Se você é uma pessoa esperta que navega pela internet, já percebeu que está todo mundo falando do David Bowie. O motivo é a exposição que abre as portas ao público nesta sexta (31), no MIS.

Algumas centenas de sortudos, como eu, puderam visita-la um dia antes. Com direito a petiscos e bons drinks, a mostra ficou lotada minutos depois de abrir as portas oficialmente, por volta das oito da noite.

Ansiosa na fila, não pude crer ao ver que muita gente ficou no foyer do museu tomando prosecco e comendo empadinha em vez de ir logo devorar o prato principal da noite: a vida e a obra de um dos seres humanos mais interessantes do planeta.

Sim, porque, antes de mais nada, não é preciso ser fã da música deste inglês de olhos misteriosos para degustar a exposição. A beleza dessa montagem está na oportunidade de mergulhar de cabeça na vida de uma pessoa que não é como outra qualquer. Porque só ele é David Bowie.

Fazer o que ele fez, do jeito que fez e na época em que fez fazem dele um ser à parte. Se hoje há espaço para a) Lady Gaga lotar estádios montada como um travesti ou b) Madonna beijar na boca as cantoras mais quentes do momento ou aindac) coloque aqui qualquer transgressão muito louca realizada por um artista atual é porque, antes, houve David Bowie.

É tipo assim. Enquanto o mundo pirava com a chegada do homem à Lua e a obra-prima espacial de Stanley Kubrick 2001: Uma Odisséia no Espaço, Bowie fazia sua ode peculiar, retratando no álbum Space Oddity (1969) um astronauta que perde contato com a Terra. Enquanto em 1979 estava todo mundo querendo ser John Travolta, Bowie lançava um clipe (Boys Keep Swinging) em que aparecia vestido de mulheres (sim, no plural). Ou ainda enquanto todo mundo olhava para os punks e a era dos góticos começava a se desenhar, Bowie se vestia de pierrô e falava abertamente de seu vício em cocaína (Ashes to Ashes).

Listar num texto a riqueza da carreira artística de David Robert Jones, este senhor gato, que completou em janeiro último 67 anos, já é uma missão complicada. Imagina apresenta-la numa exposição.

Montada em Londres pelo Victoria and Albert Museum, reproduzi-la no Brasil, no MIS, era tarefa árdua, pensando no tamanho do museu paulistano, muitas vezes menos que o inglês.

Fato é que o MIS tirou leite de pedra, a montagem aproveita cada centímetro do espaço e o resultado é uma viagem solitária ao universo do cantor.

O fone de ouvido é o companheiro essencial do visitante. Com disparo automático dos áudios à medida que nos deparamos com as diferentes áreas expositivas, o fone te coloca num mundo à parte.

Para quem é fã a visita fica mais especial, é claro. Ver, por exemplo, a roupa do clipe Ashes to Ashes fez meu coração pular até a boca. O manuscrito da letra de Heroes fez os até os pelinhos da minha nuca se arrepiarem. Assistir à participação dele na peça O Homem Elefante me fez entender o quão bom ator ele é.

O ponto alto da visita, pra mim, é a sala com as projeções de clipes e shows, ornamentada com muitos, muitos figurinos. Você abre uma cortina preta, e, uau, chega a essa sala com pé direito alto, dá de cara com Bowie cantando Heroes no telão e com uma penca de roupas dele. Para os mais fracos, como é meu caso, fica difícil não chorar.

Você está lá com seu fone, e não tem como a visita não virar uma viagem ao seu self. A dica é se livrar, disfarçadamente, da amigue, do marido, enfim, é a sua chance de ter um tête-à-tete com o cara. Dance, cante, pague mico. Vai ficar tudo bem.

A visita, pelo menos para mim, durou cerca de duas horas e meia. Saí dali tendo a certeza de que, de alguma forma, havia passado um tempo com uma das pessoas mais legais do mundo.

Se realmente esta cidade for tomada por uma febre David Bowie, não pense duas vezes em entrar numa fila gigante e esperar horas em frente ao MIS. Acampe lá, se for preciso. São Paulo vai ser um lugar melhor se todos os cidadãos puderem ver a mostra que fica no MIS até 20 de abril.

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