Ela foi a primeira atriz a aparecer nua em um filme brasileiro (Os Cafajestes, 1963, de Ruy Guerra). Atuou no único filme nacional que ganhou a Palma de Ouro em Cannes (O Pagador de Promessas, 1962, de Anselmo Duarte). Foi musa do Cinema Novo, do Cinema Marginal, lutou contra a ditadura, foi presa e fichada no DOPS, exilou-se, voltou, pegou a onda das pós-pornochanchadas (Rio Babilônia, 1983, de Neville D’Almeida), virou diretora de cinema (Eternamente Pagu, 1986 e O Guarani, 1997 – este último lhe valeu processos judiciários, nos quais foi acusada de desviar recursos) e terminou atuando na sitcom global Toma Lá Dá Cá.

Morta em outubro de 2013 aos 78 anos, doente e esquecida, Norma Bengell tem agora a chance de ser reavaliada. A atriz, diretora e produtora (e que foi também cantora) é o assunto da autobiografia póstuma que leva seu nome.

“Durante minha vida, me acusaram de ser muitas coisas: p…, comunista, sapatão, sapatilha. Mas nunca poderão me acusar de uma coisa: de que fui covarde”, diz Norma no livro – finalizado por ela própria pouco antes de sua morte. A produtora cultural Christina Caneca colaborou no processo de organização do livro – os originais foram escritos por Norma em dois períodos diferentes, e muitos trechos estavam datilografados à máquina de escrever.

Na obra, Norma não tem pudores de abordar as diversas fases de sua carreira, assim como as polêmicas nas quais se envolveu (nos bastidores do teatro, do cinema, da TV e da política).

Sua fama de “estrela” rendeu muitos episódios tumultuados – como sua briga com Daniel Filho nas gravações da novela Dancin’ Days (1978): ela estava gravando no papel da vilã Yolanda Pratini, a antagonista de Júlia Matos (Sônia Braga). Mas Norma queria que seu nome viesse com destaque nas chamadas da novela (prestes a estrear). O clima fechou entre ela e Daniel, e a atriz acabou deixando o trabalho. Joana Fomm acabou encarnando Yolanda e alcançou grande sucesso.

Norma Bengell lança autobiografia póstuma

Norma Bengell e Oscarito no filme O Homem do Sputnik (1958)
Créditos: Divulgação

Nos últimos anos de sua vida, Norma atuou no seriado de humor da Globo Toma Lá Dá Cá, onde vivia a masculinizada Deyse Coturno, apelidada de “A Sapatão” pelos personagens da série.

Uma alcunha que também rondou a vida pessoal da atriz. Embora tenha se casado com o ator italiano Gabrielle Tinti, com quem contracenou no filme Noite Vazia, 1964, de Walter Hugo Khoury – na ficha da atriz no DOPS consta o nome de Norma Bengell Tinti -, rumores sobre a homossexualidade de Norma foram constantes. A autobiografia ressalta que ao perder uma “grande amiga” – uma amizade que durou mais de 30 anos – a atriz ficou “psicologicamente abalada” e à base de remédios.

“Apesar de ainda um pouco inconsciente, eu não era uma mulher como as outras, moldada para ser objeto. Eu gostava dos homens até o ponto em que percebia que eles começavam a me subjugar”, diz Norma no livro, entre outras frases de efeito, como esta: “Tive vários amantes, mas não conseguia parar com nenhum. O que eu buscava era algo que me diziam que não era real, mas eu sabia que existia: o amor”.

Outro petardo da atriz: “Foi nos Estados Unidos onde um médico me indicou o uso do diafragma. Fiquei eufórica com a nova descoberta: eu não teria mais que fazer abortos e poderia ter prazer livre, leve e solta. E o melhor de tudo, sem culpa”.

“Trabalhei muito, batalhei muito, amei muito, me rebelei muito. Vivi muito. Tudo sempre muito e demais e intensamente”. Lendo Norma Bengell, não fica nenhuma dúvida.

Norma Bengell
De Norma Bengell
Organização Christina Caneca
366 páginas
R$59,90
Editora NVersos


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"Me acusaram de ser muitas coisas: p..., comunista, sapatão", diz Norma Bengell em autobiografia póstuma

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