A escritora francesa Simone de Beauvoir completaria 106 nesta quinta-feira (9) caso estivesse viva. Pedra fundamental da literatura feminista, Simone se concentrou plenamente em construir uma vida e uma obra consequente com suas ideias com um rigor e uma exigência que extrapolou a todos os âmbitos de sua existência.

Fugiu do casamento, viveu sua bissexualidade e renunciou à maternidade, incompatível segundo sua opinião com sua vocação de escrever, que lhe tomava muito tempo e liberdade. Sua grande ousadia foi questionar a “feminilidade”, elevá-la à categoria de mito, de algo fabricado. Assim ganhou a imortalidade.

Considerada uma de suas melhores obras, A Convidada (1943) enfoca o triângulo amoroso entre Simone de Beauvoir (Paris, 1908-1986) e Jean-Paul Sartre (Paris, 1905-1980) com uma jovem que fascinava ambos, e serve para questionar o modelo burguês de casal e de família, assim como explorar os dilemas existencialistas da liberdade, da ação e da responsabilidade individual.

Esses temas foram retomados em seus romances seguintes como O Sangue dos Outros (1944) e Os Mandarins (1954) – com o qual levou o Prêmio Goncourt e no qual conta a história de intelectuais lançados, como ela, no turbilhão liberação.

A entrada de Beauvoir no mundo das letras com A Convidada foi autobiográfica, uma constante que marcaria seus romances, ensaios, memórias e diários, além de, claro, sua vasta correspondência com seu companheiro, o também filósofo existencialista francês Jean-Paul Sartre e com o escritor americano Nelson Algren, seu amor transatlântico.

Beauvoir escreve sobre si mesma a fim de se compreender e de se constituir, segundo sua biógrafa, que ressalta na destacada intelectual francesa uma atitude de combate permanente, fruto da época de fortes antagonismos que viveu: a Guerra Fria.

Para a autora de ensaios tão influentes como O Segundo Sexo (1949) e A Velhice (1970) a vida é uma longa luta pela qual você consegue ser você mesmo(a), essa é a tarefa mais elevada e ineludível de todo ser humano. Para Beauvoir tudo se constrói, incluindo a felicidade e, claro, a identidade pessoal. Ela abraça uma filosofia que confia às pessoas, e só a elas, a responsabilidade de moldar seus próprios destinos.

Nesse sentido, Beauvoir e Sartre, casal mítico, inventaram um modo de vida ousado cujo radicalismo está fora do alcance da maioria das pessoas. Ocorreu a Sartre, até mesmo, a ideia de assinar com De Beauvoir um contrato de dois anos, renovável, durante os quais viveriam “na mais estreita intimidade possível”, mas distinguindo “amor necessário” (o deles) e “amores contingentes” (os amantes).

Depois desses dois anos, cada um recuperava sua liberdade por alguns anos, antes de voltar a se unir, fórmula não isenta de sofrimento, mas era o preço a pagar por ter liberdade garantida, segundo a biógrafa de Beauvoir.

Aos 50 anos, ao escrever Memórias de uma Moça Bem-Comportada (1958), se empenhou ao máximo em mostrar que superaram a prova e que a partir daí formaram uma espécie de corpo único com duas cabeças.

Um casamento que terminou com a morte dele em 1980 (ela morreria seis anos mais tarde) e que superou os altos e baixos emocionais de novos trios amorosos, sempre com jovenzinhas, e de amantes mais ou menos estáveis na vida de ambos: o escritor Nelson Algren e um jovem Claude Lanzmann, diretor de cinema (Shoah) e jornalista francês, no caso dela.

Com O Segundo Sexo tudo muda: confere unidade e brilho a reivindicações dispersas e, sobretudo, lhes dá substrato filosófico, uma base conceitual. Beauvoir ataca pedra a pedra (antropologia, sociologia, psicanálises, etnologia, literatura e história) o imenso edifício sobre o qual se assentava e justificava a dominação masculina.

A transcendência de seu ensaio é que milita não apenas a favor dos direitos das mulheres, mas do ser humano em geral.

Foi sua grande obra, embora ela não visse bem assim. “Alcancei – disse em suas memórias – um grande sucesso em minha vida: minha relação com Sartre”. “É bonito que nossas vidas tenham podido estar em harmonia tanto tempo”. Meio século.

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