Cycle Chic: Veja fotos do movimento pelo mundo

O movimento Cycle Chic nasceu na Dinamarca, em 2007

Bicicleta, salto alto e vestido é uma combinação estranha pra você? Imaginar-se de terno e gravada em cima de uma magrela é algo que jamais passaria pela sua cabeça? Pois então você nunca ouviu falar do movimento Cycle Chic, que surgiu em 2007 em Copenhagen, na Dinamarca, quando o jornalista e fotógrafo Mikael Colville-Andersen criou um blog para mostrar fotos do cotidiano de quem andava de bike em sua cidade.

Ao retratar os ciclistas dinamarqueses, Mikael acabou revelando uma série de fashionistas sobre duas rodas, que abriam mão do uniforme e dos acessórios de ciclista para desfilar por aí a moda que usavam no trabalho, na balada, enfim, no dia-a-dia. O retorno foi tão positivo que ficou claro que havia um movimento se iniciando ali. Logo, a ideia de inserir completamente a bicicleta – como meio de transporte – na rotina das pessoas ganhou o mundo e se espalhou por diversos países, incluindo o Brasil.

Para entender melhor essa história, o Virgula Lifestyle conversou com três entusiastas do movimento em terras paulistanas. Só de ouvi-los falar sobre a liberdade de sair pela cidade – sobre duas rodas – e muito bem vestido, já dá vontade de pelo menos experimentar. Veja se você não concorda:

“Se você se troca no trabalho, não dá para achar que o jeans e camisa ficaram ruins e mudar pra um vestidinho”
Verônica Mambrini, 26, autora do blog Gata de Rodas, versão paulistana do Cycle Chic
 
Como você conheceu o movimento Cycle Chic?
Achei o blog Copenhagen Cycle Chic navegando entre links sobre bicicleta. Na época, eu já pedalava e começava a ir para o trabalho de bike. Ia com roupas de lycra e me trocava no destino. O problema é que isso dá muito trabalho. Mulher nem sempre fica satisfeita com a primeira escolha de roupa, certo? Além dos acessórios, maquiagem, perfume… Se você se troca no trabalho, não dá para achar que o jeans e camisa ficaram ruins e trocar por um vestidinho. Comecei a experimentar ir com roupas comuns, como calça, sapatilhas e camisetas no começo, e deu certo. Aos poucos, fui integrando o guarda-roupa inteiro.
 
Qual a reação das pessoas ao ver você andando de bike toda produzida?
No geral, são muito simpáticas. Muita gente sorri espontaneamente, às vezes menininhas acenam do banco de trás do carro dos pais (eu buzino de volta, com o trim-trim!). Se tenho flores na cestinha, é certeza que alguém vai parar por um segundo e sorrir. De vez em quando, outro ciclista puxa papo quando emparelha no farol fechado, às vezes ouço uma cantada… a vida de bike na cidade é cheia de “amigos anônimos”. Felizmente, não ouço muitas críticas nem grosserias na maior parte do tempo.
 
Existe um movimento consolidado no Brasil?
Como as pessoas estão se acostumando com da ideia que a bike é transporte e não brinquedo ou objeto de lazer, ela passa a fazer parte do cotidiano. Quem se informa sobre cycle chic como um jeito de trazer praticidade ao transporte acaba experimentando, e adere. Eu cruzo diariamente com ciclistas arrumadinhos no caminho do trabalho e digo certamente que esse número está aumentando. Não só porque é cool, mas porque é mais fácil e prático sair de casa pronto para o trabalho.
 
Qual sua produção preferida para pedalar?
Vestidos e salto alto. Meu guarda-roupa de pedalar = meu guarda-roupa. Há poucas restrições: calça pantalona e boca-de-sino, alfaiataria muito justa, saias curtas ou lápis e tulipa. Experimentei de tudo e todo o resto está liberado. Com shorts por baixo, até as saias curtas e justas deixam de ser um problema.
 
No Brasil, os homens também participam do movimento?
Felizmente, sim. A maioria dos “cycle chics” que eu vejo no caminho do trabalho hoje, são homens. Que delícia é ver os moços passando arrumadinhos de bike! Uns de roupa social, outros de jeans, jaqueta e uma boina bacana, outros num estilo mais indie. Mas todo mundo alinhadinho na sua bicicleta. É tão mais gostoso viver numa cidade com pessoas, em vez de carros de vidro escuro, com insulfilm.

“Nunca gostei daquelas roupas apertadas de atleta”
Carlos Aranha, 29 anos

Desde quando você anda de bike?
Comecei aos 27, seis meses depois de me mudar pra São Paulo.

O que fez você adotar a bicicleta como meio de transporte?
Nos seis primeiros meses por aqui, eu fazia uso diário do carro. Logo desisti. Ficar parado no trânsito enquanto a vida passa é um grande incômodo, mesmo com som e ar condicionado. O nosso trânsito é formado por milhões de carros que só carregam o motorista. O conceito está todo errado. Percebi então o surreal estilo de vida que vigora em São Paulo: horas por dia parado num carro; horas por dia pedalando no spinning de uma academia. Pescou de onde veio o meu grande estalo?

E o movimento Cycle Chic, como conheceu?
Nunca gostei daquelas roupinhas apertadas de atleta. Não gostava da idéia de que preciso me fantasiar pra me deslocar pela cidade em que vivo. Se não faço isso para andar a pé ou de metrô ou de carro, por que vou fazer na bike? Então, comecei a pedalar sempre com a roupa que eu queria usar no lugar para o qual estou indo. Sem especificidades. Posso dizer que conheci o movimento Cycle Chic depois de adotá-lo.

Dá pra pedalar de terno?
Sim. Precisei fazê-lo umas três vezes, e não tive problemas. A única diferença notável foi que, de terno, não fui em nenhum momento desrespeitado no trânsito: todos reduziram a velocidade e deram 1.5m de distância lateral ao ultrapassar. Alguns até sorriam e davam a preferência, como manda a lei. É uma pena perceber que o motorista, em seu preconceito invertido, não se dá conta de que aquele engomadinho é a mesma pessoa que passa de jeans e camisa nos outros dias.

Já passou algum perrengue na rua pela roupa que estava vestindo?
Sim, uma vez estava com uma camiseta amarela e um motorista cismou que eu era agente da CET. Ficou desesperado, me pedindo desculpas (?) pelo imperdoável fato de ter parado em cima de uma faixa de pedestres. Tentei explicar que eu só estava indo para casa e não adiantou. Mas parece que ele aprendeu: me prometeu nunca mais fazer isso. Uma senhora que tentava atravessar aplaudiu. E eu segui meu dia sorrindo.

“Ser cycle chic não significa abrir mão de sua segurança”
Evelyn Araripe, 25 anos

Com quantos anos você começou a andar de bike pela cidade?
Pedalo na cidade desde os 18, quando fazia faculdade em Piracicaba. Em São Paulo pedalo há dois anos e meio.

Como conheceu o movimento Cycle Chic?
Quando soube do movimento eu já pedalava com as roupas de ir para o trabalho (vestido, saia, salto alto, etc). Aí alguns amigos que souberam do movimento começaram a me comparar a ele e achei bacana a ideia.

Não é perigoso abrir mão de ítens de segurança, como o capacete?
Eu uso capacete. Ser cycle chic não significa abrir mão de sua segurança. Pedalar é uma escolha que envolve desde a roupa que será usada para pedalar até os equipamentos de segurança, que são opções do ciclista, mas não são ítens obrigatórios. O Código de Trânsito Brasileiro (CTB) reconhece a bicicleta como meio de transporte mas não exige o capacete como um item de segurança obrigatório.

Você se sente segura em pedalar sem usar roupas próprias para ciclistas?
Vou responder com outra pergunta: Como os motoristas fazem para se manter em segurança usando roupas comuns para trabalhar? Existe roupa específica para se andar de carro? Existe roupa específica para usar transporte público? Porque deveria existir roupa específica para quem tem a bicicleta como o seu meio de transporte? Se a bike é o meu meio de transporte, que me leva de um lugar ao outro, eu não preciso pensar em uma roupa para usar em cima dela e outra para quando eu descer dela.

Qual a reação das pessoas ao ver você andando de bike de vestido e salto alto, por exemplo?
A reação é ótima, pois a roupa do dia-a-dia chama mais a atenção dos motoristas, como se fôssemos verdadeiros extraterrestres (!). Quando uso vestidos e saias enquanto pedalo, percebo que os carros não me dão finas e passam bem mais devagar. Uma vez até fui fotografada por um motorista. Ele até publicou a foto no Twitter!

Dá pra ir pro trabalho pedalando, já produzida? Como fazer para não ficar suada?
Quando você começa a usar a bicicleta diariamente o seu corpo se condiciona muito rápido ao movimento. Em menos de um mês você percebe que não sua  mais ou que demora muito mais tempo para começar a suar. Quando comecei a vir pro trabalho de bike, trazia uma troca de roupa, pois sabia que chegaria suada. Mas um mês depois já comecei a pedalar com a roupa do trabalho, pois parei de suar.

Já passou algum perrengue na rua pela roupa que estava vestindo? Tipo, vestido que voa, deixar o sapato cair, coisas do tipo?
Uma vez uma saia minha enroscou na roda e sujou todinha de graxa. Outra vez o salto da minha sandália enroscou no pedal enquanto eu subia a Rebouças. Levei um belíssimo tombo! Mas vejo isso como algo normal. Tombos a gente leva andando a pé, pedalando com roupas de atleta, descendo do carro, do ônibus… por isso nunca vi esses incidentes como uma coisa ruim, mas como algo normal do dia-a-dia e que pode acontecer com qualquer um!

Movimento Cycle Chic incentiva beleza e praticidade sobre duas rodas

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