, está no trabalho, assim como “I Can’t Be Satisfied”, de Muddy Waters. As gravações foram realizadas no Chess Studios (Chicago), no RCA Studios (Hollywood) e no Regent Sound Studio (Londres). No Reino Unido, The Rolling Stones No. 2 ficou dez semanas no topo das paradas em 1965, tornando-se um dos mais vendidos naquele ano no país.

 

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A Decca queria vender a imagem dos Rolling Stones como rivais dos Beatles. A banda era forçada a produzir material de maneira excessiva para atrair as atenções da mídia e do público. Foi dessa forma que, ainda em 1965, os Stones gravaram o álbum Out of Our Heads, lançado no dia 24 de setembro.

Mas a produção do disco havia começado no dia 2 de novembro de 1964, isto é, antes do lançamento de The Rolling Stones No. 2. No dia 30 de julho de 1965, o álbum Out of Our Heads foi disponibilizado pela gravadora London, uma parceira da Decca, nos Estados Unidos. Ou seja, este foi o primeiro disco dos Rolling Stones a ser lançado em terras norte-americanas antes de ser divulgado na Inglaterra. E somente a versão dos Estados Unidos possuía a música “(I Can’t Get No) Satisfaction”, o grande sucesso dos Stones naquele momento.

Os dois discos têm um total de doze faixas, mas a ordem dos covers e das músicas originais estão diferentes nos dois materiais. As capas também eram distintas, mostrando ângulos diferentes da banda.

Segundo Mick Jagger, Out of Our Heads ainda era pouco criativo em comparação a outros trabalhos da banda. “[Era] um monte de covers ainda. As pessoas trabalhando nele, os engenheiros, eram muito bons. Eles sabiam como tirar os melhores sons. Isso realmente afeta sua performance, porque você consegue ouvir as nuances, e isso te inspira”, explicou Mick.

Pela rapidez do processo de gravação, Out of Our Heads seria o princípio de mudanças em futuros trabalhos. Esse seria o último álbum com mais versões do que composições originais. O disco ficou no topo das paradas britânicas, perdendo apenas para Help!, dos Beatles, para o azar da Decca. No ranking Bilboard 200, nos Estados Unidos, o disco ficou em primeiro lugar.

Além dos dois materiais, os Stones lançaram um terceiro álbum no mesmo ano. December’s Children (And Everybody’s) foi lançado no dia 4 de dezembro de 1965. Suas gravações começaram logo depois do lançamento de Out of Our Heads no Reino Unido, entre os dias 5 e 6 de setembro. Esse disco foi lançado apenas nos Estados Unidos, com a mesma capa de Out of Our Heads na Inglaterra e com doze faixas que incluíam alguns materiais que a banda guardava desde 1963.

 

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Andrew Oldham contratou Allen Klein para ajudar na administração dos Rolling Stones. Com uma fala mansa, Klein assumiu o papel de outro produtor de Oldham, Eric Easton, que estava doente, e vendeu a imagem dos Stones como um negócio lucrativo dentro do ascendente rock’n’roll britânico. Allen Klein também centralizou a captação de dinheiro, comprando mansões, carros e tudo o que os integrantes dos Rolling Stones queriam com seu crescimento profissional.

Nessa época, Mick e Keith eram considerados uma “fábricas de canções” da banda. Muitas composições eram finalizadas e colocadas na gaveta, para serem lançadas por outros artistas ou em outros discos.

Mick Jagger pouco a pouco passou a incorporar em suas letras uma crítica à sociedade norte-americana que passaram a conhecer, além de retratar o familiar moralismo inglês. No dia 24 de novembro de 1963, após o assassinato do presidente John F. Kennedy, o vice-presidente Lyndon B. Johnson assumiu o cargo e iniciou a Guerra do Vietnã. A convocação da geração que cresceu nos anos 1950 para o conflito armado serviu como fonte de inspiração para os temas das músicas de Jagger.

Para Keith Richards, Linda Keith era a fonte de inspiração. Ela foi uma de suas primeiras namoradas, quando ele ainda não estava mergulhado nas drogas e nem nas turnês ininterruptas que marcariam a carreira dos Rolling Stones.

O guitarrista afirma em sua autobiografia que ela foi “a primeira [mulher] a partir seu coração”. Ela usava drogas pesadas, envolveu-se com produtores e cantores e chegou a mandar uma demo de Keith da música “Hey Joe” para  Jimi Hendrix , o guitarrista negro e canhoto com quem teve um relacionamento, e que faria sucesso com essa composição. O fim do relacionamento deixou Keith Richards tão triste que ele perambulou chorando pelo bairro de St. Johns Wood. Hendrix partiria o coração da moça, tempos depois.

 

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No número 6363 da Sunset Boulevart, em Hollywood, os Rolling Stones gravaram seu quarto trabalho. . Aftermath foi gravado entre os dias 3 e 8 de dezembro de 1965, no RCA Studios, onde a banda já havia gravado anteriormente. Após  uma pausa, os trabalhos foram retomados entre 6 e 9 de março. O álbum foi lançado no dia 15 de abril de 1966 no Reino Unido, e no dia 20 de junho nos Estados Unidos, com capas diferentes.

Aftermath tinha quatorze faixas na versão inglesa e onze na versão norte-americana. O material era 100% original, sem nenhum cover de Chuck Berry, Muddy Waters ou qualquer outro músico que Mick estivesse ouvindo naquela época. A proeza foi possível porque Mick Jagger e Keith Richards já tinham músicas prontas, finalizadas anos antes.

Nos Estados Unidos, o álbum foi marcado pela música “Paint It Black”, que se tornou um clássico dos Rolling Stones, tendo sido lançada primeiro como single no país, no dia 7 de maio de 1966. “Brian Jones, transformado agora em multi-instrumentista, tendo ‘desistido de tocar guitarra’, tocava cítara”, explica Keith Richards em sua autobiografia sobre o papel do outro guitarrista na canção de sucesso.

Jones sempre procurou outras abordagens na guitarra elétrica, como quando usava slide para tocar blues. Ao conhecer a cítara, foi um dos responsáveis por trazer música oriental para os Rolling Stones, assim como George Harrison fez com os Beatles mais ou menos na mesma época. “Ele podia pegar qualquer instrumento que estivesse por ali e tocar alguma coisa”, afirmou Keith, elogiando a versatilidade de Brian Jones.

A letra de “Paint It Black” ficou por conta de Mick Jagger. Mick diz que escreveu sobre o funeral de uma garota, dando um toque melancólico e provocativo para a composição. Keith Richards confirma a autoria de Mick Jagger em sua autobiografia. No entanto, o baixista Bill Wyman afirma que a composição foi um esforço coletivo, e não apenas da dupla Mick e Keith. E o próprio guitarrista afirma que não é possível dizer, com exatidão, quem fez o quê em cada música.

O fato é que, nesta canção, Wyman potencializou o som do contrabaixo com algumas notas de órgão. O baixista também colocou efeitos de overdub , editando o próprio som. Bernard Alfred “Jack” Nitzsche  foi quem tocou piano nesta música.

 

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Andrew Loog Oldham participou de outra produção em 1966 além do disco Aftermath : o filme Charlie Is My Darling, dirigido pelo cineasta britânico Peter Whitehead com ajuda do empresário dos Rolling Stones. Eles registraram a segunda turnê dos Rolling Stones pela Irlanda. A gravação mostra momentos da banda antes de “Satisfaction” começar a fazer sucesso.  Foi essa música que os guiou para o centro das atenções do show business.

“No palco existe algo sexual entre os espectadores e a banda”, diz Mick Jagger, no documentário. Charlie Is My Darling acerta em mostrar como Mick estava, aos poucos, tornando-se o líder do grupo devido a sua sintonia com o público. Suas danças no palco, inspiradas nos músicos negros norte-americanos, ganharam personalidade com seus trejeitos pessoais. Mick Jagger contribuiu, inclusive, para que uma geração de mulheres se livrasse de opressões de cunho moral na sociedade inglesa dos anos 1960.

“Eu não sou músico, eu apenas toco em uma banda”, afirma Keith Richards no mesmo documentário. O filme também mostra muitos registros de Brian Jones, que morreria poucos anos depois, e a calma e o bom humor de Charlie Watts, que contribuiu para o entrosamento e a sincronia entre todos os integrantes dos Rolling Stones. Embora seja um filme sobre os primeiros anos dos Stones, já revela os elementos que consagrariam a banda.

Charlie Is My Darling foi relançado pelo diretor Nathan Punwar no festival de filmes de Nova York, em 2012. O documentário foi restaurado para salvar uma memória importante sobre a carreira dos Stones, particularmente de Mick Jagger, registrando uma fase antes de o cantor se tornar o sex symbol do rock.

 

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Entre 1962 e 1966, os Rolling Stones emendaram uma turnê após a outra, ininterruptamente. Após quatro anos de shows, eles estavam exaustos. Brian Jones, embora não fosse o compositor principal, havia convencido o produtor Eric Easton de que era o líder do grupo e que mandava nos demais integrantes. Por esse motivo, Jones ganhava cinco libras por semana a mais do que os outros. Embora Brian Jones tocasse vários instrumentos, desentendimentos como esse foram alguns dos motivos fundamentais para o desgaste no relacionamento dos roqueiros.

O ego de Jones foi piorando com a fama; ele gostava da bajulação e do destaque que passou a ganhar na televisão e na imprensa. Ele se encontrava com celebridades norte-americanas como Bob Dylan, e se gabava diante de Mick Jagger e Keith Richards.

A autoria das canções passou a gerar disputas dentro da banda. Mick e Keith foram eleitos por Andrew Oldham como compositores, deixando Brian Jones enfurecido por ter sido posto de lado. Ele era obrigado a tocar o que seus amigos haviam composto e isso se tornou uma afronta. Com má vontade, Jones costumava abandonar Keith Richards no palco, e o guitarrista era obrigado a improvisar muito para preencher o lugar da segunda guitarra nas músicas ao vivo. Podemos dizer que os conflitos entre os integrantes foram benéficos para Keith desenvolver suas habilidades no palco.

Nas gravações, a ausência de Brian Jones resultou em truques de estúdio para que as músicas parecessem ter a mesma formação do começo dos Rolling Stones. A banda passou a incorporar o overdub como regra para alguns instrumentos, principalmente para a guitarra elétrica. Keith Richards passou a gravar tanto a parte dele quanto a de Jones.

Brian Jones passou a consumir ácido e outras drogas pesadas com um pessoal da cena underground do rock nova-iorquino. O guitarrista dos Stones conheceu Lou Reed e seus amigos, como John Cale, e também uma garota chamada Anita Pallenberg, que conheceu em setembro de 1965, em um show na cidade de Munique, Alemanha. Anita apresentou Brian Jones a outro grupo, os Cammells.

Em 1966, Keith Richards começou a freqüentar a casa de Brian Jones para se drogar com ele e Anita. Como Jones precisava de outro inimigo naquele momento, o alvo passou a ser Mick Jagger .

Na verdade, nessa época, o grupo todo mergulhou nas drogas. Começaram pela maconha, que relaxava para os shows e para um cotidiano de agenda cheia. Foi só depois de quatro anos quase ininterruptos de atividade que o ácido apareceu. Em meados de 1967, consumindo essa droga, Keith Richards começou a ter visões distorcidas da realidade, como relatou. “A coisa mais surpreendente que consigo lembrar sobre o ácido é observar aves voando – aves que ficavam voando em frente ao meu rosto e que não estavam ali de verdade”, explica o guitarrista, que foi um dos maiores consumidores de entorpecentes do período. Assim como Keith, Brian Jones foi um assíduo consumidor de ácido.A heroína também foi incluída no repertório de drogas da banda, assim como a cocaína, no final da década de 1960.

 

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As experiências psicodélicas, com influência de entorpecentes como o ácido, começaram a afetar os discos dos Stones após o fim dos shows ininterruptos. Between the Buttons teve aprimeira sessão de gravação entre 3 e 11 de agosto de1966. O mesmo material passou por uma segunda gravação entre 8 e 26 de novembro do mesmo ano. A última parte foi realizada no dia 13 de dezembro. O álbum foi lançado no dia 20 de janeiro de 1967.

O disco não foi tão bem quanto os anteriores, ficando em terceiro lugar nas paradas britânicas e em segundo na Billboard 200, nos Estados Unidos.

O crítico da Billboard Christopher Walsh, disse em 2002 que esse trabalho reflete um Rolling Stones “fatigado”. O pop feito pelo grupo se aproxima muito da sonoridade dos Beatles neste trabalho.

 

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No dia 12 de fevereiro de 1967, Keith Richards foi parado em uma batida policial junto com outros artistas e uma garota chamada Marianne Faithfull. As manchetes dos jornais estamparam “Garota nua em festa dos Stones”. Segundo Keith, eles faziam festas regadas a muito ácido, e o flagrante foi armado pelo jornal sensacionalista News of the World . Mick Jagger ameaçou processar a publicação. O incidente foi fruto do sucesso de suas figuras como celebridades e do excesso de entorpecentes.

Então os Stones decidiram sair do Reino Unido para buscar mais drogas. Passaram por Paris e Espanha. Keith Richards acompanhou Brian Jones, que não parava de brigar com sua namorada Anita. Jones sofria de asma e queria que ela cuidasse dele em tempo integral. Ele era agressivo e batia na mulher, que revidava e o deixava ferido após as brigas. Keith nutria sentimentos secretos pela namorada do amigo.

Até que Anita transou com Keith Richards no banco de trás de um carro Bentley em algum lugar entre Barcelona e Valência. Os dois tiveram um caso de amor que poderia ter causado o rompimento dos Rolling Stones se Brian Jones descobrisse. Jones, na época, sofria com os efeitos do consumo de ácido e havia contraído uma pneumonia, e foi se tratar em Londres. Quando Brian Jones encontrou novamente Mick e Keith, o relacionamento entre ambos estava fragilizado.

Certo dia, Jones brigou feio com Anita, ridicularizando-a diante de duas prostitutas. Anita resolveu fugir com Keith para Roma, na Itália. Mick Jagger havia partido com Marianne Faithfull antes. Jones ficou sozinho, indignado, e começou a namorar uma mulher chamada Suki Poitier.

Em Roma, Anita participou do filme Barbarella, com Jane Fonda, dirigido pelo marido da atriz, Roger Vadim. Na época, os Rolling Stones eram alvo de diversas batidas por porte de drogas, e chegavam a ficar um dia na cadeia. Os embates entre os roqueiros e a polícia resultaram em vários processos judiciais. “Isso era em 1965, 1966 – um breve momento de liberdade total. Nem pensávamos que o que fazíamos era ilegal”, diz Keith Richards em sua autobiografia. O constante pagamento de fianças garantia a liberdade dos Stones na época.

 

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Em 1967, os Stones gravaram o álbum Their Satanic Majesty Request, o sexto trabalho de estúdio do grupo. O trabalho de gravação e produção do novo disco ocorreu entre os dias 9 de fevereiro e 23 de outubro de 1967, com os músicos afetados pelo uso de ácido. O material foi lançado no dia 8 de dezembro.. A banda não queria gravar um disco, mas a gravadora Decca e os produtores pressionaram o grupo, que competia com Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band, lançado no mesmo ano.

Mas os Rolling Stones não fizeram feio. A capa de Their Satanic Majesty Request foi uma das primeiras do rock a ser feita com recursos 3D. O fotógrafo responsável pelo trabalho foi Michael Cooper, o mesmo profissional que fez as fotos de Sgt. Pepper’s.

“Até um ano ou dois, ele não era ninguém; agora, queria ser Phil Spector”, afirmou Keith Richards em sua autobiografia, sobre o gigante ego de Andrew Oldham em 1967. Por esse motivo, o produtor começou a entrar em conflito com Mick Jagger, que havia se tornado o líder da banda. Então Mick, com consentimento da banda, decidiu demiti-lo. Oldham não participou de Satanic Majesty.

“Todos os dias no estúdio eram uma loteria para aqueles que contribuíssem  com alguma coisa positiva, se tivessem. Keith poderia chegar com algo para dez pessoas, Brian com mais meia dúzia de coisas e era o mesmo para Mick. Eles tinham várias namoradas e amigos. Eu odiava isso! Daí, novamente, Andrew apenas desistiu daquilo”, disse Bill Wyman à Rolling Stone em 2002. A saída de Oldham ocorreu com consenso, mas isso não significa que o clima estivesse bom. Os Rolling Stones não estavam em sintonia.

Mesmo com todos esses problemas, o disco saiu com dez músicas originais, sendo “In Another Land” foi creditada ao baixista Bill Wyman. Anita Pallenberg, a garota que havia se envolvido tanto com Brian Jones como com Keith Richards, fez as vozes de fundo.

Their Satanic Majesty Request ficou em terceiro lugar nas paradas do Reino Unido, em segundo na Billboard 200 e estreou em primeiro lugar nas paradas da Austrália.

No Natal de 1967, Keith e Anita foram ao Marrocos. No país do norte da África, eles apreciaram haxixe e outras drogas, e Keith Richards contraiu hepatite, procurando tratamento em seguida.

Os Rolling Stones estavam sem rumo. Surgiram como uma banda de blues e, de propósito, fizeram músicas pop para alcançar a fama. Mergulhados no ácido, não haviam criado composições elaboradas para seu mais recente álbum, diferentemente do que havia acontecido com os Beatles. Mas a banda ainda passaria por diversas transformações.

 

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A entrada de Jimmy Miller na administração da banda após a saída de Andrew Loog Oldham foi providencial para provocar uma transformação nos Stones. Miller nasceu no Brooklyn, em Nova York, mas cresceu no oeste dos Estados Unidos. Os Rolling Stones não estavam certos sobre a contratação, mas mesmo assim resolveram fazer um ensaio sem muita pretensão em manter o executivo.

O entrosamento entre Jimmy Miller e Mick Jagger foi fundamental para permitir a entrada dele no negócio. Mick sentiu, logo no primeiro ensaio, que aquele deveria ser o homem a cuidar dos Rolling Stones. Miller havia trabalhado com o Blind Faith ,  banda composta pelos antigos integrantes do Cream, como Eric Clapton e Ginger Baker.

As músicas “Jumpin’ Jack Flash” e “Street Fighting Man” foram os dois embriões do sétimo álbum de estúdio dos Rolling Stones, Beggars Banquet. “Jumpin’ Jack Flash” não chegou a sair no disco, mas foi lançada como single no dia 24 de maio de 1968 no Reino Unido. A mesma música saiu no dia 1º de junho nos Estados Unidos.

Keith Richards afirma que o riff  de “Jumpin’ Jack Flash” é “‘Satisfaction’ ao contrário”. O guitarrista mostra, nessa música, a sua inspiração em melodias simples que tentam imitar instrumentos de metal, como o trompete.

Após o início dos conflitos no Vietnã, ocorreram protestos de estudantes da Sorbonne e da Universidade de Paris em maio de 1968. Muitos alunos foram expulsos das instituições durante a mobilização, e o movimento ganhou força significativa com a adesão dos trabalhadores franceses. Proletários e estudantes fizeram ocupações e greves gerais por conta dos problemas econômicos que a França enfrentava na época. A mobilização envolveu 11 milhões de trabalhadores e 22% da população francesa, quase provocando o colapso do governo do presidente Charles de Gaulle, segundo a Situationist International .

Essa onda de protestos influenciou os Rolling Stones. “Salt of the Earth”, a última música de Beggars Banquet, teve origem em uma ideia de Keith Richards de “beber em homenagem ao povo trabalhador”. Embora o guitarrista tenha dado o palpite inicial, os versos se desenvolveram com o trabalho de Mick Jagger. O tom contestador dos Stones cresceu nesse trabalho, que começou a trazer de volta elementos do blues que haviam unido a banda em seu início.

As músicas em si possuíam uma forte veia acústica, poucas eram rock’n’roll puro, mostrando que as influências dos Rolling Stones eram mistas.

Beggars Banquet foi gravado entre os dias 17 de março e 25 de julho de 1968, no Olympic Studios, em Londres. Foi um trabalho inteiramente britânico, embora o produtor fosse o norte-americano Jimmy Miller. Além de Mick Jagger ter atuado de forma proativa na criação dos versos das músicas, Keith Richards passou a testar afinações alternativas na guitarra, conseguindo novas sonoridades em seu instrumento. O álbum foi lançado no dia 6 de dezembro de 1968 tanto nos Estados Unidos como no Reino Unido. A Decca cuidou do lançamento britânico, enquanto a London foi responsável pelo lançamento no continente americano.

“Mick e eu desenvolvemos as canções. Colocamos nossa música naquilo. Beggars Banquet foi como sair da puberdade”, afirmou Keith Richards ao jornalista David Fricke, da Rolling Stone, em 2002.

Mesmo trazendo de volta a criatividade do grupo, o álbum ficou no terceiro lugar das paradas do Reino Unido e no quinto lugar do Billboard 200. No entanto, essas colocações eram apenas um reflexo do florescimento de bandas de rock inglês e norte-americano, do crescimento da psicodelia e da criatividade dos músicos da década.

Keith Richards revelou que seus ídolos no período eram John Lennon e Gram Parsons , compositor que morreu por consumo letal de morfina no dia 19 de setembro de 1973. “Qualquer carapuça que o business queira pôr em você é imaterial, é só um ponto de venda, um meio para tornar as coisas mais fáceis”, critica Keith em sua autobiografia. Essa atitude rebelde contra o que era geralmente aceito fez com que o guitarrista experimentasse afinações em sol e tirasse sonoridades pouco convencionais em seu trabalho. Esse espírito contestador também fez com que Mick Jagger agregasse um certo engajamento nas letras das músicas. Mas, por outro lado, os Rolling Stones ainda faziam parte do sucesso do rock’n’roll inglês, mesmo que soassem diferentes dos Beatles.

 

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Mick Jagger queria montar um evento organizado pelos Rolling Stones com outras bandas de rock. O cantor se aproximou do diretor Michael Lindsay-Hogg, responsável por vídeos de músicas dos Stones como “She’s a Rainbow” e “2000 Light Years from Home”, ambas de 1967. Mick então queria fazer uma mistura de concerto de rock com circo. Foi dessa forma que nasceu o filme The Rolling Stones Rock and Roll Circus, gravado no dia 11 de dezembro de 1968.

Mesmo estando cansados, os Stones gravaram músicas com artistas como The Who, Taj Mahal, Marianne Faithfull, Jethro Tull, John Lennon e sua mulher Yoko Ono. Surgiu, inclusive, a ideia de formar uma banda nova no meio do show. Ao executar a música dos Beatles “Yer Blues”, John Lennon tocou com Eric Clapton na guitarra solo, Mitch Mitchell (da banda The Jimi Hendrix Experience) na bateria  e Keith Richards no contrabaixo, uma escolha certamente inesperada. O “novo” grupo foi batizado de The Dirty Mac .

Antes de tocar “Yer Blues”, John Lennon foi apresentado pelo próprio Mick Jagger, acabando com a imagem dos Beatles e dos Rolling Stones como inimigos. “John, eu gostaria que você falasse sobre seu novo grupo, The Dirty Mac”, pede Mick com uma voz suave, antes da apresentação, enquanto John Lennon come. Lennon explica de onde vieram todos os músicos. Ao vivo, o Dirty Mac soou como um supergrupo formado pelos melhores instrumentistas do rock e do blues dos anos 1960.

Mesmo com a qualidade das apresentações, os Stones vetaram o lançamento de The Rolling Stones Rock and Roll Circus pela BBC. O vídeo só foi lançado oficialmente em 1996.

 

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Jean-Luc Godard era um dos fortes nomes no movimento francês conhecido como Nouvelle Vague, que criticava os padrões de qualidade do cinema dos anos 1950 e 1960. Depois de questionar a política americana e a Guerra do Vietnã, Godard resolveu dirigir um filme chamado Sympathy for the Devil, sobre as gravações dos Rolling Stones.

Embora o filme mostre os Stones criando uma música, Godard também retrata  mensagens de crítica social e de defesa ao marxismo, mostrando grupos de negros ativistas norte-americanos em atividade. “O filme foi um monte de bosta total – as mulheres na ponte do Tâmisa, o sangue, a cena medíocre de alguns irmãos, quero dizer, Panteras Negras, apontando armas uns para os outros de maneira desajeitada em um ferro-velho em Battersea”, opinou Keith Richards em seu livro.

O cineasta também chegou a causar um incêndio no Olympic Studios, em Londres, ao colocar papel higiênico perto de lâmpadas quentes. Seu filme foi registado em cores.

Os Rolling Stones gravaram entre os dias 4 e 5 de junho a primeira tomada do single “Sympathy for the Devil”. Uma segunda etapa ocorreu entre os dias 8 e 10 de junho.

Ao contrário do equilíbrio de outras canções, “Sympathy for the Devil” teve uma participação muito maior de Mick Jagger na composição, mesmo a música tendo sido assinada como Jagger/Richards. Mick foi influenciado pela leitura de Charles Baudelaire. “Foi uma ideia que eu peguei da escrita francesa”, afirmou Mick Jagger à Rolling Stone em 1995. Embora não seja explícito, o cantor assume o papel de narrador e o de Lúcifer na canção. Essa interpretação fica clara no trecho: “Diga-me amor, qual é o meu nome?” .

Mick Jagger também se inspirou nas canções folk de Bob Dylan. A principal intervenção de Keith Richards nessa música  foi a mudança de tempo com uma percussão adicional. Segundo os próprios Rolling Stones, essa alteração transformou uma composição acústica em um samba.

“Sympathy for the Devil” e o álbum Their Satanic Majesty Request alimentaram rumores de que os Rolling Stones eram praticantes de uma religião demoníaca. Como Mick Jagger foi o principal compositor de “Sympathy”, ele estava diretamente envolvido com essas notícias e suposições sobre a banda. A polêmica ajudou os Stones a se tornarem ainda mais populares.

“Eu achei que era tudo uma coisa muito estranha, porque era só uma música. Não era como se fosse um álbum inteiro com vários sinais ocultos. As pessoas pareciam abraçar a imagem tão facilmente. Aquilo abriu o caminho para bandas de heavy metal de hoje”, explicou Mick Jagger, em uma entrevista à revista Creem . Para Mick, a música acabou se tornando uma inspiração para subgêneros do rock, que passaram a abusar de música pesada e de referências ao ocultismo. As gerações das décadas de 1970 e 1980 cresceram imersas em um gênero denominado metal.

Keith Richards deu uma entrevista reveladora à Rolling Stone em 1971 sobre o impacto que “Sympathy” havia provocado na crítica e nos próprios Stones. “Antes, nós éramos as crianças inocentes que apenas se divertiam por um bom tempo. Agora, eles estão dizendo: ‘Eles são maus, eles são o mal’. Ah, eu sou mau, realmente?”, perguntou, ironicamente, o guitarrista. Keith não fez apenas uma análise sobre a repercussão da música na banda, mas questionou as acusações da mídia. “Então, isso faz a gente começar a pensar sobre o mal… O que é o mal? Metade disso, eu não sei o quanto as pessoas pensam em Mick como o diabo ou apenas como um artista de rock bom ou o que mais?”, disse o músico sobre a fama que Mick Jagger ganhou com a canção, causando controvérsia. “Há magos negros que pensam que estamos agindo como agentes desconhecidos de Lúcifer e outros que pensam que são Lúcifer. Todo mundo é Lúcifer”, complementou o guitarrista.  A entrevista causou polêmica, sobretudo a última frase.

Em 1995, também para a Rolling Stone, Mick explicou detalhes sobre “Sympathy for the Devil” que esclareceram em parte a polêmica que a música gerou em seu lançamento. e também suas características peculiares.

Mas as polêmicas dos Rolling Stones no período não ficaram apenas em “Sympathy for the Devil”. “Street Fighting Man” chamou atenção em fevereiro de 1969, por incentivar a revolta nas ruas ao mesmo tempo em que ocorriam protestos contra o Vietnã e a favor dos estudantes de Paris. “Eram tempos muito estranhos na França. Mas não só na França como também na América, por causa da Guerra do Vietnã e esses conflitos sem fim”, disse Mick Jagger ao editor Jann Wenner, o criador da revista Rolling Stone.

 

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Em 1969, os Beatles estavam em crise. Nos primeiros anos da banda, Brian Epstein foi um executivo bem-sucedido ao vender a imagem de John, Paul, George e Ringo como a renovação do rock’n’roll, agora vindo do Reino Unido. Epstein morreu de overdose no dia 27 de agosto de 1967, após anos de tratamento contra seu vício em anfetaminas. O agente dos Beatles tinha insônia e usava drogas para diminuir os efeitos do cansaço.

Brian Epstein era muito próximo de John Lennon, e sua morte repentina, aos 32 anos, foi provocando, aos poucos, uma transformação nos “Fab Four”. Em 22 de novembro de 1968, o quarteto de Liverpool lançou o disco duplo The Beatles, mais conhecido como “o álbum branco”, por não ter absolutamente nada na capa a não ser o nome da banda. O trabalho exibiu a musicalidade desconstruída de John Lennon, que agora estava influenciado por sua nova esposa, Yoko Ono. As tentativas de Lennon de mudar drasticamente o rock dos Beatles começaram a causar problemas entre ele e Paul McCartney, autor de boa parte das canções. George Harrison e Ringo Starr estavam se sentindo deixados de lado.

Yellow Submarine foi lançado no dia 17 de janeiro de 1969 e foi outro sucesso comercial, mas os problemas internos da banda permaneciam. O desastre viria com um projeto chamado Get Back, cujas gravações ocorreram em fevereiro de 1968 e entre janeiro e fevereiro de 1969. Os quatro músicos não se entendiam no estúdio e Yoko Ono intervinha nas participações de Lennon, diante de todos os integrantes. As brigas foram gravadas e liberadas para os fãs depois. Então, os Beatles desistiram de Get Back e começaram a gravar outro trabalho entre fevereiro e agosto de 1969. O resultado foi Abbey Road, lançado no dia 26 de setembro de 1969.

Assim como os Beatles, os Rolling Stones também enfrentavam uma crise nessa época, mas de natureza muito diferente. O oitavo disco de estúdio, Let It Bleed, seria gravado em duas sessões diferentes: uma em novembro de 1968 e outra entre fevereiro e novembro de 1969. O material foi criado no Olympic Studios, em Londres.

Em dezembro de 1968, os Stones pegaram um navio de Lisboa até o Rio de Janeiro. Foi a primeira vez que Mick Jagger e seus amigos pisaram em terras tupiniquins, e também aproveitaram para conhecer outros países da América do Sul, como o Peru. Mal sabiam eles que retornariam ao Rio praticamente quarenta anos depois, para fazer a maior turnê da história.

No Equador, perguntaram o que Mick e Keith queriam fazer na viagem. Eles não sabiam o que responder, mas o cantor disse uma frase que ficaria famosa: “Nós somos os Glimmer Twins ”. O termo seria usado pela dupla de músicos em seus futuros trabalhos.

Mick e seus amigos estavam consumindo heroína na época, uma droga pesada e que em pouco tempo substituiu o ácido, que trazia efeitos colaterais indesejados. Artisticamente, todos estavam produtivos na época em comparação ao período de desentendimentos com Brian Jones e de problemas com Andrew Oldham na administração da banda. Pelo menos três músicas de Let It Bleed transformaram-se em hits: “Gimme Shelter”, “You Got the Silver” e “You Can’t Always Get What You Want”. O disco ainda tem “Love in Vain”, um cover de Robert Johnson, retomando as raízes dos Stones no blues.

“Foi um período muito produtivo e criativo, Beggars Banquet, Let It Bleed – algumas boas músicas foram compostas, mas nunca achei que as drogas, per se, tiveram muito a ver com eu ser produtivo ou não”, afirma Keith Richards em sua autobiografia, defendendo que o uso de entorpecentes não alterou significativamente seu processo de composição.

Mas se as drogas não estimulavam novas músicas, elas certamente eram parte dos momentos dos Rolling Stones fora do estúdio. . Os roqueiros começaram a causar polêmica na imprensa ao virarem notícia com suas extravagâncias. “Não procurava na heroína uma ajuda ou uma depreciação para o que estava fazendo. Nunca acreditei naquela bosta sobre tantos saxofonistas tomarem drogas por acharem que foi isso que tornou Charlie Parker  grande como foi”, completa Keith. Mesmo negando grande dependência de heroína, Keith levou outros músicos para o caminho das drogas. Um dos seus admiradores era John Lennon, que costumava beber e se drogar junto com o guitarrista. Lennon não aguentava a mesma carga de entorpecentes de Keith Richards e passava mal.

No começo de 1969, Brian Jones ainda tocava alguns instrumentos e gravava com os Rolling Stones. No entanto, após as brigas por mulheres e pela liderança da banda, ele foi progressivamente se afastando do grupo. Em Let It Bleed, ele toca uma harpa em “You Got The Silver” e fez a percussão em “Midnight Rambler”. A versatilidade do músico estave presente até o último trabalho de Jones com os Stones.

Em maio daquele ano, Mick Taylor entrou na banda no lugar de Brian Jones, tocando guitarra elétrica com Keith Richards. No final de junho, poucas semanas antes de uma fatalidade, Mick Jagger e Keith foram até a casa de Jones em Winnie-the-Pooh, Cotchford Farm, que tinha pertencido ao escritor A. A. Milne  antes de o roqueiro dos Stones comprá-la. Mick disse: “Olha, Brian… Acabou tudo, meu amigo”.

Brian Jones morreu no dia 3 de julho de 1969. “Existe uma gravação conosco tocando um minuto e meio de ‘I don’t know why’, uma música de Stevie Wonder, e sendo interrompidos pelo telefonema contando que Brian tinha morrido”, disse Keith Richards em sua autobiografia. Jones estava brigado com Mick Jagger por ele ter sido promovido a líder da banda. As brigas se transformaram em outros desentendimentos, principalmente entre Brian Jones e Keith Richards, por causa das mulheres que acompanhavam a banda.

Na madrugada do dia anterior, 2 de julho, Brian Jones usou sedativos e pulou na piscina. O instrumentista dos Rolling Stones tinha asma, problemas no fígado e pleurisia, condição de o coração ser maior do que o normal. Seus problemas de saúde camuflavam uma suposta tolerância maior a drogas, o que fez com que ele consumisse diversos entorpecentes após brigar com os outros integrantes dos Stones. O corpo foi encontrado sem vida em sua casa na Inglaterra.

Assim que foi encontrado morto, surgiram rumores de que se tratava de um suicídio. Durante o enterro, um homem chamado Frank Thorogood teria confessado ter matado Brian Jones afogando-o na piscina. O caso de Frank só foi parar na imprensa em 1993. Em 2008, a publicação Mail on Sunday afirmou que Brian Jones havia brigado com Frank, citando fontes da polícia. Mesmo com a revelação, o processo da morte do ex-Rolling Stone não foi reaberto. Keith Richards afirma não saber o que realmente aconteceu.

“Não, eu realmente não me sinto culpado [pelo que aconteceu]. Acho que eu me comportei de uma maneira muito infantil, mas nós éramos muito jovens naquela época, e, em alguns aspectos, nós aporrinhávamos ele. Infelizmente, ele era um alvo fácil. Ele era muito, muito ciumento, muito difícil, muito manipulador”, disse Mick Jagger sobre a morte de Brian Jones ao editor Jann Wenner, em 1995. E a vida continuou para os Rolling Stones.

“Acho que eu me comportei de uma maneira muito infantil, mas nós éramos muito jovens naquela época.”

Eles tocaram no Hyde Park no dia 5 de julho, dois dias depois do falecimento de Jones. O show foi gratuito e atraiu cerca de meio milhão de pessoas. O concerto havia sido planejado meses antes para apresentar Mick Taylor, mas Mick Jagger resolveu também homenagear Jones. Mick leu trechos de um poema chamado “Adonais”, uma peça criada por Percy Shelley para homenagear a morte de seu amigo John Keats, também poeta, que  morreu de tuberculose. A banda abriu o concerto com a música “I’m Yours and I’m Hers”, de Johnny Winters, uma das favoritas de Jones. “Queríamos nos despedir dele em grande estilo. Os altos e baixos com o cara são uma coisa, mas quando ele termina seu tempo, solte as pombas, que neste caso foram sacos repletos de borboletas brancas”, disse Keith Richards, sobre a morte do amigo.

O guitarrista Pete Townshend, fã de Brian Jones, fez uma poesia chamada “A Normal Day for Brian, A Man Who Died Every Day”, publicada  no jornal The Times. Jim Morrison, do The Doors, também escreveu um poema chamado “Ode to L.A. While Thinking of Brian Jones, Deceased”. Jimi Hendrix dedicou uma performance na televisão à Brian Jones. Hendix e Morrison morreriam tempos depois, também com 27 anos, a mesma idade de Jones quando faleceu.

Let It Bleed, que seria lançado após a morte de Brian Jones , tinha nove faixas e ficou primeiro lugar das paradas britânicas, mostrando a retomada da popularidade dos Rolling Stones, mesmo após o trágico acontecimento. No ranking norte-americano da Billboard Pop Albuns o material ficou em terceiro lugar.

No Reino Unido, Let It Bleed só foi superado por Abbey Road, o último álbum ao vivo gravado pelos Beatles.

 

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“(I Can’t Get No) Satisfaction” surgiu quando os Rolling Stones estavam começando a amadurecer como banda, em 1965. Antes da gravação oficial, em 12 de maio, a banda tinha um registro da mesma música com algumas diferenças. “Satisfaction” foi gravada pela primeira vez no Chess Studios, em Chicago, no dia 10 de maio de 1965, com Brian Jones na gaita, instrumento normalmente tocado por Mick Jagger.

Nessa composição, assim como em “Paint It Black”, nota-se um grande entrosamento entre Brian Jones e todos os outros integrantes dos Rolling Stones. Jones era um instrumentista habilidoso, mas que se tornou vítima de suas ambições e do abuso de  drogas.

Nessas duas músicas, também podemos conferir o dom de Mick Jagger com as letras. “Satisfaction” pode ter um significado de protesto, demonstrando que a geração de roqueiros dos anos 1960 estava profundamente inquieta sobre a política no mundo. Outra interpretação afirma que a música tem uma conotação de falta de satisfação sexual.

As músicas mostravam a conexão de Mick com o público, e o “algo sexual”que existe nesse diálogo. No entanto, isso não seria possível sem o conhecimento instrumental de Brian Jones nos primeiros anos de carreira. E nem sem o entrosamento do cantor dos Rolling Stones com Keith Richards, o guitarrista companheiro de composições.

Heavy metal e Rolling Stones

O metal surgiu entre o fim da década de 1960 e o começo dos anos 1970 como um subgênero do rock’n’roll. Não há uma data certa para o começo do heavy metal, mas a transformação de algumas bandas e de alguns intérpretes do estilo dão pistas de como os roqueiros começaram a tocar pesado.

“Sympathy for the Devil” foi lançado como single no Japão em 1969 e em 1973 na Europa continental. O processo de gravação da música foi registrado em um documentário dirigido pelo cineasta Jean-Luc Godard, em 1968. A composição dos Rolling Stones abre o álbum Beggars Banquet, também lançado em 1968.

Mick Jagger escreveu e compôs boa parte de “Sympathy”. Coube a Keith Richards mudar o tempo da composição, transformando-a quase em um samba. As referências ao diabo nessa obra dos Stones serviram de referência aos primórdios do heavy metal, que também passou a abordar temas como o ocultismo.

A mobilização em torno do festival de Woodstock, que ocorreu entre os dias 15 e 18 de agosto de 1969,  também ajudou a criar o metal, apesar de ter colocado em evidência os hippies, praticantes de um movimento que pregava “paz e amor”, sexo livre e pacifismo na sociedade conservadora dos Estados Unidos, que defendia a Guerra do Vietnã. Entre os músicos, destacaram-se atrações como Carlos Santana, Grateful Dead e The Who.

Outro dos criadores do heavy metal também estava no Woodstock: Jimi Hendrix,  que fez sucesso no rock tocado tradicionalmente por brancos. Hendrix abusou de efeitos de wah-wah nas guitarras e também simplificou os acordes, utilizando uma técnica consagrada e simples chamada “Power Chords”. É importante também lembrar que Hendrix aproveitou o máximo da potência dos amplificadores do engenheiro inglês Jim Marshall. Jimi utilizava as caixas de som com o máximo de saturação, dando todo o peso que seria reconhecido como heavy metal posteriormente, nos anos 1970.

O trio de músicos do Cream, formado por Eric Clapton, Ginger Baker e Jack Bruce, foi um dos grupos pioneiros do metal. Em músicas como “White Room”, o virtuosismo da guitarra de Clapton ganha outros ares com a batida agressiva de Baker e a voz potente de Bruce. Ginger Baker e Jack Bruce brigavam muito, mas o Cream contribuiu para disseminar as vantagens das improvisações na música. Além de tocar quase como uma banda de hard rock, eles também tinham a semente do rock progressivo, que explorava o aperfeiçoamento técnico dos músicos.

O primeiro uso documentado na imprensa da palavra heavy metal foi do jornalista Barry Gilfford, em 1968. O termo foi usado em um artigo sobre a banda Electric Flag na revista Rolling Stone, descrevendo o som do grupo como “um blues branco e um heavy metal rock”. Outro crítico da mesma publicação, Mike Saunders, usou o termo em 1970 para explicar que a banda Humble Pie tinha músicas “altas e barulhentas” que o desagradaram.

Por fim, o último grande nome da imprensa a ser mencionado é o de Lester Bangs, da revista Creem e também da Rolling Stone. Acompanhando de perto os novatos do Black Sabbath e do Led Zeppelin, Lester difundiu o novo estilo musical pelo mundo em dezenas de artigos.

Em 1968, o Led Zeppelin surgiu do sucesso que o guitarrista Jimmy Page fazia com os The Yardbirds, unindo também o talento do baterista John Bonham, do baixista John Paul Jones e do vocalista Robert Plant. Excursionando pelo mundo, o Zeppelin ganhou fama como banda de rock pesado, mas sem nunca perder suas raízes do blues. O tipo de música que a banda de Page fazia tinha raízes muito similares a dos Rolling Stones.

Deep Purple também foi outro nome importante para formação do heavy metal. A banda surgiu de uma iniciativa diferente, de um projeto chamado Roundabout. Nesse grupo, os músicos trocavam de instrumentos. O grupo acabou evoluindo para uma banda de rock com influências eruditas. O Purple atingiu popularidade nos anos 1970, consolidando o tecladista e especialista em órgãos Jon Lord, o baterista versátil Ian Paice, o baixista Roger Glover, o vocalista que abusava de agudos Ian Guillan e o guitarrista com influências de música erudita Richie Blackmore. Mas não foi somente essa formação que ganhou destaque, revelando outros músicos nas diversas trocas de integrantes, como o vocalista David Coverdale, o baixista e vocalista Glenn Hughes e o segundo guitarrista de maior sucesso na banda, Steve Morse. Entre reuniões e brigas, o Deep Purple marcou toda uma geração com complexas composições, que iam das notas básicas de músicas como “Smoke on the Water” até solos instrumentais extensos na guitarra.

O metal se firmou como um estilo musical no Reino Unido. O Black Sabbath surgiu em 1970, com nome inspirado em um filme de terror B. Tony Iommi, Geezer Butler, Bill Ward e Ozzy Osbourne trouxeram músicas obscuras, com temas como magia negra, muito polêmicas na época. O estilo do Sabbath imitava um pouco os Rolling Stones em “Sympathy for the Devil”. Assim como o Purple, o Black Sabbath teve outras formações, devido a brigas dos integrantes originais, que revelaram músicos expressivos como o cantor Ronnie James Dio e o baterista Vinny Appice. A banda não trazia somente o sombrio, o épico e o satânico nas canções, mas traduzia também, em obras como “War Pigs”, a realidade dos próprios músicos, vindos da cidade operária de Birmingham, Inglaterra.

Os cabelos longos dos integrantes do Black Sabbath e suas roupas pretas definiram a estética do heavy metal para os próximos anos. Bandas como o Led Zeppelin, o Deep Purple e o Black Sabbath deram forma a esse subgênero do rock.

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