Às vésperas do Carnaval, enquanto a maioria dos brasileiros só pensa na folia dos blocos, nos desfiles de escola de samba e nos litros de cerveja que pretende beber, outros mal podem esperar para embarcar numa maratona de atividades radicalmente opostas. Há quem veja o feriado como uma grande oportunidade para se desligar das responsabilidades profissionais sem cometer excessos – recarregar energias, meditar, fazer caminhadas, desintoxicar o corpo e a alma, antes de mergulhar definitivamente no trabalho para o resto do ano. No interior do Rio, em meio a belas paisagens que incluem montanhas, rios, mar e cachoeiras, alguns retiros espirituais oferecem este tipo de escape durante os dias de festa. Em contato com a natureza, o participante pode fazer uma verdadeira jornada de autoconhecimento. Paraty, Teresópolis e Nova Friburgo, por exemplo, abrigam três lugares do gênero, onde se encontra paz e tranquilidade.

É o caso da jornalista Jaciara Rodrigues, de 37 anos, que cansou dos muitos anos de folia carnavalesca e há dois resolveu dar um tempo da confusão. Ironicamente, Jaciara, vez ou outra, veste a fantasia de porta-bandeira de um bloco de rua, no Rio de Janeiro. Mas, se esbalda duas semanas antes do Carnaval, para no feriado fugir para o interior do Rio. Seu primeiro retiro espiritual foi em Paraty, o Dharmashala. Este ano, a porta-bandeira vai se “esconder” em outro, em Teresópolis – o Vrajabhumi. “O evento pretende que você se harmonize. As pessoas chegam falando alto, conversando muito, e você vai percebendo que ao longo dos dias elas diminuem o ritmo”, explica a jornalista, que é também adepta do Yoga. “O principal foco destes retiros não é a religião, e sim a busca da espiritualidade de cada um”, explica, “embora muitos participantes costumam frequentar templos hinduístas”. No Vrajabhumi, podem participar de diferentes palestras e rituais de canto diários.

Por isso, em geral, estes retiros estão próximos de um ashram, um “templo”. Ao redor deles se fixaram estas pousadas, com o intuito de acolher os adeptos, cujo volume só tem aumentado nos últimos anos. Acyutananda Dasa, coordenador do resort espiritual e ecológico Dharmashala, em Paraty, explica que existem 70 vagas para a pousada e 200 em camping. Às vésperas do Carnaval, apenas cinco estavam disponíveis. Formado em Relações Internacionais, Acyutananda faz parte da ecovila há 12 anos. Chegou até ela por meio da prática de bhakti-yoga, aquele que é considerado o mais elevado método desta prática. Acyutananda é o nome espiritual de Antonio Carlos Vargas, e o coordenador revela um dado curioso: embora façam retiros quinzenalmente, o Carnaval e o Ano Novo são as épocas mais procuradas. “As pessoas que nos procuram estão em busca de um ambiente mais puro, de maior contato com a natureza e de afastamento do caos destas épocas nas grandes cidades.”

A terapeuta holística Lucília Ribeiro também iniciou há muitos anos um projeto semelhante, numa casa no distrito de Boca do Mato, em Nova Friburgo, com o seu núcleo de alunos de yoga. Hoje ela promove, na pousada Itororó, na mesma cidade, retiros espirituais que organiza várias vezes ao longo do ano. As vagas são limitadas de acordo com a lotação da pousada. “Metade dos apartamentos está reservada para os monges budistas conhecidos do dono da pousada”, conta a terapeuta. Lucília desenvolve um trabalho “anti-stress”, uma proposta de “auto-transformação e de contato com energias superiores”. Com formação em yoga terapêutica na Índia, diz que a procura por este tipo de atividade tem aumentado muito. Este ano, as vagas acabaram no final de janeiro. Cada retiro de Lucília tem um tema, e o próximo será o “Carnaval do Amor”: a palavra “amor”, segundo ela, corresponde à sigla de quatro focos para o retiro – alegria, movimento harmônico, oxigênio e relaxamento.

Sem mais artigos