Realizar o sonho da casa própria – ainda que alugada – não é tão simples como na teoria. Se você já embarcou na aventura que combina imobiliárias, anúncios de jornal e aplicativos, sabe que a busca por um apartamento envolve ciladas e muitas decepções, também. Para morar por conta própria em São Paulo, onde o metro quadrado mais caro da cidade fica no bairro de Vila Nova Conceição, por R$ 16.124,00 reais, é preciso praticar o desapego. Desapego do conforto, do metrô perto de casa, do bairro arborizado e seguro… Isso porque o preço de morar só é mais salgado do que o bolso é capaz de tolerar, na maioria das vezes.

Déborah Dias com a gatinha Kate, em dia de mudança: "morar junto resolve o problema da solidão"

Arquivo pessoal Déborah Dias com a gatinha Kate, em dia de mudança: “morar junto resolve o problema da solidão”

Economia, porém, não é o único incentivo de quem tem optado pelo avesso da lógica da solidão paulistana. A tendência de dividir moradia ganhou até nome em inglês: coliving. O ator Ivan Capúa morou sozinho por 15 anos na capital paulista, isolado em uma bolha tal qual um “ermitão”, como ele mesmo gosta de dizer. A kitnet pouco iluminada no centro da cidade tinha um clima pesado e desanimador. Ivan não conseguia receber amigos ou visitas por muito tempo, já que não se sentia confortável com a situação em casa.

“Era uma vibe pesada, mesmo. Tinha dias em que precisava pedir licença para traficante para conseguir entrar no meu prédio. Então, já vinha pensando que seria legal voltar a dividir apartamento porque me sentia muito sozinho e para baixo em casa”, lembra ele.

Além disso, seria possível gastar o valor equivalente em algo maior, com a ajuda de outras pessoas. Hoje, Ivan mora com mais um amigo em um daqueles apartamentos antigos do centro, espaçosos e bem iluminados. “Meu quarto é do tamanho da antiga kitnet”, avalia o ator.

Ter o próprio cantinho e, ainda assim, dividir o lar com mais gente foi o grande atrativo para a publicitária Déborah Dias, que desistiu de morar sozinha quando a solidão falou mais alto. Natural de Goiânia, Deborah deixou familiares e amigos na capital de Goiás, o que tornou a vida em São Paulo um pouco mais solitária que o normal.

“Passei um ano morando só e foi uma experiência muito boa, de poder compreender meus hábitos e minhas vontades. A melhor parte era a individualidade nas escolhas. Onde dormir, o que comprar e não comprar, quem levar para casa… São decisões que estão inteiramente por sua conta. A parte chata é não dividir nada com ninguém, nem mesmo as contas, os problemas de alguma coisa que quebrou, por exemplo. E, no meu caso específico, acabei ficando muito fechada em casa. Não costumava sair e diminuí muito minha interação social por conta disso”, conta.

Quando dois amigos do trabalho convidaram Deborah para dividir o apê, não houve qualquer dúvida. Agora, ela tem um quarto só seu, com banheiro separado. Como na casa de Ivan, a regra que impera entre os moradores é a do bom senso, ou seja: respeito e zelo pelos cômodos que são utilizados por todos, da sala de estar à lavanderia. Nada muito complicado ou autoritário, no geral. Bateu a vontade de fazer o mesmo e entregar as chaves do lar solitário?

Veja abaixo 5 vantagens de quem já vive essa experiência:

1 – Companhia: tem dia que é bom chegar em casa e ter alguém para falar do absurdo do WhatsApp ter sido bloqueado, por exemplo. Na casa de Ivan, cada um tem uma rotina específica, o que não impede de rolar, vez ou outra, aquele almoço ou jantar compartilhado. Quando a energia não está muito legal, porém, cada um tem a liberdade de ficar no próprio quarto, sem crise ou grandes abalos. Melhor do que viver falando com as paredes, né?

2 – Custo-benefício: não dá para exigir muitas regalias em termos de moradia com um orçamento curto em São Paulo, principalmente em tempos de crise. Com duas ou mais pessoas, porém, é possível escolher apartamentos antigos e espaçosos , já que a divisão de contas alivia o saldo bancário no fim do mês. Imagine só bancar, por conta própria, o aluguel de uma casa legal e bem localizada, água, luz, internet, diarista, supermercado… Difícil.

3 – Maturidade: ninguém é o mesmo depois de uma temporada solo, pode acreditar. Quando saímos da casa dos pais, é uma coisa; quando voltamos a morar com outras pessoas, porém, tudo se torna mais fácil, descomplicado. A maturidade dos anos e experiências traz tolerância e compreensão no ambiente compartilhado. Você entende que não é legal deixar pratos sujos na pia por muitos dias, por exemplo. Por outro lado, aprende que lavar uma colher que ficou esquecida na pia também não requer grandes sacrifícios, sem dor de cabeça. A convivência se torna mais simples e prazerosa para todo mundo.

4 – Organização e limites: sabe aquela mania chata que você tinha de adiar a faxina? Morando com outras pessoas, não tem conversa. Além de respeitar o espaço alheio e contar com um cantinho só seu, dividir o apê permite que você se “policie” mais na hora de cuidar das tarefas domésticas – o que é um ponto positivo, vamos combinar. A roupa não fica esquecida no varal por dias, tampouco a louça suja do fim de semana na pia, às moscas. Isso se todo mundo estiver de acordo quanto à importância da limpeza, claro.

5 – Parceria: vocês não dividem apenas as contas, mas um lar e todas as “barras” e complicações que fazem parte dessa decisão. Por isso, é possível descobrir parceiros, irmãos e amigos para a vida toda depois de morar junto. É como um test-drive, mesmo. E nada melhor que poder confiar em quem mora com a gente, certo? Morar sozinho pode até ser mais fácil, já que não é preciso encarar ou tentar entender as manias e loucuras do outro. Mas não tem graça, definitivamente.

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