Colin Kaepernick enfrenta resistência após protesto em hino

Divulgação Colin Kaepernick enfrenta resistência após protesto em hino

Colin Kaepernick é jogador do San Francisco 49ers desde 2011, quando foi selecionado para jogar a NFL (National Football League), a liga profissional esportiva mais popular dos Estados Unidos.

Foi escolhido o melhor jogador ofensivo de sua conferência em 2012 e, atuando na posição de quarterback, levou seu time ao protagonismo da liga nos últimos anos.

Mas desde 26 de agosto, Kaepernick se tornou assunto por outro motivo.

O jogador ajoelhou durante a execução do hino nacional americano em uma partida de pré-temporada da NFL, como forma de protesto pela violência policial contra negros no país, assunto que se acirrou a partir, principalmente, de assassinatos cometidos pela polícia em 2014.

Jogador se ajoelhou durante hino

Reprodução Jogador se ajoelhou durante hino

“Eu não vou me levantar e mostrar orgulho pela bandeira de um país que oprime os negros e pessoas de cor. Para mim, isso é mais importante que futebol e seria egoísta da minha parte virar a cara. Há corpos na rua enquanto os responsáveis recebem licença remunerada e ficam impunes por assassinatos”, afirmou ele.

Kaepernick tocou em duas feridas abertas e gigantes dos Estados Unidos: racismo e patriotismo. Virou vilão para muitos – alguns, inclusive, seus fãs-, mas chamou a atenção para a crise de segurança pública e racismo pela qual o país passa.

Em 2015, 102 negros inocentes e desarmados foram mortos em ações da polícia nos EUA, o que dá uma média de, mais ou menos, duas vítimas por semana, algo muito acima do aceitável para um país de primeiro mundo.

“Não estou buscando aprovação. Eu preciso ficar ao lado das pessoas que são oprimidas… se tirarem o futebol de mim, meus patrocínios, eu saberei que defendi o que era certo”, disse o jogador, que não tem medo das críticas.

Racismo em um esporte com maioria de jogadores negros
Cerca de dois terços dos jogadores da NFL são negros. Porém, a posição de protagonista do jogo, justamente o quarterback, responsável por organizar jogadas ofensivas, dar passes e ser o grande líder das equipes dentro e fora de campo, é domina por brancos.

Por isso, jogadores como Tom Brady e Peyton Manning, este último que se aposentou ao final da última temporada, se tornaram símbolos do bom-mocismo americano e principais rostos de publicidade da liga, levantando um debate sobre a falta de representatividade de negros no protagonismo da competição.

Nunca um time com negros nessa posição ganhou o Super Bowl, a grande final da NFL. O fato poderia ter acontecido pela primeira vez no ano passado, quando Cam Newton, do Carolina Panthers, disputou o título com seu equipe, que foi derrotada pelo Denver Broncos, time de Manning.

Em sua própria equipe e torcida, Kaepernick enfrentou resistência. Seu técnico,  Jim Harbaugh, que é branco, disse não respeitar o ato e a motivação de seu jogador. Dias depois, ele pediu desculpas.

Alguns atletas negros, como Victor Cruz, do New York Giants, também se opuseram ao gesto. “Você precisa respeitar a bandeira. Você precisa se levantar com seu time”, opinou.

Torcedores do 49ers se dividem em discussão

Divulgação Torcedores do 49ers se dividem em discussão

Seu uniforme, com a camisa de número 7, foi queimado por alguns fãs. A polícia de Santa Clara, na Califórnia, ameaçou não trabalhar na segurança dos jogos do 49ers em casa por conta da manifestação.

Nas arquibancadas, fãs se dividem entre levantarem cartazes pedindo a cabeça do jogador e se voltando contra ele e agradecerem Kaepernick por usar sua imagem para dar atenção e um problema que parece cada vez mais grave.

O que, de fato, ele conseguiu.

Até o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, deu sua opinião e apoio ao jogador. “Devo dizer que não tenho pensando em futebol [americano] enquanto estou aqui e não estou acompanhando o caso de perto. Mas no meu entender, ele está exercendo seu direito constitucional de fazer uma declaração. Há um longo histórico de figuras esportivas fazendo isso”, disse ele.

Black Lives Matter
Criado em 2014, o Black Lives Matter (a vida dos negros importa) surgiu como forma de manifestar repúdio ao assassinato de Michael Brown por um policial na cidade de Ferguson, nos EUA. Mesmo sem reagir e estando desarmado, ele foi alvejado pelo oficial e não resistiu.

Em julho deste ano, mais duas abordagens desastrosas da polícia causaram indignação entre a comunidade negra. No dia 6 daquele mês, centenas de pessoas foram às ruas em Louisiana pedir justiça pela morte de Alton Sterling, pai e casado, que foi morto por um policial com uma série de tiros. A ação foi gravada e nela é possível ver que Alton sequer se mexeu durante a abordagem.

Por incrível que pareça, enquanto o protesto crescia, outra abordagem policial com morte foi registrada. Em Minnesota, Philando Castile , negro de 32 anos, foi assassinado na frente de sua namorada e filha após ser parado em uma blitz. A ação também foi filmada, neste caso pela própria companheira dele.

“Esse debate tem sido um lembrete que – não importa as condições para a compaixão, compreensão e apoio – quando se trata de reconhecer a existência do racismo e a ponderação da forma mais apropriada de lidar com isso, muitos americanos se agarram ao privilégio de manter seus próprios placares”, opinou o jornalista David Leonard em um artigo publicado no jornal Vox.

Islamofobia entra em jogo
Desde os atentados ao World Trade Center, em Nova York, em 2001, a islamofobia ganhou força na sociedade americana. A namorada de Colin Kaepernick é muçulmana, o que fez com que parte da imprensa e população nos EUA começassem a debater a possibilidade do atleta ter se convertido e, por isso, se ajoelhado durante o hino.

“Acho que [esses rumores] estão associados ao medo que as pessoas sentem desse protesto, assim como à islamofobia. As pessoas têm tanto medo deles que chegam ao ponto em que Trump quer banir todos os muçulmanos do país, o que é ridículo”, criticou ele.

Mesmo colocando em jogo sua própria carreira, Colin Kaepernick dirigiu os holofotes em uma discussão que escancara a forma como o racismo se insere discretamente e com muita força em uma sociedade, especialmente quando ela não quer enxergá-lo.

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