“Que a vida começasse agora… e o mundo fosse nosso outra vez…”

Quem tinha no mínimo dez anos de idade em janeiro de 1985 certamente se lembra dessa letra. O tema musical que martelou aquele verão havia sido composto especialmente para o primeiro megafestival de música do Brasil: o Rock in Rio.

Criado pelo empresário Roberto Medina, o evento aconteceu entre 11 e 20 de janeiro de 85, na Cidade do Rock – um espaço levantado para o festival, em Jacarepaguá, Rio de Janeiro. Para se ter uma ideia da dimensão da coisa, a Cidade do Rock contava com o maior palco do mundo construído até aquele momento, em uma área de cinco mil metros quadrados.

A importância do Rock in Rio estava no fato de trazer ao Brasil, de uma só vez, inúmeros astros do pop e do rock internacional, numa época em que shows internacionais eram bastante raros no país.

Além disso, o Brasil não tinha a infraestrutura e o padrão de realização para eventos desse porte – até então, as poucas tentativas nesse sentido tinham sido um tanto desajeitadas: o primeiro Hollywood Rock, no campo do Botafogo (RJ) em 1975, e o clássico Festival de Águas Claras (numa fazenda em SP, uma espécie de “Woodstock brasileiro”, realizado em 75, 81, 83 e 84). Eram eventos que não atingiam o nível de profissionalismo para se equiparar aos similares estrangeiros.

A banda inglesa Queen, com Freddie Mercury e Brian May

A banda inglesa Queen, com Freddie Mercury e Brian May, tocando no Rock in Rio I

Mas o Rock in Rio também não foi perfeito, e muito pelo contrário, como disseram os críticos e inimigos do festival. Logo de cara uma ameaça pairava sobre o evento: veio à tona uma suposta profecia de Nostradamus (1503-1566), segundo a qual uma tragédia mataria milhares de jovens durante uma reunião no sul do planeta em janeiro de 1985. Para afastar o mau olhado, o Rock in Rio contratou o astrólogo Bola, que fez o mapa astral do festival. O místico garantiu que seria um festival tranquilo.

Tranquilo, tirando as chuvas. As tempestades de verão transformaram a Cidade do Rock em um enorme lamaçal – mas isso não impediu a presença maciça do público (cerca de 1,38 milhão de pessoas passaram por lá para ver os 29 artistas que se apresentaram).

O time de astros gringos contratados para o Rock in Rio era invejável: Queen, AC/DC, Scorpions, Whitesnake, Iron Maiden, Nina Hagen, B-52’s, Rod Stewart, James Taylor, Ozzy Osbourne, Yes, entre outros.

E o time nacional contava com uma seleção bastante eclética – e bem pouco “roqueira”: Ney Matogrosso, Elba Ramalho, Gilberto Gil, Baby Consuelo e Pepeu Gomes, Moraes Moreira, Eduardo Dusek, Ivan Lins… o rock mesmo estava representado por Barão Vermelho, Blitz, Lulu Santos, Paralamas do Sucesso, Kid Abelha e Rita Lee – que teria ganho o maior cachê nacional do evento.

Cazuza à frente do Barão Vermelho

Cazuza à frente do Barão Vermelho no Rock in Rio I

Alguns shows entraram para a história do pop, como o do Queen, com Freddie Mercury regendo a multidão que cantava Love of My Life.

Outro momento marcante: o grupo Barão Vermelho, ainda liderado por um Cazuza new wave, devidamente vestido com figurino na linha Menudo. O Barão tocou duas vezes – a primeira na noite de 15 de janeiro. Naquele dia, o Colégio Eleitoral havia realizado a última eleição indireta para presidente do Brasil, elegendo Tancredo Neves em detrimento de Paulo Maluf. Tancredo era o candidato das Diretas Já, campanha popular que fracassara ao pedir eleições diretas para presidente em 1984.

Em menção ao fato político histórico, ao encerrar o show Cazuza declarou, no final da música Pro Dia Nascer Feliz: “Que o dia nasça lindo pra todo mundo amanhã… com um Brasil novo, uma rapaziada esperta!”

Muitas lendas cercaram o festival, como a de que Ozzy Osbourne iria comer morcegos vivos durante seu show – para evitar esta cena, a organização proibiu Ozzy, por contrato, de comer animais vivos em seu show.

Show do Queen

Show do Queen na Cidade do Rock

Segundo o livro Metendo o Pé na Lama, de Cid Castro (criador da logomarca do Rock in Rio), o festival quase não aconteceu, por falta de atrações. A obra afirma que Roberto Medina penou para contratar os artistas, e só conseguiu depois que seu pai, Abraham Medina, publicou matérias pagas em jornais estrangeiros. Antes disso, os empresários dos artistas não “botavam fé” nesse megafestival que seria realizado num país exótico e “selvagem”. O Brasil, definitivamente, não estava na rota das grande bandas pop.

O resto é história: com o sucesso do Rock in Rio, uma segunda edição aconteceu em janeiro de 1991, no Maracanã, e a terceira em janeiro de 2001, numa nova Cidade do Rock no Rio. Então vieram as inusitadas versões estrangeiras: Rock in Rio Lisboa (em 2004, 2006, 2008, 2010, 2012 e 2014) e Rock in Rio Madrid (2008, 2010 e 2012), além de mais duas edições no Rio (em 2011 e 2013), no Parque Olímpico Cidade do Rock.

O ano de 2015 vai assistir às duas novas edições: o Rock in Rio Las Vegas (em maio) e o Rock in Rio VI, no Rio, em setembro. Hoje o festival é considerado um dos dez melhores do mundo. E tudo começou com aquela lamacenta e desvairada primeira edição, há 30 anos.

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